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Chitlango: Por onde Deus nunca passou

Chitlango: Por onde Deus nunca passou

Em Chitlango, uma das localidades do distrito de Bilene Macia, a pobreza cola-se à pele dos residentes como só em África pode acontecer. A monotonia entranha-se no quotidiano e embacia as perspectivas de um futuro melhor. Maputo (capital do país) e a África do Sul são os nomes que brilham nos rostos dos jovens. Todos querem emigrar porque, no entender popular, Chitlango é um lugar interdito à prosperidade.

Quanto mais se afasta da cidade de Maputo, em direcção às zonas rurais, vislumbra- se uma nova realidade, por sinal gritante: um Moçambique novo emerge e desperta para um mundo à parte, onde o progresso nunca passou e as condições de vida definham a cada nascer do sol. Assim é, em palavras sucintas, o bairro 2 da localidade de Chitlango, no distrito do Bilene Macia, província de Gaza, no qual encontramos uma família a viver na pobreza extrema, à semelhança de tantas outras espalhada pelo país fora.

Vinte minutos separam-nos da hora dez. Está uma manhã causticante neste bairro. Seguimos por um caminho estreito entre a mata que parece uma reserva sem a presença humana. Mas o choro de uma criança denuncia a presença do Homem. É difícil imaginar que por detrás daquele imensa floresta há pessoas.

A casa dos Tivane

Ao fim de dez minutos de caminhada, aproximamonos de duas palhotas e deparamos com um agregado familiar constituído por sete pessoas, chefiado por Maria Francisco Tivane. A família está reunida para o almoço, se é que se pode considerar como tal uma porção de batata-doce cozida.

Semelhante a muitas das habitações em redor, a casa da família Tivane distingue-se apenas pelas esteiras colocadas em seu redor, com a altura média de uma pessoa, para impedir que olhares estranhos e impuros vejam o que se passa no interior. Maria Tivane, cuja idade desconhece, recebe-nos com a tradicional hospitalidade moçambicana. Antes de nos apresentarmos, servenos duas cadeiras de plástico – os únicos bens de luxo da família -, uma das quais com um dos pés quebrados e adverte: “Cuidado ao sentar! A cadeira está partida”. Ela não se retrai e tão-pouco fica incomodada ao saber que somos jornalistas.

Na pobreza extrema

Aparenta um pouco mais de 50 anos de idade. Pés descalços com cicatrizes de quem está habituada a pisar espinhos, e sentada numa esteira à sombra de um cajueiro, fala da pobreza e do seu quotidiano. Diz que a vida ali nunca foi fácil. E o que já era difícil tem vindo a piorar, pois falta quase tudo. O acesso à saúde é difícil. Não tem água potável nem electricidade, mas a falta de alimentos é a sua maior preocupação.

“Vivemos de mandioca, batatadoce e milho”, desabafa. Numa peneira que reclama substituição, sobressai um monte de batata-doce acabado de sair do lume coberto por folhas de bananeira e numa panela de barro vê-se um cozinhado, com cacana como único ingrediente, a não ser que se considere como tal o sal e a água.

É a primeira e a última refeição do dia. Há três dias que esta família não sabe o que é jantar, aliás, situação que se repete frequentemente. O recipiente de farinha de milho – um balde de plástico – está vazio há uma semana, e dona Maria explica que já não tem mandioca e milho para vender na vila de modo a obter mais daquele produto.

A farinha de milho é o luxo a que esta família só raramente se pode permitir. “O problema aqui é a fome. Não há dinheiro, e da machamba já não sai milho”, comenta enquanto afugenta inúmeras vezes os patos que tentam retirar alguns tubérculos através de um enorme orifício na parte lateral da peneira.

Cada membro da família alimenta-se de batata-doce, sabendo que não haverá jantar. Até o Bernardo, de 2 anos de idade, – penúltimo neto de Maria Tivane – tem de aprender a dormir sem comer. Rigidamente sentado no chão, o petiz tem, entre as pernas, uma panela relativamente grande e cheia de batata- doce – quantidade suficiente para alimentar duas pessoas adultas – e na mão esquerda segura um ramo para expulsar os patos que insistentemente se aproximam para se apoderar do seu mata-bicho, almoço e jantar.

Nada de pão, queijo, manteiga, cereais ou leite, Bernardo vai-se contentando com o tubérculo e bebendo um líquido que, à primeira vista, se parece com chá. Parece… mas é puro engano, trata-se de água turva que a população da localidade de Chitlango consome.

Viúva há seis anos e mãe de um casal, Maria Tivane não se rende às contrariedades da vida, pelo contrário, esforça-se para alimentar os seus netos. Esta mulher vive, todos os dias, a dor dos filhos que não conseguem algo para fazer na vila para onde emigraram em busca de melhores condições de vida.

Dormir amontoado

Dona Maria e a sua família vivem num terreno de um pouco mais de 20 metros quadrados. Conta que o espaço pertencia aos seus progenitores e é neste local onde nasceu e sempre viveu. Actualmente, mora com a nora e os seus cinco netos numa pequena cabana de cerca de 2,5 por 3 metros.

A casa é feita de caniço e coberta de capim. A divisão está vazia, à excepção, de peças de roupas penduradas e algumas trouxas em sacos de plástico. Dormem todos juntos na única esteira carcomida pelo tempo e cobrem duas capulanas ganhas na última campanha eleitoral e uma manta espessa. No interior, a precariedade das condições é tal que não se pode estar de pé sem se ser de tronco curvado.

Não é um lugar onde se possa albergar uma família, mas é a casa na qual Maria Tivane e a sua família repousam a aguardar o passar de tempo na expectativa de que o dia seguinte seja melhor do que o anterior. Ela não é capaz de dizer o que os filhos sabem fazer, além de cultivar a terra, mas afirma que eles nunca foram à escola. Aliás, as únicas pessoas na família que frequentam uma instituição de ensino são Joana, de 6 anos de idade, que transitou para 2ª classe, e Madalena, de 13 anos, que reprovou na 5ª classe por acumular faltas.

A nora de nome Artemisa Afonso Matavele diz que o seu marido fazia biscates como mecânico, antes de a ter colocado fora de casa numa altura em que ela estava grávida de oito meses. Com o filho recém-nascido nos braços, Artemisa, de 23 anos de idade, e mãe de três filhos, explica que foi expulsa do lar acusada pelo seu esposo de estar a traílo, porque não a encontrou em casa depois de um dia infrutífero na vila. Foi buscar abrigo na casa da sogra onde hoje aguarda a reconciliação.

Menos um problema

Todas as manhãs, Maria Tivane saía de casa para ir buscar água, às quatro horas, tendo de caminhar duas horas e meia até chegar ao rio mais próximo. Este não era apenas o dilema de Maria, mas também de cerca de 3500 habitantes da comunidade de Chitlango. Graças ao furo de água oferecido pelas instituições Millennium-bim, no âmbito do programa de responsabilidade social “Mais Moçambique para mim” e a Western Union, a população dessa localidade passa a consumir água potável.

Porém, o furo não satisfaz todos os residentes, havendo um segmento da população de mais de 900 pessoas sem beneficiar do precioso líquido . Nem todos os problemas estão resolvidos, pois a população de Chitlango clama pela reabilitação de vias de acesso, pelo transporte, pela reabilitação e pela construção de salas de aulas, e instalação de corrente eléctrica.

A localidade é o único posto do distrito do Bilene Macia sem electricidade. É, diga-se, uma zona isolada da civilização.

Jovens ao deus-dará

Têm entre 18 e 30 anos de idade, alguns têm baixo grau de escolaridade e outros nunca sequer se sentaram num banco de uma sala de aulas. Sem opção, nem profissional nem de formação, pensam, invariavelmente, numa única coisa: emigrar para a vila ou rumar para a África de Sul.

Este é o perfil dos jovens da localidade de Chitlango. Todos nasceram no distrito de Bilene Macia, província de Gaza, e os problemas que enfrentam são basicamente os mesmos: não há trabalho. Estão sentados, sem rumo e sem fé no futuro, a olhar para o tempo a passar. Partilham sonhos e ambições. De diferente têm apenas a idade e o nível de escolaridade. Deixar a localidade e ir em busca de uma vida melhor na vila, na capital do país ou na vizinha África de Sul é assunto constante nas conversas de rua. Porque em Chitlango a vida é monótona e o relógio parece não assinalar a passagem do tempo.

Paira um sentimento de abandono, pois a comunidade não conheceu absolutamente nenhuma obra do Governo. Isso mesmo: nada!

A dor de viver em Chitlango Betuel Juaio, de 18 anos de idade, nasceu neste ponto do país, mas viveu durante quatro anos na cidade Maputo onde morava com os seus pais e hoje tem dificuldades em adaptar-se a tudo: às ruas sem trânsito, aos vizinhos que ficam a 500 metros, a recolher-se mais cedo e a uma vida recatada, em suma, um mundo diferente a que já estava a habituar-se na capital do país. A mudança foi-lhe dolorosa.

Betuel diz-se insatisfeito com a sua terra natal porque “tudo é parado, não há nada para se fazer. E o Governo não chega para ouvir os problemas tão-pouco para resolvê-los” e “aqui nem parece que vive gente”. Com a 7ª classe interrompida, tentou ganhar a vida na vila vendendo recargas para telemóveis, mas, porque a pessoa para a qual trabalhava não lhe pagava o ordenado garantindo-lhe apenas habitação, decidiu desistir do emprego e voltou para casa.

Mais tarde, depois de juntar algum dinheiro, abriu uma pequena banca, mas a falta de transporte que o levasse todos dias da casa para a vila da Macia e vice-versa, precipitou a falência do seu negócio de doces e cigarros. Os seus dias são sempre os mesmos. Acorda às 5h00 e ajuda nas tarefas domésticas.

Na maior parte do tempo fica a ver o dia a passar, isso quando a vizinhança, principalmente as senhoras idosas, não solicita os seus préstimos: ajudar na colheita, cultivar a terra, derrubar árvores ou abrir uma machamba. E normalmente recebe em troca batata-doce, mandioca, amendoim ou mesmo 20 meticais. Lamenta a falta de actividades para jovens. “Nem futebol jogamos por falta de bola”. Não pensa em continuar com os estudos, pelo contrário, prepara-se para abandonar a localidade à procura de um futuro na terra do rand: “Conheci uma pessoa que vive na África de Sul, e ele vai ajudar-me a entrar lá quando vier passar as festas cá”.

Emigrar é destino

Emigrar parece ser o destino dos jovens em Chitlango. João Agostinho Macamo, de 30 anos de idade, também se prepara para deixar a sua terra de origem em busca do “el dorado”. Num português carregado que às vezes mistura com a língua materna, diz que vai à procura do sustento para a sua família porque “as coisas aqui não estão a andar”. João vive maritalmente e tem três filhos com os quais partilha um cubículo sem as mínimas condições de habitabilidade.

Um plástico enorme separa o espaço onde dorme do dos seus rebentos. No interior da casa, sobressaem aos nossos olhos os poucos bens de que a família dispõe: bacias partidas, bidões encardidos e algumas panelas com restos de comida, além de um punhado de roupa pendurada nos cantos da divisão. Diz que não faz nada porque “não há nada para fazer” naquele lugar, apenas ajuda a esposa na machamba.

Quando questionado sobre que actividade vai abraçar nas terras sul-africanas, a resposta demora a surgir. Mas olha rapidamente para o chão, levanta a cabeça e diz: “Qualquer coisa que me aparecer pela frente”. Sossegado e de olhar penetrante, Alberto Machava, de 26 anos de idade, observa atentamente as pessoas que assistem à cerimónia de inauguração do furo de água. Aproximamo-nos para meter dois dedos de conversa, e ele retrai-se e ignora a nossa presença.

Quando perguntamos sobre a vida no Chitlongo, diz, olhando fixamente para multidão, que “é difícil” e justifica: “Não há nada. Não temos emprego, aqui não se faz nada”.

Mais do mesmo

Com apenas a 5ª classe concluída, Alberto pretende ir à procura de trabalho na vila ou na capital. Não descarta a hipótese de emigrar para a África de Sul, mas afirma que só poderá fazê-lo se alguém lhe formular um convite. Tem uma filha e mulher com a qual vive maritalmente na casa dos seus pais. “A localidade está a ficar deserta, todos os jovens estão a ir-se embora desta terra porque aqui não há nada para eles. Um dia também vou seguir o mesmo caminho”, desabafa.

Alberto transportava através da sua bicicleta as pessoas para vila, e vice-versa, e cobrava três meticais por viagem. Com o dinheiro que amealhava diariamente ajudava nas despesas caseiras. Agora o seu meio de locomoção está avariado e faltalhe dinheiro para comprar algumas peças. Não vislumbra nenhuma solução, apenas espera que a sorte lhe bata a porta.

 

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