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Líbia, Cheira a vitória

Líbia

O pequeno Muhammad tem apenas três anos e meio mas talvez guarde, quando for mais velho, o momento em que o pai o pôs no patamar do principal quartel de Benghazi e o fotografou fazendo o «v» de vitória com os dedos. Atrás do pequeno Muhammad está o quartel, ou ‘khatyba’, centro das forças especiais do líder líbio Mohammar Kadhafi na segunda cidade do país, agora apenas um monte de ruínas incendiadas.

Corre água suja em cima da fuligem, das janelas estilhaçadas e das paredes demolidas da ‘khatyba’. Há um odor forte a queimado. Há um outro perfume no ar, contudo, que atrai em romaria a população de Benghazi, segunda cidade líbia e capital da rebelião contra Muhammar Khadafi.

«Cheira a vitória», diz com orgulho Atia El-Mansouri, um antigo piloto da Força Aérea Líbia que foi «prisioneiro político» entre 1975 e 1988 por ter participado numa tentativa de golpe de estado para derrubar Kadhafi.

O golpe foi debelado pela cúpula de militares fiéis a Kadhafi e os conjurados, como Atia El-Mansouri, foram encarcerados na prisão de Abu Slim, de má memória para todos os opositores do regime e denunciada pelas organizações de defesa de direitos humanos como local de torturas sistemáticas e vários massacres.

Na escadaria onde passeiam famílias de Benghazi, alguém escreveu a vermelho, em árabe, ‘Casa do trafulha’. Outros escritos anunciam que o enorme destroço da base militar está ‘à venda’. «É espantoso. Há uma sensação estranha de. liberdade!», diz um dos jovens que se passeia pelas celas do piso inferior fotografando e filmando tudo com o seu telemóvel.

Na capital dos rebeldes, um Conselho Nacional Independente coordena desde domingo a gestão corrente, procurando ocupar o vazio deixado pela administração anterior. Os bancos abriram, assegurando o pagamento dos salários de Fevereiro, «mas apenas em cerca de metade ou dois terços, consoante o que a pessoa ganha?», afirmou um professor ocupado com o seu «dia de pagamento».

O comércio e serviços, pelo contrário, foram afectados pelo êxodo de milhares de egípcios, que dominavam sectores como a restauração em Benghazi. Se a situação é calma nas zonas rebeldes, uma crise humanitária acentua-se na fronteira oeste com a Tunísia, por onde cerca de mil pessoas por hora formam um êxodo que preocupa as agências especializadas em migrações.

Sobre o desfecho da situação, há dois comentários recorrentes nas zonas libertadas. Um de esperança no derrube de Kadhafi e de euforia revolucionária. Outro de expectativa: «Ele é louco. Tudo pode acontecer».

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