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Um país que desrespeita o teatro

Um país que desrespeita o teatro

O XI Festival de Teatro de Inverno – a ter lugar entre finais de Maio e de Junho deste ano, em Maputo – vai decorrer num mar de incertezas.

A Associação Cultural Girassol que produz o evento, até 26 de Abril quando se fez a selecção dos 16 grupos que irão evoluir no início desta segunda década de um dos eventos culturais mais importantes do país, ainda não tinha nenhum centavo para custear as despesas da sua realização. De há uns cinco anos a esta parte, as demandas de grupos de teatro ao Festival de Teatro de Inverno – com enfoque para as colectividades estrangeiras – têm aumentado progressivamente.

O que não é certo afirmar, até porque não temos argumentos para o efeito, é se o Teatro de Inverno, em si, tem feito o mesmo exercício em sentido contrário. E é douto que se esclareça que realizar o mesmo exercício, em sentido oposto, representa algo diferente de afirmar simplesmente que temos, sim, espaço para que os conjuntos apresentem as suas obras. No entanto, “cada estrutura participante deverá responsabilizar-se pelo pagamento de outras despesas, incluindo os custos da viagem”, como o Girassol explicou ao jornal Notícias de 30 de Abril.

A participação nos últimos cinco anos de actores e encenadores, a vários níveis, originários de países como França, Brasil e Angola, como temos estado a acompanhar, é um dos indicadores de que o Festival de Teatro de Inverno tem estado a evoluir. E esta evolução tem um grande sentido para o país. Significa que o evento se tornou num dos fortes instrumentos de expressão da nossa cultura em relação aos países com os quais convivemos – o sentido contrário é válido. Significa que, durante um mês, o Teatro de Inverno atrai e mantém turistas em Maputo, movimentando vários sectores da actividade social.

Estes factos, por si sós, traduzem o crescimento dos desafios da produção do próprio evento. Podem igualmente ser interpretados no sentido de que se se tivesse acompanhado a evolução desta iniciativa, muitos aspectos referentes à qualidade infra-estrutural e técnica, sonoplastia e iluminação, do Teatro Mapiko da Casa Velha – onde anualmente o projecto decorre (e onde nasceram figuras incontornáveis da nossa cultura) – já se deviam ter aprimorado.

Festival de (Teatro) Inverno é um nome simbólico, emblemático, que tem a ver com o facto de que a iniciativa tem o seu início em simultâneo com a chegada da referida estação em Maputo. E não com a necessidade (?) de o fervoroso público que acorre àquele palco experimentar um espectáculo cultural quase ao relento – como acontece. O Festival de Teatro de Inverno não é nenhum assunto leviano. Antes pelo contrário, é um facto muito sério e complexo.

É lá onde se debate a moçambicanidade, incluindo a ligação desta com as inúmeras parcelas do mundo. É também o espaço onde se exibem o erudito Grupo de Teatro Mutumbela Gogo e o popular Grupo de Teatro Gungu – as duas formações teatrais profissionais do país. Mas, mais do que isso, este evento é a plataforma certa para o crescimento dos novos profissionais – os Mahamba, os Luarte, os Lareira, entre outras formações dedicadas às artes cénicas espalhados por este imenso Moçambique. É o palco dos sonhos. Todo o actor moçambicano quer exibir-se ali.

O Festival de Teatro de Inverno é – e deve ser – visto com uma grande expectativa pelos estudantes de teatro da Escola de Comunicação e Arte da Universidade Eduardo Mondlane. E debatido neste último ponto, este evento é também um assunto do Governo. Ou seja, sem nenhum exagero, pretende-se dizer que até em sentido dos programas de governação, os 10 anos já transcorridos ao longo da existência do Festival de Teatro de Inverno têm um sentido.

Significam duas legislaturas. Dois mandatos. Portanto, se neste início da segunda década da sua existência a organização continua a apresentar-nos os velhos problemas, de uma instituição sem parceiros, sem experiência no ramo em que actua, permitindo-se dizer ao mundo – neste Moçambique contemporâneo – que o país não dispõe de dinheiro para financiar o Festival de Teatro de Inverno, nada mais nos resta além da ilação seguinte: “O nosso país não respeita o teatro”.

E não nos faltam argumentos. Em 10 anos da sua existência, nenhuma transformação foi operada, pelo menos, no Teatro Mapiko da Casa Velha – onde, graças à caridade dos seus proprietários, o evento decorre. Não nos peçam para falar sobre a condição social do actor moçambicano. Coloquem-nos a actuar, em condições condignas. Isso é o mínimo. Mais não estão a exigir.

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