O decano da assessoria de imprensa em Moçambique e sócio-fundador da FDS-Fim de Semana, Leandro Paul, considera fundamental distinguir o “press release” da publicidade, considerando incorrecta a percepção de que os comunicados de imprensa constituem “publicidade disfarçada”.
A posição foi apresentada durante a sua participação na Conferência Nacional da Sustentabilidade dos Media, organizada pelo Jornal “Evidências”, realizada na cidade de Maputo, nos dias 14 e 15 de Maio, sob o lema “Discutir a Sustentabilidade dos Órgãos de Comunicação Social é também Reflectir sobre a Democracia”.
No evento, Leandro Paul integrou o painel sobre “Economia e Sustentabilidade dos Media: Desafios, Relação com Agências de RP e Modelos de Captação de Receitas”, no qual foi debatida a recorrente associação entre o “press release” e a publicidade disfarçada. Na sua intervenção, sustentou que a publicidade compra espaço nos media e controla directamente a mensagem, enquanto o “press release” constitui material redactorial não pago, dependente da avaliação editorial dos órgãos de comunicação social.
“O press release não compra espaço. Procura merecer publicação. A decisão final pertence sempre ao editor, ao chefe de redacção ou ao gestor do órgão de comunicação, que até pode recusar a sua publicação”, afirmou.
Conforme explicou, o jornalista não existe para fazer publicidade de empresas ou instituições, mas para informar o público sobre factos, acontecimentos e actividades relevantes, razão pela qual o comunicado de imprensa passa sempre por um processo de mediação editorial.
O especialista reconheceu, contudo, que a suspeita em torno dos “press releases” não surge sem fundamento, sobretudo em contextos marcados por promiscuidade entre jornalismo, publicidade e assessoria de imprensa. Ainda assim, defendeu que o problema não está no instrumento em si, mas no uso indevido que dele se faz.
Para Leandro Paul, há publicidade disfarçada quando desaparece a separação entre redacção e sector comercial, quando a mensagem comercial oculta a sua natureza ou quando o tom promocional substitui o carácter informativo do conteúdo.
Falando à margem do evento, que se enquadra nas comemorações do quinto aniversário do Jornal “Evidências”, o seu director editorial Nelson Mucanze destacou que, actualmente, para além dos desafios ligados à transformação digital, a comunicação social enfrenta desafios profundos com destaque para precariedade da redacções, baixos salários, instabilidade financeira e perda gradual da capacidade investigativa.
Face aos desafios do presente, Nelson Mucanze observa que quando os media enfraquecem, “enfraquece também a capacidade da sociedade fiscalizar o poder, questionar decisões, exigir transparência e defender direitos fundamentais”.
A Conferência Nacional da Sustentabilidade dos Media reúne jornalistas, académicos, gestores de órgãos de comunicação social, especialistas e representantes de instituições públicas e privadas para debater os desafios económicos, tecnológicos e éticos do ecossistema mediático moçambicano.