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O Muvandabarwa está abandonado!

Enquanto não se concretizar o seu sonho “muvandabarwa”, como se sente o professor e músico moçambicano, Carlos Lupelise, de 59 anos de idade, continuará um filho bastardo e abandonado. Entretanto, analisada sob o ponto de vista temático, a sua música é um workshop, uma crítica social, contra os males contemporâneos. O problema é que não encontra mercado…

Carlos Lupelise é um músico nato, ou, pelo menos, em função da sua necessidade e sensibilidade musical, acredita nisso. No entanto, ainda que se dedique à arte musical desde a infância, há barreiras sociais que impedem que a sua carreira artística ganhe visibilidade. Como intitula o seu provável primeiro trabalho discográfico, o artista assume que é um “muvandabarwa”, ou simplesmente, um filho bastardo abandonado pelo próprio pai.

No seu dia-a-dia, como professor, Carlos Lupelise concilia o ensino à actividade artística de forma didáctica. É no meio disso que incute nos seus alunos a necessidade de aprenderem, desde cedo, a valorizar a sua cultura – a partir das suas manifestações artísticas – reconhecendo o valor da sua influência nas suas vidas.

No início da década de 1970, altura em que a sua afeição pela música se torna mais prenunciada, aproveitando eventos culturais pontuais, de forma tímida, Lupelise começou a expor o seu talento perante o público, até que, dois anos depois, partilha palcos com as bandas Muzongos, Guotolatsongo e Safelute, em Maputo.

Na essência, as composições de Carlos Lupelise são uma arma de intervenção social com base na qual o artista critica os desvios morais, éticos bem como políticos da nossa sociedade como forma de despertar as pessoas com vista a cultivarem boas qualidades. Os valores da solidariedade e o amor ao próximo são outros exemplos de assuntos abordados nas suas músicas.

E as dificuldades impõem-se

Ainda em tenra idade, quando os seus pais se separaram, em resultado das dificuldades que se instalaram na sua vida, Carlos Lupelise sentiu-se como se de um filho bastardo, como canta, se tratasse. É que é nessa altura que a sua crença de que devia gravar as suas música se consolidou. No entanto, a realidade foi-lhe bem contraditória. Na cidade de Maputo, a capital moçambicana, faltou-lhe tudo. Desde estúdio musical para o efeito, o dinheiro para custear a colaboração de outros artistas, bem como para arrendar um espaço para ensaiar as suas composições.

Entretanto, apesar dos obstáculos enfrentados, o amor que nutre pela música serviu-lhe de estímulo para contrapor as barreiras. Disso resulta que, em 1993, 21 anos depois, consegue gravar as oito músicas que compõem o disco “Muvandabarwa”. De acordo com o artista, este título – que significa “o filho bastardo” – foi seleccionado de forma criteriosa, na medida em que reconstrói a história da sua vida, sobretudo as suas experiências amargas.

Uma pessoa a quem lhe faltou o amparo do pai devido à separação do cônjuge. Aliás, Carlos narra que as peripécias mais grotescas dessa experiência relacionam-se com o facto de – depois da morte do seu pai, seguindo determinados ritos tradicionais – não ter ido ao seu velório.

Refira-se, então, que a gravação das músicas foi apenas uma primeira etapa da luta de Carlos a caminho da publicação do seu primeiro álbum – o que ainda não aconteceu – porque em nenhuma momento teve financiamento para a sua publicação. Trata-se, aliás, de uma situação que concorreu com a sua luta a fim de concluir a sua formação universitária.

Cansado de ser ignorado pelos mecenas, nos circuitos por onde tem andado a solicitar apoios para a materialização do seu sonho de infância, agora, Carlos Lupelise pretende apostar na publicação independente da sua obra. Ao longo dos anos, nem os óbices que enfrenta desestimularam a sua produção.

Por isso, presentemente, o cantor possui 30 composições musicais, a partir das quais critica, aconselha e alerta os apreciadores da sua música sobre determinados comportamentos desviantes, os quais devem evitar.

A valorização da educação e os seus intervenientes, o respeito mútuo entre os membros de uma família – como base para a construção de uma sociedade sólida –, a luta contra a violência doméstica e o abuso sexual de menores são outros exemplos de temáticas que se discutem na música de Carlos.

Carlos Lupelise que canta Marrabenta e Muthimba considera que fá-lo seguindo as veredas de Fanny Mpfumo e Xidiminguana que reputa como seus mestres, mas, acima de tudo, uma forma de valorizar a música ligeira moçambicana.

Falta qualidade no conteúdo

Quando a discussão é em torno do velho tema da qualidade dos conteúdos das composições musicais que determinados músicos – sobretudo os jovens – interpretam, Carlos Lupelise afirma que não vale a pena massificar tais obras. Para ele, a falta de boa qualidade musical não concorre para a sua projecção no mercado internacional. O mais agravante é que, na sua leitura, tais criações concorrem para que as pessoas tenham dificuldades de distinguir o certo do errado, o bem do mal, entorpecendo os valores do humanismo.

“A fraca elaboração temática dos artistas empobrece a nossa música. É que os nossos cantores estão mais preocupados com a venda dos seus produtos em vez de transmitir educação aos ouvintes”, refere.

O artista considera que, em Moçambique, existe entre os promotores de eventos culturais e do entretenimento musical uma tendência para a sublimação de artistas estrangeiros, a quem se contrata pagando muito dinheiro, em prejuízo dos moçambicanos. Outro aspecto invocado por Lupelise é o divórcio que há entre os empresários, os fazedores de cultura e os artistas nessa actuação – o que possibilita uma acção, muitas vezes, pouco sinérgica.

Viver para a música

Ainda que as condições não joguem muito a seu favor, na música, Carlos Lupelise tem um sonho sublime – contribuir para que os ritmos nacionais sejam uma referência nos grandes palcos internacionais.

É que para o cantor, a música só morre quando o seu compositor não vive à sua altura, a sua essência em plenitude, uma vez que ela alimenta a alma humana, os seus vícios, os seus sonhos e anseios removendo as barreiras que impedem-no de evoluir. É a propósito disso que se engendra o seguinte comentário: “Para alcançar esse cume é preciso viver para a música e não dela como, actualmente, acontece com os artistas nacionais”.

De acordo com Lupelise, toda a cultura é rica e útil em qualquer realidade e contexto social no mundo. No entanto, “é preciso que os nativos valorizem o que é nosso, consumindo mais os produtos culturais nacionais. Só assim se pode estimar e engrandecer as nossas raízes culturais a fim de conquistar o mundo a partir da arte de bem cantar”.

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