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‘@ Verdade Solta- o barulho da sirene

Eram sete da manhã. O sol já se faz sentir. As cortinas azuis bailavam ao ritmo do vento que entrava pelas janelas entreabertas do quarto. Ouve-se o barulho das sirenes. Abri os olhos lentamente e voltei a cerrá-los. Voltei a ouvir o barulho, mas desta vez um pouco mais alto. Acordei com o sobressalto do violento estrondo produzido pelas sirenes.

“Deve ser a polícia escoltando o Presidente da República a partir da sua residência ao local onde labuta. É uma parvoíce fazer tanto barulho para poder ter a via livre e fazer-se ao seu posto de trabalho” – pensei meio atarantado. Levantei-me da cama explodindo de raiva pelo facto de interromperem o meu precioso sono. Sentia-me como se tivessem tirado uma parte de mim. Veio-me a depressão e afundei num mar de tristeza, pranteando por causa daquela situação abstruosa. Sentado na berma da cama, olhei fixamente para as paredes creme do meu quarto, cogitando acerca da atrocidade cometida pelas sirenes das viaturas da polícia. “De tantas avenidas existentes nesta cidade, acharam melhor passar por esta?”

– Questionei-me. “Ou a intenção fora criar-me má disposiçao?” Sem saber o que fazer, desatei a gritar:- “Isto é injustiçaaa..!” A minha avó, perturbada e assustada, veio pé ante pé corredor fora, empurrou a porta do quarto sem eu a ouvir e preocupada perguntou: – O que foi? Sisudo e indignado por tamanha ignorância, eu disse: – Avó não se apercebeu do ruído causado pelos carros da força de protecção do Estado? Ela olhou para mim, como quem dizia – “que belo susto me pregaste!” – soltando sonoras gargalhadas. Parece alguém que não se ria desde a sua adolescência, e que ocasionalmente só naquele dia desbloqueava as suas cordas vocais; e para o cúmulo da situação esquecera de usar a dentadura.

As gargalhadas da minha avó irritavam-me e decidi interrompê- la, querendo saber sobre o motivo de tanta alegria: – De que é que ti ris avó? – Questionei. – Qual ruído, qual força de protecção do Estado!!? – Disse ela com um sorriso riscado nos lábios – Trata-se de viaturas do corpo dos bombeiros que se deslocam para a zona alta para combater o fogo que consome um estabelecimento comercial desde as seis da manhã. Fiquei indignado comigo mesmo. Senti-me aparvalhado, era como se eu estivesse acordado numa rua sem saber como lá fui parar e se continuaria alí parado ou seguia para frente ou para atrás, para a esquerda ou para a direita. É como se de súbito tivesse perdido parcialmente a memória.

Olhei para a minha avó nos olhos, que as lentes grossas fazem parecer pequenos, vejo lágrimas que insistem em rolar no seu rosto murcho e marcado pelo tempo, as lágrimas enunciavam um motivo evidente: “acontecimento terrível e patético a que me subjuguei em relação ao soar das sirenes”. Mas a minha avó já deve estar habituada às minhas manhas e aos meus constantes e insólitos dramas.

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