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‘@VERDADE Solta – MALDITA VIDA! (1/2)

Sentia-me como que um repolho, tratado com o devido esmero, preso numa terra adubada. O calor era de rachar. Pus-me a confessar todos os meus pecados, desde os mais cabeludos até aos mais carecas. Ainda bem que a minha adorada Anifa não ouviu as minhas súplicas, pois não preciso de ser adivinhador para saber qual seria o meu novo estado civil.

Cheguei a pensar que estivesse no inferno pagando pelos pecados que cometi desde a nascença. Se não fosse a minha vizinha a acordar-me com as suas habituais orações matinais, o tão estimado pijama que pertencera ao meu bisavó Zunguza, do qual me apossei aquando da sua morte, teria sido engolido pelo esfomeado fogo. Suspirei de alívio ao ver que o candeeiro de querosene havia queimado o meu pé esquerdo, já imaginou se fosse o pijama!? – Ainda bem que foi o meu pé..! – suspirei novamente. De súbito, apercebi-me de que as horas corriam como que estivessem numa olimpíada e, num ápice, aprontei-me e fiz-me à rua. No dia parecia faltar alguma coisa para que fosse lindo.

O sol olhava-me com desdém, talvez pelo facto de estar a usar o fato que pedi emprestado há três anos, ao meu amigo Abudo para contrair matrimónio e ainda não o devolvi. Quando desfilava nos passeios, que mais se pareciam com armadilhas, um remoinho de vento cruzou a minha vereda, só não me levou consigo devido ao meu avantajado corpo. Cheguei ao ministério com cinco minutos de atraso. – O senhor é parvo ou está gozar comigo? – indagou o chefe dos recursos humanos. – Desculpa chefe, não entendi. – Ó meu Deus, para além de parvo é também burro!

O anúncio de vaga pedia fotocópia do B.I e não sei por que carga de água, o senhor traz-me fotocópia do talão… – Como está bem claro no talão, o meu bilhete de identidade teria saído há nove meses e passam vinte e um meses que ainda não saiu, mas quem sabe hoje! – E onde é que eu entro nesta história? Por favor, saia e dê oportunidade aos que realmente precisam. A seguirrr..! – gritou violentamente. Deixei o ministério cabisbaixo e com a alma aleijada.

A caminho da Direcção de Identificação Cívil (D.I.C), amaldiçoava o ventre que abrigou aquele malparido. Proferia palavras indecorosas contra a mulher que lhe havia parido. Palavras que se fossem direccionadas à dona senhora minha mãe, mastigava sem piedade o nariz de quem ousasse dizer tais coisas. Eram dez horas quando cheguei à D.I.C. – Esta é a bicha para o levantamento do B.I? – quis eu saber. – Não, esta é a bicha para receber laranja! O senhor não está a ver? – resposta sufocante. Olhei furioso para o indivíduo. A sorte dele era de ter o dobro do meu tamanho, se não fosse isso, havia de lhe proporcionar um funeral na hora. A bicha não andava. As pessoas esperavam ansiosamente pelo atendimento. Os funcionários públicos desfrutavam a delícia da primeira refeição do dia desde as sete e meia, hora a que tinham chegado ao local de trabalho. Deviam ser onze horas e cinquenta minutos quando começaram a atender o público.

A morosidade era de cortar a respiração. Quarenta e cinco minutos depois, os funcionários fizeram uma pausa para o almoço. O almoço perdurou quase duas horas. Voltaram ao trabalho quando faltavam trinta minutos para o fim do expediente. Assistia novamente aos mesmos passos de caracol. Finalmente, chegara a minha vez. Olhou-me como uma criatura minúscula, espreitou languidamente para o relógio apoiado na parede e disse: – Fim de expediente! Olha para as horas. – Por favor, ajude-me! Estou aqui desde às 10 horas – supliquei. – E onde está o problema nisso? Eu estou aqui desde às sete da manhã, o senhor não tem pena de mim? – perguntou-me com a cara mais deslavada do mundo.

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