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Três “loucos” em Maputo

Três “loucos” em Maputo

Dadivo José, Layla Torres Mollerup e Dorte Wium “enlouqueceram” e, através do The World Is Our Playground – como se chama a iniciativa que “bolaram” – querem transpor as barreiras que, internacionalmente, existem entre as pessoas. Mas também – e bem-haja – a organização dinamarquesa CKU que, sem nenhum compromisso, financia projectos artístico-culturais no mundo, estimulou as suas utopias. Há algum artista, em Moçambique, com um projecto parado? Anime-se! Esta matéria oferece algumas soluções…

De nacionalidades moçambicana, brasileira e dinamarquesa que são, respectivamente, para a iniciativa que se propõem materializar – The World Is Our Playground – Dadivo José, Layla Torres Mollerup e Dorte Wium formam, naturalmente, o trio certo para correr atrás desta utopia: “Criar um projecto capaz de, em dimensão internacional, quebrar as barreiras que possam existir entre as pessoas”. Com o referido nome, a acção já existe e, na semana passada, realizaram um casting no qual seleccionaram Osvaldo Isabel e Daniel, ambos de 18 anos, e Julieta, de 15 anos que, em Setembro, irão materializar a parte final. Mas essa, também, é a primeira etapa de outras que se irão seguir.

Layla Torres Mollerup e Dorte Wium são produtoras criativas e trabalham juntas há dez anos. Dadivo é, dentre outras coisas, actor. E o teatro, enquanto forma de arte, é que une estes artistas de nacionalidades distintas. Até à altura em que Layla e Dorte o encontraram, através da Internet, não conheciam Dadivo José. No entanto, vários indicadores da pesquisa feita – em função dos objectivos e da metodologia do projecto – mostravam que “esse cara era ele”, explica Layla. Porque, afinal, estas mulheres vieram a Moçambique? Esta questão é fundamental para se perceber o que é The World Is Our Playground, incluindo aspectos afins.

O foco e a motivação

“Como o nosso foco é trabalhar internacionalmente, a nossa colaboração com o Dadivo José resulta de uma pesquisa que se baseia na grande vontade que o Teater Kunst – estimado leitor, pesquise sobre esta organização na Internet usando as siglas DCCD ou CKU. Mas ainda explico-lhe as razões – tem de actuar com artistas de países africanos”, explica Layla. A focalização do projecto The World Is Our Playground – um intercâmbio cultural entre Moçambique e a Dinamarca, incluindo, de certa forma, o Brasil – tem a ver com os direitos humanos da criança:

“Queremos perceber como as crianças lidam com a questão dos direitos humanos e/ou direitos da criança. Quais sãos os problemas que existem em relação a este assunto? Como é que os seus direitos são tratados aqui? E quais são as suas reacções? Como é que esse trabalho será apresentado para as crianças dinamarquesas e como elas irão lidar cm este jogo?”. Layla Mollerup é fascinada pelos artistas que – não sendo brasileiros – têm o português como expressão linguística que serve como ponte para discutir os direitos humanos, a ancestralidade africana, o pós-colonialismo, e os problemas sociais e raciais. Por isso, está engajada na materialização do The World Is Our Playground.

No entanto, na mesma linha de raciocínio, a sua colega Dorte Wium explica o tópico da maneira seguinte: “Um dos motivos que inspira o nosso trabalho é a necessidade de informar, de uma maneira artística, sobre os problemas sociais, raciais, atinentes aos direitos humanos das crianças. Por essa razão, a meta é explorar as vantagens que podem surgir da interacção entre as crianças moçambicanas e dinamarquesas para ambas as culturas”. Usando, essencialmente, uma técnica teatral baseada em jogos, os aspectos do comportamento infantil que esses artistas pretendem compreender são, até certo ponto, sublimes. É por essa razão que – acredita-se – o seu domínio por parte da pequenada melhora, em grande medida, a sua qualidade de vida.

A produtora cultural e actriz brasileira, Layla Mollerup, explica o seu ponto de vista sobre o tema: “Gostaríamos de perceber até que ponto as crianças dinamarquesas – o sentido inverso é válido – se reconhecem, como tal, em relação às moçambicanas. Será que nós, os homens, somos todos iguais? Que dificuldades enfrentamos? Como lidamos com elas? Quando alguém abusa de mim, o que faço? Como reajo? A quem recorro? Que mecanismos existem – em Moçambique ou na Dinamarca – para me proteger? Esses são focos que, artisticamente, nós gostaríamos de perceber como é que irão decorrer quando as crianças se reunirem”.

Acesso ao financiamento

The World Is Our Playground é, à partida, uma iniciativa bonita, mas a questão é: quais são os seus precedentes? O que aconteceu antes que, agora, move estes artistas a realizá-lo? Que realidade é essa – moçambicana – que se pretende transformar? Layla Mollerup usa a ignorância como um ponto de partida. “Na verdade, nós temos muita informação acerca dos problemas sociais, sobretudo o tema dos direitos humanos da criança, na Dinamarca. Sobre Moçambique não sabemos absolutamente nada. Inclusive, por essa razão, a nossa viagem tem o objectivo de materializar uma pesquisa sobre estes assuntos.

Mas começar o trabalho de zero, sem nenhum conhecimento, também é uma metodologia”. Partindo da experiência moçambicana no campo de financiamento de projectos culturais, a visão que se apresenta aqui, por esse pessoal da Teater Kunst, é interessante por uma razão simples: Quando se pede patrocínio financeiro a uma instituição, os resultados da iniciativa financiada são determinantes para a obtenção de apoio similar no futuro. Não haverá no programa da Teater Kunst o risco de perder o financiamento?

O facto é que, de acordo com estes artistas, não há nenhum risco de perda de financiamento – e esse é o aspecto mais importante na CKU, Centre for Culture and Development: “A materialização das metas dos projectos não é condição para a obtenção do financiamento. Não existe esse risco como também não existe esse “goal” porque, para a organização, o essencial, nos projectos artísticos, é o artista e a interacção, a troca de experiências”. Por essa razão, dizem os produtores culturais, no âmbito do The World Is Our Playground, que “não nos concentramos nos riscos. O importante é transmitir a informação, colocando as culturas em intercâmbio e interacção. Todos os resultados – negativos ou positivos – são utilizados como tutoriais, ou material didáctico nas escolas”.

A grande novidade

De todos os modos, não há dúvidas que – para os artistas moçambicanos, sobretudo os que, por falta de financiamento, têm projectos parados – a boa- -nova é que a partir CKU, Centre for Culture and Development pode-se obter dinheiro para o efeito. A organização ampliou a sua esfera de acção a fim de apoiar a realização de iniciativas culturais de artista do mundo. Layla Mollerup traduz o assunto nos seguintes termos: “A CKU – visite este link http://www.cku.dk/en/ – já começou a fazer um “Open Call” internacional para o qual artistas de qualquer parte do mundo podem submeter os seus projectos para obter financiamento”.

O essencial

Está a ficar evidente que nesse projecto – The World Is Our Playground – há a pretensão de romper com os modelos de tudo o que já se fez. A questão, mais uma vez, é: “Qual é a grande motivação para essa actuação? E quais são os resultados objectivos que se espera que esse trabalho gere?” Dorte Wium responde à pergunta de um modo artístico: “Queremos criar um projecto capaz de, à escala internacional, quebrar as barreiras que possam existir entre as pessoas, a fim de que as crianças dinamarquesas cresçam internacionalmente, porque, neste momento, elas viajam muito, mas não têm a noção do que acontece no mundo”.

Explicado de outra forma – segundo Layla Mollerup – “uma das metas que nós queremos atingir é que as crianças das nações envolvidas no projecto se tornem amigas, desenvolvendo uma relação que se pode materializar e possa ser continuada através das redes sociais e de outras formas possíveis”. Além do mais, “não me interessa levar crianças africanas para a Dinamarca se for para que, lá, as pessoas as apreciem de forma alegórica: ‘Olhem para as crianças africanas! Vejam como elas dança’.

Para mim, é muito mais importante que haja a troca de saberes entre as culturas. Não quero ‘exoticar’ nada”. The World Is Our Playground é uma iniciativa que envolve a companhia dinamarquesa Teater Kunst e a moçambicana Mahamba – Criações e Produções Artísticas e é financiada pelo CKU, Centre for Culture and Development.

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