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‘@ Verdade Solta – Orgulhosamente Macho

Pouco importa o dia da semana. Sem destino, caminhava sobre os mesmos passeios esburacados de sempre e por debaixo das acácias que bailavam ao ritmo excitante do vento preguiçoso das tardes tropicais, quando, de repente me deparei com o meu velho amigo.

Por alguma razão, detesta ser tratado pelo seu verdadeiro nome, preferi que lhe chamem por Bryan, não me pergunte onde foi buscar porque também não sei. “Aí vem parvoíce” – digo com um ar sério, pois, sempre que o encontro tem uma história descabida para contar. “Não percebo como pode caber na cabeça de alguém tanta porcaria! Certamente herdou de um parente”, penso. Como sempre efusivo, solta um violento grito de acordar um defunto: “Shirangano… és tu mesmo, meu irmão!!? Nem pareces o meu mano!”. Também por alguma carga de água trate-me por “mano”, embora não exista qualquer laço de parentesco entre nós. “Como vai esta vida?” , quis saber e eu, espirituosamente, digo:

“Andando, sabes como é, né? E tu?”. Com o seu habitual sorriso pepsodent que me irrita, lá foi ele respondendo que a vida só lhe tem mostrado dentes. “Mano, a minha vida anda como que veículos de Formula 1 e, às vezes, como que metro. Vamos naquela nossa ‘sinagoga’ e explico-te melhor. Não te preocupes, hoje tudo será por minha conta”, diz. Num ápice, lá estavamos na barraca onde em tempos mergulhavamos nas profundezas do álcool. Depois de lubrificarmos a garganta com aquele líquido dourado e margo, o meu amigo, ele mesmo o Bryan, desta vez num tom enérgico, foi dizendo: “Meu irmão, descobri a minha vocação. Essa cena de ser jornalista é maningue stressante…”

“Aieee, e qual é essa vocação!!?”, pergunto estupefacto. “Calma, já vais perceber! Estás a ver a minha vizinha do 6º andar?” “Quem? A Sheila!?” “Ya! Engravidei a dama, meu. Assim os pais dela estão maningue enjoados comingo e os meus velhos também estão full porque não assumi a cena e, ainda por cima, fui encher a prima da Sheila. Eu sou mau, meu irmão. Estás a ver a amiga da minha irmã, a Kátia, também não me escapou. E aquela nossa colega que se sentava atrás do Ivan, a Márcia, tem um puto meu”. “Sei”, comento. “Não sabes nada. Estás a ver a Margarida está grávida de trigêmeos. Adivinha quem conseguiu tal proeza.

Eu, meu irmão. É ai onde eu vejo que sou verdadeiramente macho. Estás a ver, né? É como sem eu fosse basquetista Kobe Bryant…” “Basquetebolista”, interrompo-lhe. “Ya, isso mesmo. É como se eu tivesse marcado três cestos. Não te preocupes, se forem rapazes um deles vai se chamar Shirangano. O meu objectivo é quebrar o record do meu bisavô que teve 35 filhos”. “Quer dizer que o senhor não quer saber de PV’s!?” “Mano, não há preservativo que aguente.

Os meus espermatozóides são tão quentes, tão quentes ao ponto de derreterem o látex…”. “Não me digas!” “Podes crer. Como já deves saber, neste país tudo funciona a base de esquemas ou deves pertencer a um determinado partido. Mas, se eu estivesse nesses países onde se incentiva a natalidade, o meu nome já teria sido atribuído a uma rua ou praça, além de ser outorgado “Doutor Honoris Causa””. “Esta é que é a sua vocação?”, pergunto. “Ya, mano.

Desta forma, estou a contribuir para o combate a famigerada Pobreza Absoluta…”. “Mas, de que jeito?”. “Oh Shirangano, nem pareces jornalista? Afinal, não sabes que o nosso país carece de recursos humanos. Eu estou a contribuir para o combate à pobreza, produzindo mão-de-obra. Veja só o que a China é hoje, os gajos são muitos e até exportam alguns chineses para cá”. “Aieee”. “Ya, meu irmão. Não ouviste o discurso do dia? Eu já comecei a virar-me e tu de que estás à espera? Neste momento, estou a desenhar um projecto para usufruir do Fundo para Iniciativas Locais…”. “Que projecto é esse?”

“Já identifiquei dez distritos que se debate com problemas de despovoamento. Portanto, vou para àqueles pólos de desenvolvimento implementar o meu projecto que visa contribuir para o Crescimento Populacional”. Fiquei sem palavras.

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