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Viver do que o lixo dá

Viver do que o lixo dá

Quando o discurso oficial anuncia o sucesso que está a ter o combate à pobreza no país, a sensação é de alívio. Mas tudo muda quando descemos ao Moçambique real, sobretudo lá onde as pessoas sobrevivem do que o lixo dá.

Está uma manhã fresca de Dezembro no grande bairro de Hulene, a 20 metros da lixeira, onde sobrevivem “os mais pobres” de Maputo.

 

 

Depois de acompanharmos a rotina de homens, mulheres e crianças que subsistem do que a estrumeira dá estamos num espaço de 15 por 20 metros, com duas casas e um barraca revestida de sacos velhos e rotos. O último edifício é o local onde os residentes cuidam da higiene. Chamam-lhe casa de banho, mas não passa de um espaço sem condições mínimas para exercer tal função.

A coisa mais parecida com uma pia é um buraco no chão, qual colónia de moscas e outros vermes. Os recipientes usados para tomar banho são duas latas velhas, uma de 20 litros e outra é um recipiente de leite. Identificar que utilidade as latas tiveram outrora é um desafi o aos olhos.

A casa principal tem dois quartos e uma sala deserta de móveis, à excepção de um televisor, a preto e branco, duas cadeiras plásticas, uma mesa gasta e carcomida pelo tempo, no chão está espalhado um punhado de peças de roupa e dois pares de sapatos sujos. Num vêem-se os pedaços que sobraram de uma esteira.

Num lugar normal e com outras condições aqueles pedaços seriam considerados lixo e tratados como tal, mas aqui é diferente. A esteira é fundamental: há anos que serve de cama para três adolescentes, enquanto aguardam o regresso da mãe que está na vizinha África do Sul. A cabana é uma cozinha, mas seria um eufemismo chamar assim a um lugar que há muito deixou de fazer o seu papel e anda abandonado, escuro e fétido, qual fauna composta por ratazanas, insectos voadores e rastejantes, que pululam por ali.

Não é um lugar adequado para viver, mas é onde vegetam João, Simione e Celeste, três irmãos de seis, dez e doze anos respectivamente, que recorrem à lixeira para apanhar quaisquer objectos para vender e garantir a sua existência debaixo do sol. A subsistência com base no lixo começou quando o pai morreu há quatro anos. A mãe, desnorteada e sem alternativas, decidiu saltar a fronteira e buscar soluções noutras latitudes.

“Vivemos com uma tia, porque a nossa mãe trabalha na África do Sul e só vem uma vez por ano, no mês de Dezembro. Não fazemos ideia da última vez que mandou dinheiro. A nossa tia nunca nos disse”, conta a mais velha, a Celeste. “A tia só volta do trabalho à noite e o dinheiro que nos dá nas manhãs não chega para nada. Andamos na lixeira, porque temos uma refeição por dia, à noite, quando ela regressa”, acrescenta Paulo, sentado num fogão a carvão abandonado no pátio.

Sonhar é fácil

Diz o ditado: viver é difícil e sonhar é fácil. Enquanto conversamos, João, aprecia imagens num papel que apanhou em mais uma jornada no lixo. “Quando eu crescer vou comprar este carro”, diz, apontando para um automóvel de marca Range Rover prateado. “Eu vou trabalhar na África do Sul e voltarei de lá empresário”, acredita Paulo.

A irmã acalenta o sonho de ser uma professora primária Os três irmãos estudam numa escola próxima de casa. Passaram de classe e neste momento estão de férias. Para o ano vão estudar na segunda, sexta e sétima classe. Agora frequentam a lixeira de manha e à tarde.

Uma vida terrível

Alem dos três irmãos, a ida à lixeira constitui o modo de vida de muitas mulheres activas de Hulene e arredores. A romaria começa às quatro da matina. Uns vão porque não têm ocupação, outros por falta de posses. Neste mundo à parte, encontrámos Isabel Manuel, de 58 anos de idade, mãe de cinco filhos, quatro dos quais a viver maritalmente e um sob sua custódia.

Ela frequenta a lixeira há dez anos desde que o marido morreu. “Na altura pensei em voltar para a minha terra natal, Gaza, mas decidi fi car aqui e, por falta de alternativas, passei a vir a este lugar”, conta. “Se dependesse de mim parava ainda hoje, isto é terrível”. Não tem luvas e muito menos máscara, embora precisa delas para se proteger da podridão e do cheiro forte que sobressai das entranhas da lixeira.

À volta do corpo, amarra uma capulana velha e veste uma blusa leve, um lenço à cabeça e nos pés traz umas botas enormes de borracha enquanto desbrava o lixo húmido para encontrar material de ferro e plástico que a seguir será vendido numa cooperativa especializada em reciclagem. Faz isso durante o dia, das quatro às 13 horas, excepto aos domingos e segundas.

Dos produtos recolhidos, tem de proceder à sua separaração. As latas ficam num saco e os plásticos noutro. Um quilograma de plástico custa dois meticais e meio, ao passo que as latas estão a cinquenta centavos. Ela faz um grande esforço para vender pelo menos cinco sacos por dia. É um negócio sem muito lucro, mas é isto que me mantém ainda viva durante os últimos dez anos”, diz.

Na companhia de Isabel Manuel, está Leonor Macassa, de 34 anos de idade, e um bebé ao colo. O menino chama-se Júnior, tem um ano e a mãe levao sempre ao lixo porque ainda é novo e não tem criada. “Por pouco o meu filho nascia aqui, se não tivesse corrido para a maternidade”, conta. Questionado sobre o motivo que a leva à lixeira, responde: “Da mesma forma que o senhor acorda, toma banho e vai ao serviço onde busca o pão para viver, aqui também é assim, tirando a parte do banho e do pequeno almoço que não temos”, diz.

Repetimos a mesma pergunta a outra senhora, desta vez uma jovem de 20 anos, mãe solteira e de corpo franzino. “Vim porque em casa não temos comida”. Esta resposta angustia-nos só de pensarmos que saiu de casa por falta de alimentos e procura-os numa lixeira. Quanto à sua vida particular, a mulher que se identifi cou apenas por Mimi não se mostrou muito entusiasmada. “O meu marido abandonou-me. Foi para a África do Sul, mas nunca mais voltou. Dizem que casou por lá e já tem outro filho”, disse a terminar.

Nova vida ao lixo plástico

A cinquenta metros, existe uma cooperativa de reciclagem construída para dar vazão aos resíduos sólidos da lixeira e ocupar as mulheres que se andam por ali. Naquele estabelecimento chegam resíduos de vários sítios como Magoanine, Mahotas, Benfi ca e Zimpeto.

O guarda da cooperativa, Armando Janela, contou-nos que uma vez comprado, o lixo é transformado e posteriormente vendido nas fábricas da Matola especializadas na produção de material plástico como utensílios domésticos. Antes de o moerem até ficar em grão, o plástico passa por uma lavagem, mas nem sempre é assim, pois tal depende de cada cliente. “Há compradores que querem um trabalho facilitado, daí que nós lavamos”, diz Janela.

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