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África do Sul: Mamphela Ramphele lança novo partido

A consagrada académica e activista da luta contra a segregação racial e, actualmente, dos direitos humanos, Mamphela Ramphele, convidou os sul-africanos a edifi carem um país de sonhos com o lançamento de uma nova força política denominada “Agang”, que em língua Setswana significa “vamos edificar”, que será oficializada em Junho próximo.

Ramphele, vestida de trajes tradicionais, discursou perante jornalistas, convidados, membros de organizações não governamentais e de empresários, na conferência de Imprensa que teve lugar na última semana na Cadeia Feminina de Constitution Hill. “Compatriotas, hoje encontro-me aqui para convidar-vos a juntarem-se a mim na jornada de construção de um país de sonhos”, foi assim que ela se dirigiu aos presentes.

A académica e defensora dos direitos humanos destacou ainda que estava a trabalhar com um grupo de compatriotas na edificação de uma plataforma política, que irá focar-se na procura duma esperança capaz de edificar uma nação de sonhos que acredita ser possível no presente.

“País dos nossos sonhos”

Mamphela Ramphele afirmou, durante a sua intervenção, que muitos sul-africanos tinham perdido a noção do país de sonhos. “A minha geração deve pedir desculpas aos jovens do nosso país. Nós errámos. Sim, errámos”.

Enquanto o Presidente da África do Sul, Jacob Zuma, apresentava na semana antepassada o Estado da Nação durante a abertura do Parlamento, Ramphele optou por não tecer críticas. Mas no lançamento do seu partido tratou de apontar os erros que, na sua óptica, têm sido cometidos pelo Governo desde 1994.

Dos referidos erros, destacam-se as falhas no sistema da educação, governação deficiente, a péssima qualidade dos serviços básicos, a exclusão económica da maioria da população e a situação do país perante a confusa política internacional.

Ela criticou ainda o processo da elaboração das listas nominais e da distribuição de assentos parlamentares por parte do partido no poder, o Congresso Nacional Africano (ANC), e revelou que pretende lançar uma campanha de recolha de um milhão de assinaturas para forçar uma reforma da lei eleitoral. “A reforma eleitoral deve ser prioridade nas actividades parlamentares depois de 2014. O bom da nossa sociedade está a ser severamente ofuscado pelos erros de governação.”

Guerra contra a corrupção

Ramphele assegurou que a nova força política iria declarar guerra contra a corrupção. “A corrupção é ladra. Ela rouba os livros das nossas crianças, rouba os medicamentos dos doentes. Ela rouba ainda a comida dos pobres e das crianças, e, como se não bastasse, rouba a esperança dos cidadãos e destrói a paz”.

Segundo a líder da “Agang”, a África do Sul não teve tempo após o fim do apartheid para mudar de mentalidade, para construir uma sociedade pensante, daí que grande parte da população se sinta excluída e marginalizada em todos os níveis das suas vidas.

“Convido todos os compatriotas a trabalharem connosco na edificação da África do Sul. Devemos fazer isso pelos nossos filhos. Devemos deixar um legado para este país. Aliem- -se a esta causa”, apelou.

Analistas e partidos divergem quanto ao “Agang”

Apesar dos gritos de alegria e, acima de tudo, do grande destaque que teve o anuncio da nova formação política, Mamphela Ramphele recebeu críticas por parte de analistas e dos diferentes partidos sul-africanos. Em comunicado, o ANC disse esperar que a entrada de fundos estrangeiros não contribuísse para a degradação da democracia e das transformações em curso no país. Para o partido no poder, o Agang não clarificou as suas intenções.

Já a Aliança Democrática, o maior partido da oposição, que acompanhou de perto o anúncio da nova formação, diz que “aguardamos ansiosamente pela sua legalização e esperamos com ela trabalhar nos próximos meses”.

A aliança tripartida, o Congresso dos Sindicatos da África do Sul, condenou Ramphele e a “Agang” e considera que o o novo partido não trará nada de novo para o actual sistema político.

Por seu turno, a analista política e docente da Universidade Wits, Susan Booysen, descreveu o anuncio de Ramaphele como pobre e com falta de claridade. “O que ela fez foi a repetição do que nos habituou: criticar as falhas do ANC”. Para Booysen, mesmo com o apoio que esta tem dos jovens e das mulheres educadas, o anuncio não trouxe nada de novo capaz de fazer diferença.

Para Aubrey Matshiqi, investigador da Fundação Helen Suzman, Ramphele não foi capaz de se livrar da sociedade civil. Na sua opinião, ela tentou importar para o novo partido político alguns valores e princípios pelos quais ela foi reconhecida na sociedade civil.

Entretanto, o analista político Eusebius McKaiser acredita que a apresentação de Ramphele trouxe várias soluções e considera não ser justo que o “Agang” seja comparado ao COPE, o Congresso do Povo, partido fundado pelos demissionários do ANC aquando do afastamento de Thabo Mbeki da presidência do país.

Quem é Mamphela

Ramphele Mamphela Ramphele, de 65 anos de idade, é uma antiga activista da luta contra a segregação racial, o Apartheid, e dos direitos humanos. Durante a sua passagem pela sociedade civil, proferiu palestras nas quais tecia duras críticas contra o Governo do ANC, alegando que o partido no poder tinha-se esquecido do povo.

Depois do anúncio da formação da nova força política, Mamphele abdicou do cargo de presidente do conselho de administração da mina de Gold Fields, uma das afectadas pelas ondas de greve violentas do ano passado. Ela assumiu o cargo em 2010.

Ramphele possui uma grande admiração dentro da África do Sul, especialmente na classe negra, e é membro do Movimento Consciência Negra, liderada por Steve Biko, morto por espancamento em 1977 na prisão pelo regime do Apartheid.

Por sete anos ela cumpriu a prisão domiciliária imposta pelo regime de segregação racial pelo seu envolvimento na política.

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