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Colocando a comunidade no mapa e fazendo globais notícias locais

Colocando a comunidade no mapa e fazendo globais notícias locais

Olhando para o mapa de Moçambique muitos são os locais onde não parece existir pessoas a viver, e mesmo nos mapas fotografados por satélites e disponíveis na Internet muitas comunidades e mesmo bairros não aparecem identificados.

Assim era o bairro de Kibera, na capital queniana até Novembro de 2009, quando alguns jovens residentes decidiram colocá-lo no mapa. Hoje, o mapa cresceu e não só identifica os pontos mais relevantes do bairro como ainda indica, de forma interactiva, os problemas e principais necessidades dos seus moradores.

Kibera é um bairro de lata, similar a Namutequelia ou a Xipamanine, só que é nos pouco mais de 2,5 km2 onde habitam os cerca de dois milhões de pessoas pobres e carentes das mais básicas necessidades do ser humano: habitação condigna, alimentação, saúde, educação… enfim, os problemas que a maioria dos moçambicanos também enfrenta.

A grande diferença é que neste bairro, onde vive mais de metade dos habitantes da cidade de Nairobi, estes problemas existem num tamanho bem maior – Kibera é considerado o maior bairro de lata do nosso continente.

Antes de ser colocado no mapa, e ainda hoje em vários mapas impressos, este bairro aparecia identificado como uma zona de floresta e por isso não estava entre as prioridades do Governo queniano e nem mesmo da cidade de Nairobi. Para os políticos, Kibera não existia e por isso os seus problemas também eram ignorados.

Vezes sem conta os noticiários nacionais mencionam cenas de violência no bairro e até de confrontos maiores mas sempre na perspectiva de quem não conhece a realidade e muito menos se atreve a entrar nas vielas de areia, lama e água dos esgotos (porque a canalização não existe, as descargas das casas de banho correm até hoje pelo bairro, e confluem para os poluídos rios que cruzam a região).

O mapa do bairro

Treze jovens kiberianos, sem nenhuma formação superior, cursos de informática ou mesmo formação em cartografia, com a ajuda de dois voluntários, Erica Hagen e Mikel Maron, começaram a fazer o levantamento dos locais onde a água jorra, dos locais usados para necessidades maiores e menores, das escolas e clínicas informais, das igrejas e mesquitas, pequenos negócios existentes e até mesmo dos clubes de vídeo existentes.

Cada um destes locais foi marcado, usando um aparelho de GPS, em alguns casos foram mesmo usados telemóveis, e a informação inserida no OpenStreetMap, um Mapa de todo o mundo de acesso Livre e Editável.

O resultado, que não é final pois todos os dias um novo problema pode ser acrescentado, é um mapa que está disponível na Internet, no sítio mapkibera.org, e pode ser acessado por qualquer pessoa. Mas, mais importante do que isso, o Governo e os políticos já não podem continuar a dizer que Kibera é apenas uma floresta e os problemas existentes estão bem identificados.

A voz da comunidade

Normalmente, as pequenas comunidades, e mesmo os distritos, só são notícia nos principais jornais, rádios e televisões quando o Presidente da República está lá de visita ou quando há uma calamidades ou outros acontecimentos tristes.

Cansados de aparecer nos noticiários sempre pelo lado negativo, dois jovens quenianos, residentes no bairro de Kibera, na capital do Quénia, decidiram começar a fazer as suas próprias notícias e usar a Internet para difundi-las pelo mundo, nascendo, deste modo, a voz de Kibera um meio de informação social.

No primeiro post, dois jovens locais escreveram, em 2011, “estamos no processo de criação de um blog que será a voz de Kibera”.

Usando uma software livre e editável que permite receber informação de vários suportes digitais – computadores, mensagens de texto de telemóveis (SMS) ou mesmo twitts – o Ushahidi, o mesmo grupo de jovens kiberianos, começou a estimular os seus vizinhos e amigos, e hoje quase todos os residentes do bairro, a reportarem para os contactos indicados qualquer acontecimento que presenciassem.

Cruzando informação de vários residentes, é possível começar a escrever pequenas notícias sobre o dia-a-dia em Kibera e disponibilizar em formato de texto no sítio voiceofkibera.org.

Agência de notícias da comunidade

A máxima de que uma imagem vale por mil palavras inquietava os jovens kibeiranos que depois de colocarem o seu bairro no mapa e começarem a fazer jornalismo cidadão sentiam que ainda não estavam a mostrar com suficiente impacto como é a Kibera real.

Em 2010, munidos de pequenas câmaras de filmar de bolso, similares a telemóveis, começaram a fazer reportagens em vídeo sobre os vários assuntos que acontecem no quotidiano do bairro.

Para partilhar os vídeos com outros quenianos, e principalmente para chamar a atenção dos políticos sobre os problemas que estes teimam em ignorar, decidiram carregar os vídeos no youtube.

Mas era preciso que os habitantes de Kibera também vissem os seus problemas e as histórias de melhoria de vida assim como aprendessem bons hábitos de saúde, educação etc., e o grupo de jovens resolveu usar as salas de projecção de filmes e futebol que proliferam no bairro para projectar os vídeos que têm feito quase todos os dias. Nasceu a Agência de Notícias de Kibera que pode ser vista no sítio da Internet kiberanewsnetwork.org.

Agora existe também a voz de Mathare

Estas iniciativas foram entretanto replicadas num outro bairro de lata de Nairobi, o Mathare, onde já está em curso o mapeamento do bairro e o blog, contando as histórias do vale de Mathare, também está activo no sítio matharevalley. wordpress.com.

A polícia serve-se do mapa de Kibera para planificar a sua actuação, e organizações humanitárias trabalham com estes jovens para melhor direccionarem as suas campanhas de sensibilização e chegarem com eficácia a quem precisa de ajuda.

A pauta dos assuntos a serem reportados e difundidos pela Voz de Kibera e na Agência de Notícias é debatida nos Conselhos Comunitários, para onde este grupo de jovens foi convidado a tomar parte.

Hoje os jovens kiberianos já pensam em como usar estas ferramentas de informação para garantir que nas próximas eleições, – previstas para 2013, mas que podem acontecer ainda este ano se a coligação que governa o Quénia cair – os seus vizinhos de bairro irão votar com mais consciência e procurem eleger quem pelo menos os ponha entre as suas prioridades.

Seja o repórter da sua comunidade

@Verdade define-se como um dos media de intervenção social porque pretendemos também que as comunidades contribuam com informações que julguem relevantes.

Com o jornal impresso fazemos a ponte entre alguns media sociais que estimulamos como o Repórter Cidadão para onde qualquer cidadão em Moçambique pode enviar informações sobre os acontecimentos que presencie em formato de texto, imagem ou mesmo vídeo.

Todos os reports são disponibilizados online no sítio verdade.co.mz/cidadaoreporter e a nossa pequena equipa de informação esforça-se em dar seguimento aos muitos problemas reportados mas também inspiramo-nos em outros para reportagens mais profundas.

A título de exemplo, recentemente publicámos um artigo sobre a ponte Boane – Massaca após vários reports de cidadãos que todos os dias enfrentam o problema da travessia daquela infra-estrutura. Obviamente que listar e relatar os problemas só por si não os resolve mas é um ponto por onde começar.

E cada um de nós em Moçambique podia copiar os kibeiranos e criar a voz de Namutequelia, ou a voz do Xipamanine ou de outro bairro ou distrito existente neste vasto país.

Em vez de o leitor esperar por uma presidência aberta para apresentar o seu problema ou que um jornalista pegue no seu assunto e faça uma notícia, porque não ser você próprio o repórter?

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