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Menor raptado em Maputo e resgatado na África do Sul

Menor raptado em Maputo e resgatado na África do Sul

Alfredo Mabote, um adolescente de 14 anos de idade, residente no bairro da Maxaquene “A”, no subúrbio da cidade de Maputo, escapou de um rapto perpetrado por um grupo de pessoas ainda desconhecidas, na manhã de 02 de Março corrente. Entretanto, outras 14 crianças, todas do sexo masculino, vítimas da mesma modalidade de crime, continuam desaparecidas, supondo-se que estejam na África do Sul para onde foram levadas.

Por volta das 06h:00 daquele dia, Alfredo Mabote pretendia atravessar a Avenida Joaquim Chissano em direcção à banca da sua avó que se dedica ao comércio algures na cidade de Maputo e foi atraído por um grupo de homens cujo número ele já não se lembra. O petiz aproximou-se da viatura na qual as referidas pessoas se faziam transportar e, após alguns minutos de conversa, ele foi encurralado tendo-lhe sido vendadas as narinas e a boca com recurso a um pano aparentemente contaminado com clorofórmio, uma substância líquida incolor (CHCl3) resultante da reacção entre o cloro e álcool e utilizado como anestésico.

À nossa Reportagem, o rapaz narrou que perdeu os sentidos e se reanimou horas mais tarde num lugar desconhecido e a ser transportado num minibus. A dado momento, Alfredo Mabote apercebeu-se de que estava a ser levado para um destino incerto contra a sua vontade e na sua companhia estavam 14 rapazes, que, através da sua expressão facial, era possível entender que foram igualmente afastados das suas famílias à força.

O nosso interlocutor explicou que tem a certeza de que os menores com quem estava são todos moçambicanos e pôde identificá-los através da língua que falavam quando lhes davam a oportunidade para o efeito. “No carro havia alguns rapazes da minha idade, outros um pouco mais velhos que eu e quatro homens adultos que nos vigiavam. Eles diziam constantemente, em tom de ameaça, que aquele que tentasse fugir seria morto.”

O número de crianças e adolescentes que são levados à revelia dos pais para parte incerta pode ser maior do que se pensa em Moçambique, onde o tráfico de crianças e mulheres para explorá-las como trabalhadoras de sexo e domésticas na África do Sul, segundo um dos relatórios da Organização Internacional da Migração, chega a 1.000 anualmente. Num outro desenvolvimento, a vítima contou-nos que na noite do mesmo dia, ele os outros petizes receberam ordens para atravessarem a fronteira de Ressano Garcia, andando pelo mato a pé, entre dois homens – um à frente e outro atrás – que mostravam a direcção que devia ser seguida. Noutro ponto da África do Sul estava estacionada uma viatura através da qual se continuou a viagem.

Após atravessarem a fronteira, os supostos raptores imobilizaram o veículo numa gasolineira em Witbank para permitir que os reféns urinassem. Nessa altura, Alfredo Mabote ludibriou os guardas que se encontravam nas imediações e, sorrateiramente, escondeu-se atrás de uma casa de banho. Volvidos alguns minutos, o adolescente escutou uma conversa entre duas pessoas, dentre as quais uma dizia que “faltava o décimo quinto elemento do grupo” e a outra apelava para que os supostos raptores fugissem antes de alguém descobrir que havia seres humanos a serem traficados.

Volvidas algumas horas, Alfredo Mabote estava livre mas desesperado. Sem eira nem beira numa terra desconhecida, o petiz caminhou sem nenhum destino até a altura em que se sentiu fragilizado pelo cansaço, pelo sono, pela fome e dormiu na berma de uma estrada. Quando despertou, ao seu lado havia um cidadão que falava uma língua que lhe era desconhecida.

“Fez-me algumas perguntas, mas eu não entendia nada. Levou-me para uma oficina.” No local de manutenção e reparação de veículos, por volta das 05h:00, Alfredo Mabote e o seu companheiro foram recebidos por um moçambicano identificado pelo nome de Jerry, o qual pediu ao rapaz para lhe fornecer um contacto telefónico de alguém da sua família enquanto cuidava da higiene individual e se alimentava.

No mesmo dia, a mãe de Alfredo Mabote, que já andava desatinada e sem nenhuma pista sobre o paradeiro do filho, recebeu uma chamada efectuada a partir da África do Sul. Ao atender o telefonema, Victória Manhique ficou a saber de que o seu descendente havia sido encontrado algures na “Terra do Rand”. Para ter a certeza de que não se tratava de brincadeira de mau gosto, ela pediu falar directamente com o menino, o qual garantiu que gozava de boa saúde. A senhora voltou a respirar de alívio e parecia estar a acordar de um pesadelo.

Animada com a nova notícia, Victória Manhique dirigiu-se à 12ª esquadra da Polícia da República de Moçambique (PRM) para pedir auxílio. Entretanto, a corporação não ofereceu nenhum apoio e aconselhou a senhora a recorrer aos seus próprios meios para resgatar o filho. Desapontada com a atitude dos agentes da Lei e Ordem, ela dirigiu-se ao Gabinete de Atendimento à Mulher e Criança Vitimas de Violência Doméstica onde recebeu uma guia para se apresentar na fronteira de Ressano Garcia.

A PRM a nível da cidade de Maputo, através do seu porta-voz Orlando Modumane, diz que não tem nenhuma informação sobre o rapto em causa. Contudo, na manhã do dia 04, Victória Manhique apresentou-se numa esquadra na África do Sul, onde foi autorizada a ir ao encontro do seu filho e recebido instruções de como podia alertar à Polícia se alguma coisa errada acontecesse com ela. Nessa altura, Jerry, a esposa e Alfredo Mabote já se encontravam uma bomba de combustível à espera da senhora. Depois de uma conversa num misto de lágrimas e emoções, a mãe e o filho voltaram para Moçambique. Todavia, continua por esclarecer os contornos da viagem de Alfredo à África do Sul e onde se encontram os outros rapazes que estavam na sua companhia.

Ao @Verdade Jerry disse que é natural da província de Inhambane e passou a viver na África do Sul em resultado de uma fuga forçada pelos maus-tratos e agressões físicas a que foi sujeito pelo seu pai, aos 14 anos de idade. Por isso, quando recebeu Alfredo em sua casa ficou emocionado ao relembrar que sofreu bastante na infância, dormia na rua e cobria-se de papelões até o dia em que aprendeu o ofício de mecânico e passou a dispor de meios próprios para sobreviver naquele país.

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