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A vida dura dos médicos

Responsáveis pela tarefa nobre de prestar assistência aos doentes, em Moçambique eles não têm uma vida fácil, até porque são obrigados a sobreviver a quase tudo, desde os baixos salários, sucessivas e infundadas reclamações dos utentes, falta de condições de trabalho, até o elevado custo de vida. Assim são os nossos médicos, cuja dedicação ao trabalho é ignorada.

Ernesto Gove, de 33 anos de idade, está, tal como no mês passado, à espera de que o seu salário seja depositado na sua conta bancária para terminar a construção do muro da sua casa e pagar a mão-de-obra.

Este mês, o atraso na entrega das folhas ao banco e a assinatura tardia do administrador do distrito Nangade, Cabo Delgado, terá levado a que o pagamento para o sector da saúde, naquele ponto do país, tenha sido adiado por uma semana, provocando uma reacção em cadeia na vida da família deste médico generalista.

O muro, esse, ficou pelo meio. Já consumiu mais do que estava previsto. Aliás, a sua construção é responsável pela falta de combustível que deixou o carro comprado com a poupança dos últimos quatro anos e um empréstimo bancário no quintal. “Só vai sair daqui a dois meses”. “Não é complicado andar de chapa. Vou chegar ao serviço mais cansado, mas não posso, neste momento, viver com esse luxo do transporte próprio”. A vida de um médico é feita de escolhas.

Entre um tecto para a família e a aparência do conforto da viatura própria, Ernesto coloca em primeiro lugar a mulher e os dois filhos menores. “Na rua ninguém vê que somos médicos. Tenho de lutar nos chapas para chegar cedo ao posto de saúde.”

Contrariamente ao grosso dos moçambicanos, Ernesto é um privilegiado. Ganha quase 30 mil meticais, contando com os subsídios. No entanto, na prática esse dinheiro não chega para viver e nem para manter a imagem que a sociedade construiu de como vive um médico.

Quando Ernesto terminou o seu curso de medicina em Maputo foi transferido para aquele distrito. Volvidos quatro anos teve de regressar para prosseguir os estudos. O seu nome, embora viva e resida na capital do país, ainda consta na folha de salário daquele ponto do país.

O ritual repete-se todos os meses. Com o salário sem data certa, a construção da moradia de cinco cómodos, onde já reside com a família, sofre interrupções sistemáticas. As novas regras de execução orçamental obrigam a uma gestão no limite, desviando quantias atribuídas a outras despesas, cujos pagamentos vão sendo adiados.

Para se aguentar durante um mês, Ernesto faz uma perninha numa clínica privada. Ou seja, grande parte das horas que devia dedicar ao repouso e ao convívio com a família serve para engordar a renda mensal.

O dinheiro, assegura, não é grande coisa, mas faz toda a diferença para quem tem de construir a sua própria residência. A falta de dinheiro afecta também as férias da família: as viagens foram cortadas, a televisão por cabo suspensa por tempo indeterminado e o telemóvel serve apenas para receber chamadas.

“A vida para um médico será sempre um inferno”, desabafa Ernesto que não acredita muito nos efeitos da greve. Esteve nela desde as primeiras horas. Deu a cara, mas não pensa em grandes mudanças. Ernesto não se queixa da profissão que escolheu. Mas diz que não faria medicina se tivesse, na altura, o dom de prever o futuro. “Permite-me viver acima do padrão em Moçambique, mas não é o tipo de vida que se propala por aí”.

No seu entender, os sacrifícios não são devidamente recompensados e dá um exemplo claro: “quando o meu primeiro filho nasceu eu estava no hospital a tratar de outros doentes. O parto da minha mulher foi complicado, mas eu tive de ficar no meu posto”. Porém, não é tudo: “também não acompanhei o nascimento do meu segundo filho”. Mas nem é isso o pior. “O que dói é viver dias em que não se pode fazer um agrado aos nossos filhos porque um administrador não quer assinar a folha de salário para ir ao banco”.

Esse tipo de situação, que Ernesto qualifica de desprezo e ingerência política, é que deixa de rastos um médico que jurou servir o país. “Não vejo a hora de ir trabalhar para uma ONG. Eles pagam mais e eu tenho de escolher entre servir um país que não me dá assistência social e procurar o sustento da minha família. Eu escolho a minha família. É uma questão de tempo”, diz.

“A classe médica é a mais desfavorecida em Moçambique”

Ana Rosa Lopes de Araújo, de 44 anos de idade, é natural da província de Maputo. Exerce a profissão de médica desde o ano 1993. Dos 20 anos de experiência lembra-se de momentos difíceis devido às dificuldades que caracterizaram o período.

Refere-se à falta de equipamentos e medicamentos, incluindo pessoal qualificado para tentar tratar os doentes da melhor forma possível. Há muitos doentes para um número reduzido de profissionais da Saúde.

O seu primeiro posto de trabalho foi o Hospital Central de Maputo a tempo parcial, onde diz ter enfrentado problemas de vária ordem. Segundo Ana Rosa, na mesma altura era docente da Universidade Eduardo Mondlane e disse que, apesar do processo de formação dos profissionais ser bastante rápido, a sua afectação nos postos de trabalho não satisfazia a procura.

Quando foi transferida para a província de Nampula, encontrou as mesmas dificuldades. Muitos doentes e poucos médicos para lhes prestar assistência. Os profissionais da Saúde andam muito sobrecarregados, além de não terem as condições de trabalho ideais. “E ficamos sem tempo para estudar ou investigar a fim de garantirmos a actualização dos conhecimentos para evoluir na carreira”, acrescentou.

E no que diz respeito ao rendimento do esforço empreendido, a fonte disse que “a classe médica, não diria que é mais desfavorecida, mas sim desvalorizada pela entidade empregadora”, precisou a pediatra neonatologista salientando que os médicos enfrentam, no seu dia-a-dia, muitos riscos devido às condições de trabalho a que estão votados.

“E agora que existem os celulares, as pessoas ligam a qualquer hora a solicitar os nossos serviços”, anotou referindo que a situação se torna constrangedor porque “deixamos de ter o fim-de-semana para descansar. Somos os únicos profissionais que são muito pressionados e criticados quando o serviço não vai bem. É o momento de exigirmos os nossos direitos”, enfatizou.

Entretanto, recordou que ao longo dos 20 anos de carreira, ainda, não conseguiu construir casa própria. O seu salário não chega para reservar dinheiro a fim de erguer uma obra de grande envergadura. “Talvez agora consiga amealhar algum dinheiro para iniciar a construção, depois de 20 anos”.

A sua viatura é de segunda mão, pois o seu salário não permite comprar uma nova. Considera que é desgastante saber que depois de 20 anos de profissão nada se tem como fruto de empenho e dedicação. Aquela profissional de saúde disse que a sua rotina diária é a seguinte: acordar às 6h00, e às 7h30 desloca- se ao Hospital Central de Nampula, onde trabalha até às duas da tarde.

Depois de sair do trabalho, dedica- se à investigação, às consultas privadas e à actividade de docência na Universidade Lúrio. De acordo com a médica, só por volta da meia-noite é que se deita. Soubemos que com o salário ela consegue assegurar as três refeições do dia para a sua família. As suas férias são gozadas de forma faseada.

Durante o período de repouso, tem estado em casa com a sua família ou viaja por pouco tempo porque, mesmo estando de em gozo da licença disciplinar, tem fazer consultas privadas para assegurar uma melhor qualidade de vida aos seus familiares.

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