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Uma vida dedicada à pirataria

Enquanto a indústria discográfica oficial não explora a praça musical da cidade de Nampula, Júlio Sampaio, um jovem moçambicano, desesperado devido à falta de trabalho, pratica a contrafacção de trabalhos discográfico, a pirataria, um mal contra o qual os artistas moçambicanos, incluindo o Governo, não conseguem combater.

Júlio Sampaio, jovem de 20 anos de idade, natural do distrito de Eráti-Namapa, província de Nampula, reside na capital da cidade homónima, onde procura dar prosseguimento à sua formação académica no nível médio. É órfão de pai desde os dois anos.

Presentemente, a sua mãe não consegue ajudá-lo nas despesas escolares. Em Nampula, Sampaio reside na casa de um amigo de infância a quem tem apoiado em algumas despesas.

Desde pequeno, o jovem tem lutado com os seus próprios meios para garantir a sobrevivência. Na cidade de Nampula – local onde, antes de abandonar Eráti-Namapa, pensava que a vida era fácil – descobriu o contrário. A situação piora porque não há emprego.

Em entrevista concedida ao @Verdade Sampaio afirmou que no ano de 2011 começa a trabalhar numa barbearia como servente.

O seu objectivo era aprender aquele ofício e esmerar- se de modo que, mais adiante, pudesse implantar o seu negócio. Para o jovem, a experiência foi muito dura porque não foi fácil conciliar a actividade de barbeiro com a vida académica, havendo vezes, inclusive, em que se sentiu obrigado a faltar a algumas aulas a fim de trabalhar.

De acordo com o jovem que vê na prática da pirataria o seu modo de via, “o meu aproveitamento pedagógico não foi satisfatório no ano lectivo de 2012.

Fui excluído nos exames finais da 12ª classe”, disse ao mesmo tempo que lamenta a atitude de determinados professores que, conotando-o com um homem abastado, condicionaram a sua passagem. “Não consegui oferecer-lhes dinheiro, embora eles pensassem que tivesse maior poder financeiro que outros colegas na turma”.

Foi nesse sentido que Júlio Sampaio começou a traçar planos para ganhar dinheiro, sem deixar de ir à escola. Deslocou-se à cidade de Nampula com o objectivo de instalar um estúdio de gravação musical.

Na ocasião, o jovem possuía mais de sete mil meticais. Com quatro mil comprou um computador portátil, com mil e cem meticais comprou um rádio, entre outros dispositivos afins da área de computação. No entanto, o dinheiro que tinha foi insuficiente para a aquisição de todos os materiais necessários à concretização do seu projecto. De qualquer forma, dava para começar a lutar contra o desemprego.

E a demanda?

No que diz respeito à procura dos seus serviços – por parte dos cidadãos – Júlio Sampaio considera que está satisfeito. Aliás, uma das estratégias por si criadas é a rapidez no processo de atendimento para que nenhum cliente lhe possa escapar, visto que nas redondezas da cidade de Nampula há muitos trabalhadores na mesma área.

Ou seja, muito jovens realizam o negócio da pirataria musical. Sabe-se, porém, que por cada música que introduz nos flashs, cartões de memória, Sampaio cobra um valor de cinco meticais, mas os discos comprados nas lojas vende-os a dez meticais. Trinta meticais é quanto custam depois de inserir músicas ou filmes de artistas de nacionalidades diversas, incluindo moçambicanos, particularmente os da província de Nampula.

Ao que tudo indica, com o dinheiro do negócio que pratica, neste ano, as condições estão criadas para que o jovem possa concluir a 12ª classe. Por exemplo, revelou que a receita diária oscila entre 200 a 300 meticais, dependendo da clientela e do tipo de solicitações.

As pessoas gostam de músicas de cantores locais como, por exemplo, Mr. Ama, Professor Lay, Reflex-Bigodão, Dama Ija, Mamo, Janeiro, entre outros, cujo tipo de música lhes alegra. É a partir das obras destes criadores que Júlio Sampaio desenvolve o seu negócio.

Em Nampula a pirataria musical é uma prática que está em franco crescimento, tanto é que Júlio Sampaio, sempre que quiser actualizar o seu reportório musical, recorre aos seus colegas que – a nível de outros bairros da cidade – desenvolvem a actividade.

Sim! É crime. E daí?

Quando questionado sobre se tinha consciência de que a sua actividade era criminosa, Júlio Sampaio respondeu-nos nos seguintes termos: “Sim! Mas isso não deve ser visto como um mal para os cantores, os proprietários dos estúdios, incluindo os promotores dos espectáculos que sobrevivem da cultura, pois a população prefere comprar discos em vez de assistir aos shows”.

Num outro desenvolvimento, revelou que a venda de discos piratas está a ajudar muitas famílias a sobreviver. Até porque num cenário de falta de emprego – como o que se verifica em Nampula –, na sua visão, as pessoas não devem cruzar os braços e ficar apenas a lamentar sobre a precariedade das suas vidas.

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