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Voleibol: Uma modalidade com um novo rumo

Khalid Cassam é o novo presidente da Federação Moçambicana de Voleibol (FMV), sucedendo no cargo ao seu oponente na corrida eleitoral, Camilo Antão. Trinta e três anos depois, tempo em que durou a gestão de Antão, esta modalidade pode conhecer novos projectos, novas caras e, acima de tudo, uma nova visão. Nesta edição, o @Verdade conversa com Khalid, para entender o motivo que o levou a enfrentar Camilo Antão, bem como conhecer os principais pontos do seu projecto governativo para os próximos quatro anos.

@Verdade – Quem é Khalid Cassam?

Khalid Cassam (KC) – Sou um cidadão moçambicano de 45 anos de idade, natural de Nampula. Sou casado e pai de três filhas, agrónomo de profissão e funcionário da Organização das Nações Unidas para a Agricultura. Na arena desportiva sou um eterno amante do voleibol e atleta desde o longínquo ano de 1983. Entrei pela porta do Desportivo de Maputo por influência de um tio para, três anos mais depois, jogar pela primeira vez na selecção nacional júnior. Em 1998, com o desaparecimento físico de Jeremias Como, fui obrigado a assumir a função de treinador principal da equipa da Académica e, ainda assim, não deixei de ser atleta.

@V – Quando é que começou a interessar-se pela gestão desportiva?

KC – Em 2000 quando fui convidado a assumir a função de secretário-geral da Associação de Voleibol da Cidade de Maputo (AVCM) para, quatro anos mais tarde, ser eleito presidente da mesma. Fui reeleito para o cargo em 2008 mas, devido a problemas internos, renunciei uma vez que Khalid era, naquela ocasião, um problema.

@V – Que problema?

KC – Contestava-se o facto de continuar como jogador e treinador da Académica, uma equipa filiada à associação. Então, todos, refiro-me às equipas, começaram a associar o elenco da federação ao clube Académica. Foi legítima a contestação e porque o voleibol ainda me corria nas veias, preferi abandonar o cargo como forma, também, de dar espaço a novas ideias.

@V – E nestes seis anos como presidente da AVCM, quais foram as suas grandes obras?

KC – Fiz muita coisa boa. Tenho a destacar a criação e consequente aprovação dos estatutos da AVCM, bem como o respectivo reconhecimento jurídico; a implantação do voleibol de sala, que passou a ser praticado em pavilhões cobertos; a prática do voleibol sem interrupção durante um ano, todos os sábados e o número de equipas que aumentou consideravelmente.

Potenciei as equipas da cidade de Maputo que passaram a ser tradicionais nas competições nacionais. Foi uma gestão exemplar, que soube dar à modalidade tudo de que ela precisava. Saí sem dever a ninguém e nenhuma conta falhou durante o período em que assumi o comando.

@V – Foi por essa boa gestão na cidade de Maputo que decidiu candidatar-se a presidente da federação?

KC – Eu sou um apaixonado pelo voleibol. Eu vivo esta modalidade na sua plenitude. Um dos momentos mais felizes da minha vida é quando estou dentro da quadra, a jogar voleibol. Gosto também de ver atletas a praticar esta modalidade e isto causa em mim muita alegria. Foi este sentimento, fundamentalmente, que me motivou a apresentar a minha candidatura.

@V – É do conhecimento do @Verdade que foi obrigado pelos atletas a apresentar a candidatura. É verdade?

KC – Durante o Campeonato Nacional de Voleibol de Praia, que decorreu no último mês de Janeiro em Maputo, os atletas de todo o país, inclusive o próprio secretário-geral, Pelágio Pascoal, reuniram-se comigo e disseram-me o seguinte: “Temos de mudar este triste cenário do nosso voleibol. Pelo carisma e pela experiência, vemos em ti a única pessoa capaz de enfrentar Camilo Antão”.

@V – Na sua óptica, quando se fala de cenário actual, a que se referem exactamente?

KC – É inconcebível, por exemplo, estarmos a trabalhar com bolas que eram usadas há 15, 16 anos; é inaceitável que as associações continuem sem pagar as quotas de filiação à federação e, pior que isso, a agremiação-mãe não dar nenhum tipo de apoio financeiro às associações provinciais, sabendo que estas não dispõem de nenhuma fonte de receita; o voleibol não pode continuar a ser praticado somente na cidade de Maputo e a prioridade não pode ser (somente) o voleibol de praia.

O país só tem dois clubes que praticam o voleibol, nomeadamente a Associação Académica de Maputo e o Ferroviário da Beira. Durante 33 anos não houve estratégia nenhuma para se inverter este cenário. Há falta de campos para a prática desta modalidade e entendo, também, que faltam treinadores qualificados, quer para as competições, quer para a formação.

@V – Com isso pretende dizer que faz uma avaliação negativa dos 33 anos de direcção de Camilo Antão?

KC – Numa escala de 1 a 10, eu dou 2 valores à direcção de Camilo Antão. Eu fui e continuo a ser um dos maiores críticos dele enquanto presidente da FMV. Disso todo o mundo sabe. Mas numa análise percebi que ele fez muita coisa para o voleibol moçambicano, senão o mesmo teria parado. Lembro-me com nostalgia da organização dos Jogos Africanos, onde vimos um Camilo Antão a entregar-se ao trabalho. Aliás, a entrega ao trabalho constitui uma característica nata deste dirigente.

@V – Mas esse discurso é recente. Objectivamente, onde é que Camilo Antão falhou?

KC – Camilo Antão falhou ao ter promovido o voleibol moçambicano somente na cidade de Maputo. Falhou, também, ao preocupar-se com a projecção internacional, esquecendo-se de que o mesmo depende do que é feito internamente. Até hoje condeno-o pelo facto de a FMV não ter sequer uma sede, enquanto existe um edifício oferecido pelo Governo.

É imperceptível como é que em 33 anos ele não conseguiu formar árbitros nacionais e internacionais, olhando somente para o voleibol de praia. Eu sempre discuti com o professor Camilo Antão o facto de o país não enviar para o exterior atletas com um forte potencial no voleibol, o que lhes podia conferir experiência e qualidade técnicas suficientes para orgulhar o nosso país.

@V – Uma das coisas que disse ao apresentar a candidatura foi que “a FMV devia estar nas mãos de pessoas jovens, com mente aberta a mudanças e, acima de tudo, precisa de uma reestruturação profunda”. O que quis dizer com estas palavras?

KC – Quis com isto dizer que o elenco dirigido por Camilo Antão estava cansado e desusado. Quando falei de mente aberta, referia-me a um comando horizontal, que saiba gerir o voleibol de forma colectiva, promovendo a participação de todos os intervenientes na tomada de decisões. É preciso que as pessoas que estejam na federação tenham uma visão a curto, médio e longo prazo.

E a reestruturação é na componente de, primeiro, legalizar-se todas as nossas associações provinciais visto que das oito apenas duas são reconhecidas; segundo, implantar associações em todas as províncias e universalizar os estatutos dos mesmos; terceiro, equipar as províncias com material de trabalho de modo que, a médio prazo, tornemos o voleibol a segunda modalidade prioritária do país.

@V – Na sua opinião, o que terá falhado no relacionamento entre a federação e as associações?

KC – As associações foram mal acompanhadas. A federação isolou- se e distanciou-se delas.

@V – No que diz respeito a infra- estruturas, prometeu sedes para a federação e para as associações provinciais. De que modo pensa fazer isso?

KC – O Governo ofereceu um edifico à FMV para instalar a sua sede. Nós não faremos mais nada senão correr atrás deste processo, mas para isso precisamos de recuperar o dossier. Sobre as associações provinciais, pretendemos persuadir os governos locais a ceder espaços que sirvam de sedes. Não pretendemos edifícios muito grandes, pois um escritório que possa albergar um secretário-geral é suficiente.

@V – Disse que vai pagar a todos os funcionários, quer das associações provinciais, quer da própria federação. Vai conseguir cumprir esta promessa?

KC – Se nós quisermos evoluir, temos de pagar às pessoas. Mas para isso precisamos de pessoas que estejam a trabalhar a tempo inteiro para o voleibol. Os fundos existem, só precisamos de inteligência suficiente.

@V – No seu manifesto eleitoral não abordou a construção de campos. O voleibol não precisa deles?

KC – A questão dos campos é muito complexa. Se prometesse construir, estaria num exercício de demagogia para obter votos. Não mencionei este aspecto não por esquecimento, mas sim por cautela. É um dos pontos que pretendo discutir com os meus associados para encontrar uma solução, partindo do pressuposto de que não temos sequer um campo próprio.

@V – Mas quando decidiu candidatar-se não vinha com uma ideia acerca disso?

KC – Obviamente que sim. A minha ideia é potenciar os pavilhões existentes nas escolas. A minha vontade é ver o voleibol a ser praticado nas escolas bastando, para isso, criar uma parceria com as entidades competentes. Vou citar um exemplo: se podemos praticar o voleibol na Escola Secundária Francisco Manyanga porque é que a federação não pode reabilitar aquele campo?

@V – Quer dizer com isso que o voleibol passará a usar os pavilhões das escolas?

KC – Sem dúvidas. Os campos existem e, considerando que o voleibol é uma modalidade que se pratica regularmente aos fins-de-semana, porque é que não podemos aproveitar?

@V – No que diz respeito a competições, apresenta no seu manifesto uma abordagem jamais feita no país: competições a partir dos distritos até ao nível nacional. Pode explicar como serão feitas?

KC – No meu manifesto apresento duas abordagens: os campeonatos e as taças. No que diz respeito aos campeonatos, o sistema será de todos contra todos e vão partir efectivamente dos distritos onde serão apurados os melhores para os campeonatos provinciais, e destes para os regionais. Já nos campeonatos regionais vão ser encontrados os melhores para os campeonatos nacionais.

As taças, que partem também dos distritos, terão um sistema a eliminar, onde a equipa que for a perder ficará automaticamente desqualificada. A nível do distrito será encontrado um vencedor que vai disputar a Taça Provincial. Na província será apurado um vencedor que vai competir na Taça Regional e dela para a Taça de Moçambique. Em suma, queremos que o voleibol esteja nas bases e a ser praticado por todos.

@V – Este sistema de competições não vai absorver muito dinheiro para além do próprio tempo, atendendo a que temos no país 128 distritos?

KC – É um desafio. Estamos cientes de que é caro, mas não tão caro como se pode pensar. As associações provinciais têm de ser capazes de trabalhar nesta vertente, até porque é para isso que elas existem. A federação vai dar o seu apoio e todos nós, juntos, movimentaremos esta modalidade.

@V – Prometeu acabar com os clubes anónimos…

KC – Não. Não prometi acabar com as equipas anónimas. Apenas disse que é preciso devolver o voleibol aos clubes de renome no país, para que possamos transformar esta modalidade. Ela tem de passar a ser de massas. Para isso, definimos como estratégia pegar nas equipas anónimas e incorporá-las nos clubes grandes que não têm esta modalidade, como, por exemplo o Desportivo de Maputo, o Ferroviário de Maputo ou de Nampula, o Maxaquene, entre outros.

@V – E qual será a relação custo-benefício deste projecto?

KC – Nós vamos negociar com os clubes e as equipas que vão ser abrangidas não têm de cobrar nada por este processo de transferência. Elas continuarão a ser auxiliadas pela federação. Contudo, adoptarão os nomes dos respectivos clubes para se dar uma outra imagem ao nosso voleibol.

@V – Quais são os projectos de formação para os próximos quatro anos?

KC – O nosso ponto fulcral é formar formadores de atletas e de treinadores. Faltam-nos estes profissionais no país. Mas também queremos formar árbitros e profissionais de estatística, segundo os padrões internacionais da modalidade. Para o efeito, vamos envidar um grande esforço junto dos professores de educação física e amantes do voleibol que queiram transmitir os seus conhecimentos à modalidade. Queremos levar a cabo o mini-volei a partir dos distritos, aproveitando as escolas e as suas infra-estruturas.

@V – Qual é o horizonte no que diz respeito à formação?

KC – Primeiro massificar a modalidade. Queremos, no fim do nosso mandato, ter um mínimo de dois árbitros internacionais e, pelo menos, um treinador formado no nível 2 ou 3 para cada região.

@V – Quer revitalizar a selecção nacional. Qual é a estratégia?

KC – Neste momento o que se verifica é que as selecções nacionais comportam apenas atletas da cidade de Maputo. É necessário que os nossos técnicos viajem pelo país e, através dos campeonatos regionais, encontrem atletas capazes de alinhar na selecção. A ideia que trago é criarmos três selecções internas, uma por cada região e dessas sair a selecção nacional.

@V – 33. 772. 339, 16 meticais é o orçamento global do projecto de quatro anos da sua direcção. Onde é que irá buscar tanto dinheiro, atendendo a que do Governo poderá receber no máximo cinco milhões de meticais?

KC – Nos patrocinadores nacionais e internacionais, bem como nas associações provinciais, através de quotas.

@V – Os patrocinadores terão disponibilidade para desembolsar cerca de 28 milhões de meticais?

KC – Temos de entender que este é um orçamento global, assente em cinco pilares: despesas com o pessoal, bens, serviços, premiação e imprevistos. Os patrocínios não precisam de ser em dinheiro porque, por exemplo, pode vir um patrocinador a responsabilizar-se pela premiação dos atletas. Quem irá investir não é a federação, mas sim o tal parceiro.

@V – E se falharem?

KC – Há sempre um plano B. Se algo estiver a falhar, vamos reunir-nos com as associações provinciais para, com aquilo que temos, redefinir as prioridades.

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