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‘@VERDADE Solta – MALDITA VIDA!(2/2)

Sem ira e nem contenda deixei o local. Mergulhei nesse caprichoso e visitado mar de mentiras à procura de uma inverdade que pudesse adequar-se à história que pretendia contar a Anifa. Sem esforço, achei uma requintada ideia, que diligentemente fui fabricando pelo caminho de volta a casa.

Ligeiro como um raio, o meu amigo Abudo – o dono do fato – apareceu na minha direcção, fiquei aturdido pelo receio e entrei pela primeira porta que vi. Olhei para o outro lado da rua, estava a Amina, prima da Anifa, a sorrir cinicamente para mim. Não entendi o motivo daquele sorriso estúpido.

Coisa boa não deveria ser. No entanto, gradativamente, apercebi-me de que me encontrava no antro de prostituição onde busquei prazeres carnais na minha mocidade. “Lá se foi o meu casamento” – senti-me diminuído. Atordoado, pus-me a correr para casa, mas fui o último a chegar, pois a Amina numa velocidade “mais rápido que de repente” já lá estava. A Anifa esperava por mim pacientemente.

Os seus olhos cintilantes demonstravam tamanha frieza. Mas, inábil e áspero, dei a má notícia sem rodeios: – Não consegui o emprego! Sem abrir a boca continuava a olhar para mim. De certeza que esperava por uma explicação sobre os reais motivos da minha presença naquele famigerado antro. Ignorando esse aspecto soltei meia dúzia de palavras enfadonhas que soaram como um incentivo ao derrame de lágrimas: – Não te preocupes querida, as coisas vão melhorar. A vida tem destas coisas.

Sem conter as lágrimas, a minha idolatrada esposa falou indiscretamente no fim do matrimónio, depois de proferir declarações pejadas de adjectivos pejorativos que melhor lhe aprouveram. Numa movimentação rápida, com ajuda da sua prima Amina, a qual detesto, pegou nas suas trouxas e partiu para o incerto.

A solidão consumia-me ferozmente nas noites mais frias de Inverno, a dor era expressa pelas lágrimas que insistiam em rolar no meu rosto perecido e os meus olhos ficavam congestos e desenfreadamente me lembravam dos meus dias áureos. Sisudo, cheguei a pensar que os meus antepassados conspiravam contra mim. Talvez alguém que estivesse algures no céu. Se calhar o meu bisavô Zunguza por causa do pijama, mas a julgar pelo que fez cá na terra duvido que tenha conseguido uma vaga no paraíso privado.

Os dias, meses e anos passaram, decidi ir levantar o meu B.I depois de ter sido diversas vezes prorrogado por cem vezes tantos dias. Era sexta-feira, em direcção à D.I.C deparei-me com o meu compadre Mabunda: – Compadre Shirangano, és tu mesmo!? – perguntou-me com a boca entreaberta – Quando cruzei com a tua mulher Anifa, ela disse-me que o compadre estava morto. Mal soube disso tratei de correr para aquele vovó que veio dos grandes lagos para amaldiçoar a tua vida mesmo morto, por causa dos quinhentos meticais que me deves. – Olhando para mim, compadre, há diferença entre um morto e eu? – perguntei eu espirituosamente.

– De facto, compadre, a vida maltratou-te! Paga o que me deves para eu poder ir a Mambone dizer que a pessoa que me deve não morreu e desfazer o feitiço. Com olhos fitos na estrada, pus-me a caminhar. Cheguei à DIC desanimado, o ambiente era estranho e alguma coisa de errado devia estar a passar-se. Fazendo um movimento acrobático para sair pela porta escancarada daquela sala que se encontrava completamente vazia, fui interpelado pela voz de uma funcionária. Aproximei-me e ela sorriu alegremente para mim. “Funcionária pública a sorrir, coisa boa não deve ser!” – pensei silenciosamente.

Entreguei o talão e ela cuidadosamente procurou pelo meu bilhete e encontrou. Com largueza de gesto, disse de forma enérgica: – O seu B.I caducou, aconselho-o a renovar.

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