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Kerygma: Filipão

Tenho estado a avisar, nos meus pobres escritos, que os dias que seguem serão difíceis para muita gente. Embora essa realidade não constitua nenhuma novidade, para muitos moçambicanos, é preciso tê-la em conta. E um dos sinais dessa realidade são os assombros que o meu amigo Filipão vem revelando.

Espero que se recordem do Filipão – aquele jovem, meu amigo, que sugeriu que caísse um dilúvio em Moçambique a fim de que os homens bons fossem seleccionados para entrarem numa Arca igual a de Noé. Sim, ele sugere que a raça moçambicana deve ser extirpada para que se gere uma nova.

Ontem, quando eu saía de casa para o meu local de trabalho, encontrei-o na paragem. Enquanto esperávamos o “chapa-cem” conversámos depois de me Filipão cumprimentar.

– Bahule, estás bem?

– Estou na medida do possível, mano.

– Mas, como dizes estar bem? Continuas cego em relação às coisas prejudiciais que estão a acontecer no nosso país? Estás bem com tanta maldade? Muitas coisas melindrosas a acontecer aqui em Moçambique?

Por vezes, mesmo a saber que o barco está a afundar-se, é preciso fingir que a maré pode ficar calma. A lua, quando estendemos a mão, dá-nos a indicação do local ao qual precisamos de chegar. Por vezes, o Filipão precipita-se nas decisões que toma e, por isso, não consegue alcançar as metas.

– Sabes o que aconteceu esta semana? – Não sei.

– Tu não tens televisão em casa?

– Tenho, mas não gosto de ver televisão.

– Devias ver, mano, há coisas terríveis que estão a acontecer neste país.

O “chapa-cem” não chega e continuo a conversa com o meu amigo. Escuto-o, mas ainda não percebo onde ele quer chegar. Provoco-o:

– Mas, o que aconteceu?

– Sabes, há pessoas que não têm respeito pela nação.

– Mano, deixa de dar voltas e diz-me logo o que aconteceu. Fala, Filipão.

O Filipão fica mudo por um instante e olha para a esquerda. Depois olha para a direita. Dos dois lados, apenas vê um mar de gente que aguarda pelo meio de transporte para ir ao hospital, à escola, ao trabalho, ao cemitério ou a um prostíbulo. Filipão arruma a sua voz e deixa cair o que ela ensaiou tanto para dizer:

– É porque mostraram na televisão que todos os ex-Presidentes e deputados irão ter regalias depois de cumprirem os seus mandantes.

– Ouvi sim. Mas não prestei muita atenção.

– Também tu só vês as novelas brasileiras e aqueles filmes de chineses em que só se luta sem sabermos qual é o real motivo.

A alegação de que vejo muito os filmes chineses é verdadeira. Vejo-os porque tenho de aprender a defender-me dos malfeitores do meu país. Mas a notícia do direito ao bem-estar dos ex-presidentes e dos deputados não soou bem. Sabia da notícia, mas ignorei-a porque há coisas que, neste país, é melhor ignorar para não morrer vítima de enfarte.

– É isso que te deixa zangado, Filipão?

– Sim. Isso não me deixa zangado, deixa-me enojado e com raiva dos políticos.

– E depois, o que vais fazer?

A essa pergunta, o Filipão não me respondeu. Chegou o “chapa-cem”. Lutámos – eu e ele – para entrarmos naquele lugar onde os assentos são autênticas agulhas. Sentámo-nos em bancos diferentes e depois ele definiu o rumo da sua revolta.

– Deixemos as coisas acontecer como o destino quer.

Aquela resposta não encheu a minha satisfação. Tenho a certeza, imensa certeza, de que essa é a resposta que muitos moçambicanos precisam de ter. Contudo, fica a pergunta: “O que faremos com tantas maldades e injúrias políticas, culturais e sociais que nos assolam diariamente?”

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