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Vilankulo FC: A vítima de costume da “lisura” institucional

O Vilankulo FC, clube representante da província de Inhambane no Moçambola, é o único dos 14 em competição sem direito a passagens aéreas. Os jogadores e a equipa técnica são obrigados, todas as semanas, a percorrer o país de lés-a-lés num autocarro de 32 lugares, pago pela Liga Moçambicana de Futebol (LMF), enquanto os restantes clubes fazem-no de avião. Se no passado as deslocações eram quinzenais, neste ano passaram a ser semanais, obrigando o clube a ter de viajar de Vilankulos para Nampula e de lá para a Matola de estrada, só para citar um exemplo.

Nesta semana, o @Verdade foi ao encontro de Yassin Amuji, proprietário daquele clube, e do seu treinador principal, Chiquinho Conde, que desabafaram sem colocar algemas nas palavras. Ficou-se a saber destas duas fontes que a equipa nem sequer chega a preparar-se para os jogos, visto que passa a maior parte do tempo a viajar.

@Verdade – Qual é a sua opinião a respeito do nosso Campeonato Nacional de Futebol?

Yassin Amuji (YA) – Vou basear-me somente no que diz respeito ao profissionalismo do mesmo. Eu acho que estamos a caminhar, ainda que a passo de camaleão. A verdade é que há muita coisa que tem de mudar neste futebol. Nós precisamos de gerir o futebol moçambicano como desportistas e não como políticos amadores.

@V – Qual é a diferença entre os nossos gestores desportistas e os políticos?

YA – Gerido por desportistas, o nosso futebol pode estar estável de modo a estabilizar muita coisa no país. Mas enquanto for gerido por políticos, todo o trabalho feito poderá ser destroçado, porque as pessoas querem aparecer como santos para serem promovidos a anjos, tudo para estarem à esquerda de Deus.

@V – Significa que esta não é a competição que Amuji quis para o seu clube?

YA – Ainda bem que tocou neste assunto. Afinal porque é que estamos a jogar a meio de semana? Qual é a necessidade de terminar este campeonato tão cedo? Em todos os cantos do mundo os campeonatos ficam paralisados por 45 dias, porém, aqui o período de defeso é de quatro meses, sendo que, agora com os jogos a meio de semana, vai subir para seis meses. Este calendário não se enquadra na realidade do nosso país, por mais que tentemos trazer o continente europeu para Moçambique.

@V – Tem denunciado sempre que há pessoas que querem acabar com o Vilankulo FC. Pode explicar isso?

YA – Já éramos um clube prejudicado com as deslocações terrestres, só mudou porque reduziram o período das viagens de 15 para 7 em 7 dias, para não termos direito a descanso, recuperação e dias para treinar. O culpado por tudo isto é quem traça o calendário. Mostra efectivamente que não percebe nada de futebol e quer acabar com o com o Vilankulo FC. Eu até prefiro pensar que querem acabar com o clube, porque me custa acreditar que há gente que não percebe que esta decisão de jogar às quartas é impossível para qualquer atleta. Será que andamos esquecidos de que a FIFA recomenda 72 horas de descanso para qualquer clube?

@V – Tem nomes das pessoas que querem acabar com Vilankulo FC?

YA – Ainda não confirmei as minhas suspeitas. Porém, é um facto que essas pessoas vão conseguir duas coisas: Ou aniquilar o clube ou nós iremos escrever o nosso nome na história do desporto moçambicano, mesmo na adversidade.

@V – Sente que por o Vilankulo FC ser privado há quem não esteja satisfeito com isso?

YA – Disso não há duvida. Há muita gente que não está feliz com o nosso projecto. Mas para mim o que mais importa é o facto de ver as pessoas que se sentem felizes connosco e orgulhar os que nos assistem desde o primeiro dia de existência. Estamos a evoluir a olhos vistos.

@V – Que conflito há entre Yassin Amuji e a Liga Moçambicana de Futebol?

YA – Não há conflito nenhum. As pessoas podem estar a confundir o facto de o Yassin Amuji estar a reclamar os direitos do seu clube junto àquele organismo. Em qualquer competição os intervenientes devem partir em pé de igualdade. Neste caso, se Vilankulos tem um aeroporto internacional com voos diários para Maputo e para Joanesburgo, por que razão só se pode fazer turismo em detrimento do desporto? Entretanto, temos uma Liga Moçambicana de Futebol que nada faz para solucionar o problema e dar direitos iguais a todos. Não acredito que o meu país tenha escassez de recursos para um único clube em quatro anos consecutivos.

@V – O que diz a Liga quando o Vilankulo FC apresenta essas queixas?

YA – Houve alguém da Liga Moçambicana de Futebol que apareceu publicamente a dizer que o Vilankulo FC não se pode fazer de vítima, que só tem de comer um pouco mais. Porém, acredito que essa pessoa não se apercebeu de que ao dizer que temos de “comer um pouco mais” estava a insultar toda a província de Inhambane.

@V – Mas já receberam uma resposta institucional?.

YA – Este assunto vem de há anos. As respostas são sempre as mesmas de que estamos a solucionar, de que estamos a trabalhar para melhorar, mas que no fim a realidade tende a piorar. A Liga Moçambicana de Futebol, a Federação Moçambicana de Futebol e o Ministério da Juventude e Desportos têm conhecimento disto.

@V – Ameaçou desistir do Moçambola. Será por falta de solução para o impasse?

YA – Claramente. Temos tentado dialogar com a Liga Moçambicana de Futebol mas parece que não há mesmo solução. E como não há, nada melhor do que retirar o meu clube para evitar que amanhã alguém morra em campo ou aconteça algum acidente. A saúde e a vida dos nossos atletas são muito mais importante do que qualquer competição, como também defendem os regulamentos da FIFA, que priorizam a saúde, a recuperação e o nível psíquico dos atletas. Ninguém deve entrar nas quatro linhas sem condições para jogar.

@V – Acha que a Liga Moçambicana de Futebol vai ceder?

YA – Isso já não cabe a nós. Nós remetemos uma carta à Liga e agora estamos à espera da decisão dela, a que achar correcta. Se quiserem mesmo o fim do Vilankulo FC, aqui está uma oportunidade de ouro. Contudo, sei que mesmo a competir seremos um alvo a abater depois de todo este escândalo.

@V – E se a Liga não ceder à pressão, vai voltar ao futebol dos quarteirões, olhando para todas as implicações à volta desta decisão? YA – A decisão será irreversível pelos fundamentos apresentados acima.

@V – Vai um dia querer voltar ao Moçambola?

YA – Se sairmos por causa da incompetência e falta de capacidade dos outros, não regressaremos nunca mais ao Moçambola. Existiremos como um clube amador para felicidade deles.

 

Chiquinho Conde, treinador principal

@Verdade – Na qualidade de treinador, quais são as implicações das viagens terrestres para a equipa?

Chiquinho Conde (CC) – O desgaste físico e psicológico são as maiores consequências das viagens terrestres na equipa. Parece que não, mas isto afecta o psíquico e o físico dos nossos atletas até da própria equipa técnica.

@V – E como é que tenta gerir esta situação?

CC – Da melhor maneira possível. É necessário que logo após um jogo haja um tempo de recuperação, para logo depois se entrar numa fase de preparação do jogo seguinte. Mas, infelizmente, nestes moldes sou obrigado a colocar os jogadores em estágio logo após cada jogo, mesmo sabendo que o desgaste físico, psíquico e mental é muito grande. Temos de ter em mente que depois de uma partida de futebol, um jogador tem sempre um semblante, seja de felicidade, seja de tristeza, precisando, porém, de um tempo para digerir isso.

@V – Mas em termos concretos, o que acontece?

CC – Vamos pegar o caso de um jogo numa quarta-feira em Maputo, que a meu ver é absolutamente anormal. Um atleta joga duas horas nesse dia e, normalmente, o corpo sai cansado. Isto no intervalo entre as 15 horas e as 17 horas. Depois disso, o atleta tem de repousar até às 19h30, a hora do jantar. A seguir ele é obrigado a dormir até ao máximo 22 horas, ciente de que terá de acordar às 04 horas na quinta-feira para seguir viagem de 800 quilómetros de volta à vila de Vilankulos. A chegada está prevista para o fim da tarde, onde praticamente a quinta-feira é um dia perdido para nós. O descanso é obrigatório, quer pela viagem feita, quer pelo jogo realizado. O dia de sexta-feira é reservado aos treinos, mas porque os atletas já vêm com fadiga fazemos exercícios de recuperação, de corrida contínua, de lances de bola parada e de toques na bola. Não existe nenhum trabalho a fazer que diz respeito à técnica e à respectiva táctica. Na última segunda-feira (15), em pleno campo, diante do Chingale de Tete após percorremos cerca de 100 quilómetros de estrada, um jogador nosso caiu inconsciente. Muitos dizem que se deveu à temperatura. Mas quem nos garante que não foi também pelo cansaço da viagem?

@V – Mas se não sistematiza os treinos, significa então que os jogos não são antecedidos de uma preparação?

CC – Absolutamente que não. Jogaremos apenas para defender, uma atitude que deixa muitos colegas meus irritados, por não contribuir para a verdade desportiva. Mas, infelizmente, poucos percebem isso e tenho o dever de agradecer ao treinador Arnaldo Salvado, um homem que teve a coragem de sair publicamente em defesa do Vilankulo FC. As pessoas precisam de perceber que o Moçambola é diferente da Taça de Moçambique em que as equipas são obrigadas a percorrer longas distâncias de autocarros, ainda que num longo intervalo de tempo entre um jogo e outro. No campeonato tem de reinar o princípio de igualdade. Em nenhum canto do mundo uma equipa de futebol percorre entre 800 e 1000 quilómetros de estrada para cumprir com o calendário de uma competição que se queira nacional.

@V – Mas muito recentemente apareceu um dirigente da Liga Moçambicana de Futebol a dizer que o Vilankulo FC não precisa de se fazer passar por vítima, mas que devia esforçar-se um pouco mais, visto que quer estar na competição.

CC – É incrível esse comentário. Só pode ser de alguém que nunca jogou futebol, ou seja, de um dirigente que não está informado. Eu já estive na roda dos melhores campeonatos da Europa e tenho toda a legitimidade para ensinar a quem precisa: os jogos a meio de semana não são para campeonatos ou, se pretendermos, uma jornada inteira de um Campeonato Nacional de Futebol. São, sim, para jogos da Taça Nacional, da Taça da Liga e das Ligas intercontinentais. Uma partida para o campeonato nacional só se for um jogo de acerto de calendário como aconteceu recentemente entre a Liga Muçulmana e o Ferroviário da Beira.

@V – Mas há quem chegue a defender a realização dos jogos a meio de semana, usando como exemplo a Primeira Liga Inglesa.

CC – É mentira. Essa comparação roça o ridículo de quão falsa que é. É muito grave comparar o Moçambola com o campeonato inglês. Repito: eu já estive na Europa e sei do que falo, aliás, até hoje acompanho esses campeonatos porque sou uma pessoa ligada ao futebol. É preciso mudar a mentalidade dos que estão a dirigir o nosso futebol.

@V – O que há com a mentalidade dos que dirigem o nosso futebol?

CC – Não vamos generalizar mas, neste caso concreto, as pessoas no lugar de trabalharem para beneficiar o futebol, usam o futebol para seu próprio benefício. As pessoas que gerem o futebol moçambicano querem acabar com o Vilankulo FC alimentando esta situação calamitosa.

@V – Refere-se aos dirigentes da Liga Moçambicana de Futebol?

CC – Quem é que admite que esta barbaridade toda contra o Vilankulo FC continue? Quem define o calendário de jogos? Quem dita que a nossa equipa tenha de sair de Tete de autocarro depois de um jogo numa segunda-feira para chegar a Maputo e jogar no sábado, ainda ter de voltar a Vilankulo para jogar na quarta seguinte antes de regressar a Maputo para efectuar outro jogo no sábado? Mais, porque é que o presidente da Liga Moçambicana de Futebol quando viaja até Vilankulos não o faz por estrada, para sentir aquilo que nós sentimos?

@V – Está de acordo com a desistência do Moçambola anunciada pelo proprietário do clube, o Yassin Amuji?

CC – Eu entendo perfeitamente a decisão do presidente e estou solidário. O clube está a competir profissionalmente há sensivelmente quatro anos, tendo chegado a uma final da Taça de Moçambique; tendo conseguido posições variáveis na tabela classificativa final, com uma tendência ascendente; tendo alcançado um registo único no mundo de 13 jogos caseiros, ou seja, todos da competição sem sofrer golos. Isto, em condições normais, aliado ao facto de algumas pessoas quererem tirar proveito do futebol moçambicano, incomoda muita gente. Repare que antigamente jogávamos fora de casa num intervalo de 15 em 15 dias e hoje as coisas mudaram bruscamente, para de 7 em 7 dias. Eu e o presidente Amuji arquitectámos um projecto de desenvolvimento do clube a longo prazo. Mas nestas condições não vamos a lugar nenhum, nem no próprio Moçambola iremos garantir a manutenção.

@V – Mas o clube não sai a perder?

CC – Eu devolvo a pergunta. A quem interessa este cenário todo contra o Vilankulo FC? O pensamento que reina no seio de quem dirige o Moçambola é o de que nós somos provincianos e não merecemos crescer por esse motivo, que nós somos um parente pobre dos restantes clubes. Obviamente que o clube sai a perder, mas temos de continuar a sacrificar os jogadores porque alguém quer que seja assim? Será que alguém se recorda como é que terminou a destemida equipa do One Poune?

@V – Qual é a solução que propõe?

CC – Que haja bom senso por parte da Liga Moçambicana de Futebol. Como disse atrás, que prevaleça a igualdade entre os clubes do Moçambola ou, caso isso seja difícil, que se volte ao calendário anterior em que tínhamos jogos fora de 15 em 15 dias. Somos desportistas e precisamos de repouso.

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