Para continuarmos  a fazer jornalismo independente dos políticos e da vontade dos anunciantes o @Verdade passou a ter um preço.

Uma terapia social que se chama Riso!

Uma terapia social que se chama Riso!

Estranhamente, os moçambicanos são um povo que se ri das (próprias) desgraças. No entanto, ainda que, muitas vezes, incapazes de os inviabilizar, eles têm a consciência dos estorvos que refreiam o seu desenvolvimento social. Servindo um Cocktail de Humor, muito recentemente, o Improriso contribuiu para que, em Moçambique, o humor nos sirva de terapia social…

De há alguns tempos para cá, o autor destas linhas tem-se apercebido de que a pretensa vontade de alguns urbanistas de ver determinadas transformações a operarem- se no espaço social em que habitam, por parte de quem de direito, tem levado a que os seus comentários em relação ao meio que lhes rodeia sejam, invariavelmente, pessimistas.

Para si, são os sistemas de ensino e educação que falham; o de transportes e comunicações suburbano que se mostra deficiente, sobretudo na nostálgica cidade das acácias; a corrupção, em todos os níveis e sectores, é glorificada; o acentuado índice de desemprego que acarreta proporcionais (ou mais pronunciadas) cifras de prostituição, criminalidade, mendicidade urbana; são os problemas de habitação que desnorteiam algumas famílias; é a disfunção do programa de saneamento e salubridade do meio que desacredita as estruturas municipais, por exemplo.

Refira-se que, apesar de em certa dimensão possuir alguma verdade, muitas vezes, esta visão tem movido muitos cidadãos moçambicanos a sobrevalorizar a forma como se vive no estrangeiro.

De uma ou de outra forma, se em tudo isso houver um pingo de falsidade, o autor destas linhas (alguém comprometido com a verdade) não é o único responsável.

A responsabilidade deverá ser cobrada, primeiro, à sociedade que (na forma como se comporta diariamente) denuncia o referido estado habitual da situação. Em segundo lugar artistas que, aproveitando-se das referidas acções de manifestação espontânea da vida social, ganham inspiração para produzir a sua arte.

E, por fim, ao repórter sociocultural que, pela natureza da sua actividade, tem a nobre missão de analisar os acontecimentos e reportar sobre os mesmos como forma de, uma vez retornados à sociedade de onde foram colhidos, realimentar um ciclo vicioso que é a produção cultural da humanidade.

No fim-de-semana passado (Sexta-feira e Sábado), o Improriso – Stand up Comedy, um programa de humor ao vivo levou as suas actividades – que acontecem há um bom par de meses em Maputo – ao extremo. Neste sentido, convidou alguns dos maiores actores que o País da Marrabenta produziu no século XX, colocando-os no mesmo palco.

Trata-se de Mário Mabjaia, Adelino Branquinho, Gilberto Mendes, Ring Ring (o homem das 1001 vozes), Mito Munguambe, incluindo alguns jovens que, ainda que sejam seus contemporâneos, preferimos chamá-los actores da nova geração. Entre eles destacam-se Edy, Bruno e Anderson.

Cidadãos moçambicanos (e não só) idos de diversas partes da capital e que, em certo sentido e grau, se ressentem dos problemas de que falámos (incluindo o impacto do crescimento da nossa sociedade, afinal, existe alguma evolução) acorreram ao Cine Teatro Gilberto Mendes para assistir ao evento.

É interessante notar a forma como a iniciativa é bem acolhida pelo público, mas o outro aspecto salutar que se pôde notar é que, apesar de o show ser essencialmente vocacionado para (de forma profissional) instigar quem o demanda a divertir-se (ou seja a rir-se, inclusive das suas desgraças), com base, não raras vezes, na sátira que se faz ao comportamento de algumas figuras públicas sempre que for desviado e, consequentemente, socialmente desviante para as pessoas que encontram naquelas alguma referência, o Stand up Comedy contribui para a educação das pessoas, promovendo nelas alguma reflexão em volta das incidências que ocorrem na sociedade.

Como o estimado leitor deve ter-se apercebido, até agora, a nossa abordagem não incidiu essencialmente na análise do que aconteceu no último fim-de-semana no programa promovido pela Improriso.

Duas razões fundamentais podem explicar esta opção, em certa medida, metódica para o tratamento que o assunto tem neste artigo. Primeiro, é que se está diante do primeiro texto que, nestas páginas, se escreve acerca do tema tornando-se, em resultado disso, importante alguma contextualização.

Portanto, terminada a contextualização, nada melhor que apresentar pelo menos alguns tópicos, na verdade problemas, satirizados pelos actores moçambicanos.

Mito Munguambe

De há uns tempos para cá, o conceituado humorista e apresentador de televisão moçambicano, Mito Munguambe, tem andado desaparecido da lides da televisão. Para si, o negócio televisivo é dispendioso. É por essa razão que, pouco antes de se apresentar no palco para realizar o seu show, o artista não gostou da apresentação que foi feita a seu respeito.

“Nos últimos dois anos o público tem-me visto na televisão?”, questiona acrescentando que “presentemente, tenho trabalhado em projectos que me dão muito dinheiro como, por exemplo, os que envolvem a participação de personalidades como presidentes, a todos os níveis, o que se pode perceber na medida em que recentemente me tenho apresentado com uma roupa formal, algo que não acontecia no tempo em que eu trabalhava na televisão”.

A par do mesmo assunto, Mito Munguambe explicou que no dia em que nos falava, esteve reunido com o presidente do Município da Matola, Arão Nhancale.

“Estamos a restruturar alguns aspectos da cidade, sobretudo em relação ao bairro de Khongolote onde eu resido, há quatros anos, desde que engravidei. Como sabem, na nossa sociedade, os rapazes quando engravidam as suas namoradas são expulsos de casa pelo pai”.

Em resultado disso, “transferi- -me para o bairro de Khongolote onde, graças a Deus, tenho um cargo de grande destaque social. Sou chefe de quarteirão. Isso vale-me estar constantemente com o presidente Nhancale, com quem, a nível da nossa Assembleia Municipal, discuto os problemas do meu bairro”.

Porque os munícipes da Matola, alguns dos quais presentes no show, têm reclamado muito quanto à inexistência de estradas em relação à acentuada degradação das poucas vias edificadas no século passado, o artista aproveitou a ocasião para informar aos cidadãos de que “para resolver o problema em alusão, neste momento, não temos dinheiro. É urgente que os munícipes se conformem com a realidade ou que se mudem para a cidade”.

Chocolate nhancalense

Enquanto isso, desengane-se quem pensa que a cidade da Matola é apenas um complexo de problemas. Aquela urbe é um parque industrial. É nela que se produzem inúmeros produtos (sobretudos as guloseimas) que são fornecidos ao mercado da cidade de Maputo.

De qualquer modo, antes de mais, vale a pena recordar-se de que no bairro de Khongolote, “nós iniciámos obras de construção de uma estrada. As mesmas foram interrompidas há muitos anos. Em resultado disso, quem vive na referida periferia não consegue chegar à cidade de Maputo com facilidade”.

Num encontro mantido com o presidente do município, “decidimos misturar a lama que se forma, sempre que chove, com um pouco de sal e açúcar para produzir um chocolate. Sabe-se que Matola é um parque industrial. Então, em homenagem ao presidente do pelouro, sobre quem não sabemos se será substituído no próximo ano, produzimos um chocolate nhancalense”, diz arrancando as gargalhadas do público.

Piscina Municipal

Uma outra figura que se fez troças por Mito Munguambe é o conceituado actor moçambicano Gilberto Mendes, o presidente da Federação Moçambicana de Natação.

Para Munguambe, Gilberto Mendes é uma figura muito sortuda, o que se pode compreender pelo simples facto de simultaneamente o presidente das seguintes instituições: “Teatro Gilberto Mendes, Federação Moçambicana de Natação, presidente da (recém-surgida) Gungu Televisão”. No entanto, porque em relação à segunda organização, o presidente tem reclamado sobre a suposta falta de apoio nos seguintes termos:

“Eu trabalhei no sentido de influenciar o Município de Maputo para apoiá-lo em termos de construção de (novas) piscinas na capital do país. Conforme se sabe, só temos duas, nomeadamente a piscina de Maxaquene e a Olímpica, anexa ao Estado Nacional de Zimpeto”.

Em resultado disso, “os atletas que se dedicam à natação têm tido um mau desempenho. Para apoiar o presidente da Federação Moçambicana de Natação, o município de Maputo decidiu não tapar os buracos que existem nas estradas”.

Isso significa que sempre que chover, “os atletas que praticam a natação passarão a treinar nos natatórios que se formam na cidade. E mais, de hoje em diante, todo o orifício que os cidadãos virem nas estradas tem nome: Piscina Municipal”.

Mais importante ainda é que qualquer munícipe, mesmo que não se dedique à natação, pode explorar as referidas infra-estruturas livremente. Com este plano, as reclamações de Gilberto Mendes em relação à suposta falta de apoio à modalidade que dirige encontram um fim.

“Todos esses planos (e que planos?) têm a ver comigo, Mito Munguambe. Eu é que tenho dado novas ideias aos presidentes dos municípios”, diz visivelmente orgulhoso.

OMMM

Perante os problemas domésticos que confundem as famílias moçambicanas, mormente a violência entre os cônjuges, não haveria melhor proposta para (no mínimo) suavizá-los, a favor da integridade física e moral dos homens, do que a criação de uma nova organização.

Neste sentido, “eu penso que os homens se devem dar-se por felizardos porque o seu problema, em relação à violência doméstica protagonizada contra si pela mulher, já foi resolvido”.

Até porque, “o que mais me preocupava antes é que, em Moçambique, as mulheres têm várias estruturas e dispositivos feministas para garantirem a sua defesa, o que já não se podia afirmar em relação aos homens. A Organização da Mulher Moçambicana (OMM), a Associação Mulher Lei e Desenvolvimento (AMULEIDE), a Lei da Violência Doméstica Contra a Mulher e a Criança são alguns exemplos”, considera.

Em face disso, “sempre que os homens são agredidos pelas esposas e (re)metem a queixa na Esquadra (primeiro) são troçados pela Polícia, ao mesmo tempo que lhes questionam sobre os porquês de não terem agredido a mulher, quando se sabe que se ele agisse assim ia, imediatamente, preso”.

Diante desta realidade, Mito Munguambe diz que “me reuni com o Conselho de Ministros para discutir a necessidade de se acrescentar mais um M, nos dois que compõem a sigla da Organização da Mulher Moçambicana (OMM).

Isso significa que, em Moçambique, foi criada mais uma instituição do género. Trata-se da Organização dos Maridos Maltratados pelas Mulheres (OMMM)”. Este organismo está ao serviço da defesa dos homens.

Portanto, “está dado o fim das reclamações dos homens em relação às mulheres no país. Nós também temos onde queixar”, considera.

Share on facebook
Facebook
Share on google
Google+
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn
Share on pinterest
Pinterest

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

Related Posts

error: Content is protected !!