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Uma vida desesperada

Uma vida desesperada

Reza um adágio popular que “a esperança é última coisa a morrer”. Porém, este não encaixa na mísera e desesperada vida de Zacarias Banze, de 98 anos de idade, que padece de uma doença ainda não diagnosticada. Nunca foi ao hospital porque não existe nenhum no seu bairro.

Zacarias Banze reside na povoação de Ka Nwamathe, localidade de Gadzene, distrito de Marracuene, província de Maputo. Natural de Inhambane, nasceu no longínquo ano de 1914 e há sensivelmente cinco anos que tem uma infecção no seu órgão genital.

O ancião, que em tempos foi pescador e militar, vive numa zona onde falta de tudo um pouco, inclusive uma unidade sanitária, à qual os moradores poderiam acorrer em caso de doença.

“Eu vivo apenas com a minha esposa, ela também anda doente, sofre de reumatismo. Não consegue andar, só circula dentro do quintal. Nunca fomos ao hospital porque não existe aqui no bairro.

Por mais que houvesse, não conseguiríamos ir até lá, a não ser que aparecessem pessoas de boa vontade para levar-nos”, conta.

A vida deste idoso começou a mudar (diga-se, para o pior) em 2007, quando, naquele ano, teve duas quedas repentinas devido à tensão, que era alta. Ele acredita que possam estar na origem do problema a pobreza e a solidão nas quais ele e a esposa, Amélia Chavanguana, vivem.

Tal como as pessoas fazem nas zonas rurais e, principalmente, onde não há hospitais, Zacarias Banze recorreu à medicina tradicional para tratar a doença, mas em vão pois as recomendações que recebeu eram impossíveis de seguir.

“Fomos pedir ajuda a um médico tradicional que vive no bairro de Chihango. Ele disse-me que as quedas eram resultado da subida da tensão e que, para evitá-las, tinha de repousar e deixar de pensar muito (na vida)”.

Por mais que Zacarias quisesse ou queira evitar pensar nos obstáculos que a vida lhe impõe, tal não seria possível pois ninguém no mundo é capaz de fingir que não está a sofrer.

“Eu sou desempregado, não tenho quem cuide de mim e da minha esposa, os nossos três filhos emigraram para a África do Sul há muito tempo. Eles já se esqueceram de nós, não sei se ainda estão vivos. Há mais de uma década que não falamos com eles e acreditamos que não saibam do sofrimento pelo qual estamos a passar”, afirma.

“Já tive sete mulheres”

Da relação conjugal que Zacarias Banze tem com Amélia Chavanguane há mais 20 anos, nasceram cinco filhos, dos quais dois perderam a vida vítimas de doença. Segundo revelam, os dois filhos, já falecidos, é que prestavam quase todo o tipo de assistência, sobretudo a alimentação e cuidados de saúde. Ou seja, Deus levou os melhores.

“Os que ficaram nem parecem nossos filhos, pouco ou nada têm a ver connosco, não querem saber do meu estado de saúde, muito menos do da mãe. Eles preocupam-se apenas com as suas vidas e esquecem-se de quem os trouxe a este mundo”, lamenta.

O nosso interlocutor confidenciou-nos que já teve várias relações extra-conjugais no passado, algumas das quais resultaram em filhos, embora não saiba quantos. “Não sei ao certo quantos filhos tenho, mas devem ser mais de dez”.

Zacarias não esconde a sua paixão pelas mulheres e diz que já se envolveu com mais de sete. “Houve tempos em que eu tinha mais de duas esposas em casa. Fazia de tudo para que elas convivessem sem problemas e conseguia. O pouco que eu conseguia repartia entre elas”.

Porém, descarta a possibilidade de as infecções que tem no seu órgão genital serem por causa das Doenças de Transmissão Sexual (DTS’s). Enquanto falava, destapava, sem preconceitos ou tabus, a capulana para mostrar-nos as (profundas) feridas que não param de doer.

De piloto marítimo a pescador artesanal

Zacarias Banze é piloto marítimo de profissão, uma actividade que abraçou pouco depois da independência nacional. Em 1980, decide dedicar- -se também à pesca artesanal como forma de melhorar a renda familiar. “Nos dias de folga, ia à pesca. Os mariscos não eram só para a alimentação, uma parte era destinada à venda. Aliás, foi vendendo mariscos que eu consegui lobolar (casamento tradicional) a minha esposa, com quem vivo há mais de 20 anos”.

Um casal que vive na miséria

Amélia Chavanguane, de quem Zacarias Banze tanto se orgulha, tem 92 anos de idade e tem sofrido ataques cardíacos, os quais lhe deixam inconsciente ou inanimada por algumas horas.

A última vez que caiu, ficou estatelada no chão por mais de duas horas no quintal. “Estávamos debaixo da mangueira, eu e o meu marido. Fazia muito calor. Já não me lembro dos detalhes, só sei que caí e não tive quem me socorresse. Ele (referindo-se ao marido) está doente e não podia ajudar-me, senão contemplar o sofrimento”. A debilidade física de Zacarias Banze revelou-se maior que a vontade de socorrer a esposa que ficou a tarde toda inconsciente e, pior, no chão.

Falta de transporte

Mais do que não haver unidades sanitárias nas povoações da localidade de Gadzene, as quais poderiam beneficiar a população, a falta de transporte para permitir a ligação entre as povoações ou com outras partes da província de Maputo afigura-se um problema sem um fim à vista.

Os escassos autocarros do tipo caixa aberta que ligam aquela localidade à cidade de Maputo circulam duas vezes ao dia (de manhã e de tarde) e cobram um valor exorbitante: 50 meticais por passageiro, o que não condiz com as condições de vida e capacidade dos moradores daquela zona.

Por mais que o casal Zacarias e Amélia quisesse ir ao hospital para receber tratamento médico, enfrentaria dois obstáculos: a falta de transporte e de dinheiro para fazer face à alta tarifa praticada pelos “chapeiros”. Aí vem à memória os cuidados que recebiam dos filhos, ora falecidos.

“Sempre que os nossos filhos nos levassem ao hospital, alugavam uma viatura particular. Mas quis o destino que eles partissem cedo e, infelizmente, antes de nós. Se eles ainda estivessem vivos não estaríamos a passar por esta situação”, lamentam.

Fora a falta de assistência, este casal tem de fazer o esforço de manter a casa (de construção precária e já degradada) limpa. A única pessoa que lhes tem ajudado nessa tarefa é uma vizinha, de nome Isabel, que só aparece no período da manhã.

“Ela faz a limpeza, serve-nos água para o banho e prepara o mata-bicho. Não podemos reclamar, ela tem de cuidar da sua casa também. O pouco que faz por nós é muito”.

Quando ela (a vizinha) se vai embora, anuncia-se o sofrimento. O casal fica entregue à sua sorte. Durante a noite, Zacarias e Amélia não têm quem olhe por eles. Se algo acontecer, ninguém estará junto deles a fim de os socorrer. Só Deus, em quem eles depositam muita fé, é que pode tomar conta da situação.

Para o casal, torna-se mais triste o facto de, mesmo tendo familiares, e até netos, nenhum deles os vem visitar. “Nós temos muitos familiares, alguns dos quais a viverem bem, mas nenhum deles olha por nós”.

A promessa de …chegar aos 100 anos

Apesar de estarem doentes, Zacarias Banze, de 98 anos de idade, e a sua esposa, Amélia Chavanguana, de 92 anos, acreditam que chegarão aos 100 anos. “O nosso sonho é completarmos os 100 anos de idade. Essa seria a nossa maior alegria. A cada dia que passa, nós rezamos para que isso aconteça.

Para alcançar esse objectivo, os dois dizem contar com a bênção de Deus, em quem acreditam. “Nós somos católicos. Quando ainda gozávamos de boa saúde, íamos sempre à igreja. Hoje, só vamos ao núcleo da zona. A igreja dista mais de cinco quilómetros e nós não estamos em condições de nos deslocarmos até lá

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