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Milagres da capoeira

Milagres da capoeira

Nos dias que correm, a capoeira produz harmonia social no seio de pessoas de raças que outrora conflituaram. Reconhecida a função terapêutica que possui, a sua prática tem a aprovação de psicólogos. No entanto, em contra-senso, em 15 anos de existência, na capital moçambicana, nenhuma organização reconheceu importância no milagre que esta forma de arte gera. Em consequência disso, o Grupo de Capoeira Ginga de Maputo – o mais antigo do país – evolui entre “abrolhos”.

Os saltos dos seus praticantes são a parte material, por conseguinte, visível da capoeira, uma modalidade das artes marciais. Os referidos movimentos físicos são também a componente que, no campo de apoios institucionais, uma vez mal interpretados, condena os capoeiristas: “Eles acham que estamos a dar pulos apenas. Então, porque apoiar-nos?”, afirma um dos membros do Grupo de Capoeira Ginga.

Esta experiência magoa os capoeiristas. Mas a capoeira não é mágoa. Se for, não é sobre essa vertente que queremos falar. A capoeira é desporto. É uma manifestação de arte e cultura. É história. E, como tal, o contra-mestre Ivan Ussene (Mosquito como é tratado no conjunto) ajuda-nos a reconstruir esta narrativa do modo que se segue.

A mestra Marina

A mestra Célia Marina Matue é uma moçambicana que teve a oportunidade de viajar para a Dinamarca, ao longo dos anos 1980, onde permaneceu por um período de 10 anos. Naquele país, filiou-se no Grupo de Capoeira Sereia do Mar, no qual praticou a referida forma de arte e desporto, a aeróbia e a ginástica olímpica. No seu regresso, em 1998, idealizou um grupo de capoeira em Maputo. Definitivamente, em 1999, com o apoio de um casal brasileiro – Jossias e Graça – formou-se o Grupo de Capoeira Ginga de Maputo, no dia 4 de Março. Na altura, Os capoeiristas treinavam-se na fisioterapia do Hospital Central de Maputo, bem como nas instalações do INEF (actual Faculdade de Educação Física).

A mestra Marina está entre nós, mas não goza de boa saúde. Dado o facto de, em determinado momento, a sua saúde se ter fragilizado, parou de ministrar aulas de capoeira. Tal responsabilidade foi encarregue ao contra-mestre Sales (Chaminé) que é o praticante mais credenciado na história da capoeira em Moçambique. Depois de Chaminé, por motivos pessoais e profissionais que até certo ponto acompanharam a dinâmica da evolução da colectividade, sucederam-se o professor Tucano – está na África do Sul a estudar – e Aristides que está a frequentar um curso universitário e pratica capoeira no Brasil.

Presentemente, a colectividade é dirigida pelo mestre Victor de Jesus, conhecido por Preguiça, incluindo outros membros. No entanto, refira-se, apesar de que o contra-mestre Ivan Ussene já tinha um grau superior em relação aos demais, aquando da migração do professor Tucano para a África do Sul, não assumiu a liderança do Ginga por uma razão simples que se explica no parágrafo seguinte.

A disseminação

“Em 2003, comecei a dar aulas de capoeira às crianças. É que quando o contra-mestre Chaminé decidiu viajar para a África do Sul, a fim de estudar, cedeu-me uma escolinha para trabalhar com os petizes. Aceitei assegurar o projecto. Actualmente, tenho mais de 10 anos a trabalhar com crianças e nove escolas que possuem nove a dez turmas – o que é muito importante para nós”, refere Ivan Ussene.

Mas como é que esta modalidade se expandiu em Maputo? A verdade é que quando a capoeira surgiu, em 1999, só existia um grupo. Três anos depois, alguns dos nossos colegas decidiram sair da colectividade. Embora em certo grau violando-se as regras que se defendiam no seio do Ginga, eles criaram os seus grupos. “Na altura receou-se que, dada a inobservância das normas, iam-se criar desavenças no seio da comunidade. De todos os modos, tratou-se de uma boa experiência porque contribuiu para o crescimento da capoeira no país”, diz Ivan Ussene.

Também houve glórias

Para além do quase inexistente apoio à sua companhia, por parte das empresas moçambicanas, os membros do Grupo de Capoeira Ginga de Maputo acreditam que a fuga de alguns dos seus membros, três anos depois da formação da colectividade, foi um dos aspectos que os marcou negativamente.

“Sentimos algum desequilíbrio”. De todos os modos, o prémio de melhor grupo de dança, em 2003, no seio de muitos grupos especializados e com carreiras internacionais, no certame realizado no actual Cinema Gilberto Mendes; os muitos eventos de intercâmbio realizados com capoeiristas da África do Sul e Brasil; os vários campeonatos infantis de capoeira e as cerimónias de graduação que, continuamente, se têm realizado; e o facto de, actualmente, estarem filiados na Federação de Capoeiristas do Rio de Janeiro exemplifica os feitos de que se orgulham. Mas mais do que isso, é preciso concordar com a opinião do contra-mestre Mosquito quando afirma o seguinte: “A possibilidade de ter um grupo com capoeiristas antigos que – com ou sem dificuldades – continuam unidos é o maior presente para a capoeira em Moçambique”.

Os milagres da capoeira

A capoeira é uma forma de arte que contribui para a formação do homem. Nesse sentido, o arranjo que possibilita que alguém seja membro de uma colectividade de especialidade concorre para que a pessoa explore alguma forma de inclusão social. O capoeirista tem a oportunidade de se expressar a cantar, a lutar, bem como a desenvolver outras actividades que se estimulam a partir dessa forma de arte.

A nobreza da capoeira – e tendo em conta a experiência do Grupo Ginga – é expressa quando atrai, no seu processo de socialização, deficientes físicos que, por essa razão, e tendo em conta que é esta modalidade uma actividade que exige dos seus praticantes alguma agilidade física, podiam sofrer todo o tipo de discriminação. Também se reporta o caso de crianças que começaram a dedicar-se à capoeira a fim de melhorarem a sua personalidade e o desempenho na escola.

“Já tivemos de facto o caso de um colega que tinha uma deficiência física (nos pés e nas mãos) que nos brindou com o simples facto de estar no nosso grupo, ao mesmo tempo que dava à sociedade e a ele mesmo as provas de que, não obstante as suas limitações, é capaz de fazer algo que é feito pelas pessoas normais – o desporto”, diz Mosquito que acrescenta: “A sua inclusão também significa que, com a capoeira, é possível mudar a maneira de pensar, de viver e de agir das pessoas no campo da interacção. Infelizmente, nós não temos tido muitas acções sociais, mas a capoeira ajuda muito na ressocialização das pessoas que possuem algum tipo de vícios – como, por exemplo, os alcoólatras, os violentos, os consumidores de drogas”.

O professor Preguiça explica que, de uma forma genérica, as pessoas têm algum preconceito em relação ao seu corpo. “Por isso, quando, de forma preconceituosa, as pessoas depreciam o nosso trabalho, aconselha-se-lhes que, para que saibam dar esses pulos, precisam de estar integradas no grupo. O problema é que se pensa que se se praticar a capoeira há de se sofrer algum tipo de discriminação – o que não existe entre nós”.

Um aspecto muito importante é que – recorda-se o contra- mestre Ivan Ussene – “já tivemos crianças que eram enviadas para as nossas aulas por psicólogos, a fim de se explorar as possibilidades de se tornarem desinibidas e melhorarem o seu desempenho escolar. Felizmente, essas experiências geraram bons resultados porque tivemos o caso de aluna Vanessa (Tigresa), que, dois meses depois de se tornar membro do grupo, melhorou significativamente o seu desempenho escolar”.

Patrocínio em disfunção

Partindo de uma relação de animosidade aparente – com os patrocinadores de eventos culturais – na medida em que, a analisar pela experiência acumulada, nunca gerou bons resultados, perguntámos aos membros do Grupo de Capoeira Ginga de Maputo sobre a construção social que tais companhias fazem dos capoeiristas.

A questão não é casual afinal, como Preguiça afirma, “nas inúmeras vezes em que nos dirigimos a uma instituição, a fim de solicitar algum tipo de patrocínio, sucedia que a pessoa responsável nunca se encontrava no local e, às nossas cartas, nunca houve resposta. Neste contexto, tivemos épocas em que acabámos por ir à rua lavar carros para obtermos algum dinheiro para a realização das nossas actividades”.

Diz Preguiça que “as pessoas descrevem a capoeira como uma simples dança. Aquela que é praticada por galinhas. Pelos galinheiros”. Por sua vez, Mosquito pensa que “as instituições não nos patrocinam porque vêem a capoeira como uma simples dança que – para piorar – não é moçambicana”. É desta forma que, no seio deste grupo, se produz a descrença no patrocínio, o procedimento que possibilita e facilita a produção de eventos culturais: “Eu acho que pedir patrocínio a alguma instituição é uma perca de tempo. A única solução que nos resta é o autopatrocínio”.

Tendo em conta que esta apatia das instituições patrocinadoras pode ser originada por algum tipo de preconceito ou ignorância, é importante esclarecer que os praticantes da capoeira não são marginais, criminosos, drogados nem agressivos. Representam uma instituição oficial e socialmente estabelecida. Uma organização séria que, semanalmente, durante cinco dias – com esta manifestação de arte, cultura e desporto – “consegue associar, no mesmo espaço, um conjunto de jovens que podia usar esse tempo para praticar actos que em nada contribuem para o desenvolvimento social do país”.

A celebração

No seio dos membros do Grupo de Capoeira Ginga de Maputo, as palavras não esgotam o sentido da celebração dos 15 anos da sua existência – o que aconteceu em Março. De uma ou de outra forma, elas ajudam a compor estas sentenças: “Os nossos 15 anos de existência significam celebrar a mestra Marina que trouxe a capoeira para o país. São 15 anos não só da existência do Grupo Ginga de Maputo, mas também da história de capoeira em Moçambique.

São 15 anos de muita convivência que nos motiva a continuar ininterruptamente. São 15 anos em que a gente conseguiu unir pessoas de raças diferentes – entre homens e mulheres, crianças, jovens e idosos – a fim de praticamos a capoeira”. Como se costuma explicar aos alunos, a capoeira surgiu no contexto da escravatura dos africanos levados para o Brasil.

Eles eram oprimidos e explorados pelos colonos – os brancos, os todo-poderosos, os donos das terras, das armas, das riquezas e dos escravos. No entanto, quando a capoeira se desenvolveu, passando a ser praticado nas escolas, nas universidades, nos ginásios, clubes e nas academias sucedeu que as pessoas das raças opressoras e escravizadas – a partir desta forma de arte – se uniram e começaram a fazer algo que outrora era proibido.

“Este facto ensina-nos que a capoeira não nasceu de alguém. Ela é um facto vivido. É algo de valor que unifica as pessoas”, refere Ivan Ussene. Mas mais do que isso, esta história deve ensinar-nos a apreciar as razões que sublimam esta forma de arte e cultura, muito em particular porque a capoeira também é nossa

. É como afirma o professor Victor de Jesus: “Todos os capoeiristas que passaram pelo nosso grupo – brasileiros, sul- -africanos, ingleses – consideram-nos a segunda melhor capoeira do mundo depois da brasileira. O facto de sermos um país tropical, com muitas praias à volta, a nossa riqueza cultural em termo de danças, são factores que nos ajudam a gerar uma forma de capoeira particularmente nossa”.

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