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Mukwarura (re)forma prostitutas!

Mukwarura (re)forma prostitutas!

Maputo pode ter sido a terra que o viu nascer. No entanto, o seu pendor para a escrita desabrochou em Niassa, a mesma província de que é originário o mítico e tradicional músico moçambicano Matchioguezi, onde se deixou moldar pelas exigências do jornalismo até tornar-se escriba. Para si, a literatura é uma forma de fecundar a vida. No seu primeiro livro, Francelin Wilson propõe-se reformar a prostituta.

“Venho da Rua 507. Da rua da minha juventude perdida. Da rua da minha virgindade desflorada. Da rua que vos pariu, fardos da vida que não mais tenho (…). Agarro nas três lágrimas que chuviscam sobre o meu semblante para que não caiam (…). Qualquer dia vocês precipitarão meu enterro, já que a vida há muito perdemos, e hoje apenas deambulamos pelos ares que sorvemos desta terra desconhecida” (sic).

Assim introduz a sua obra Francelin Wilson que também se chama Mukwarura, identidade que usa para assinar a sua obra. Trata-se de uma escrita cortante que o autor propõe na obra Nykonkwe a Reforma da Prostituta. A mesma foi publicada no ano 2010 sob a chancela da Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO). Um instrumento de comunicação que é, a Reforma da Prostituta reporta as várias dimensões da realidade feminina, com particular enfoque para a prostituição.

De qualquer modo, que leituras Mukwarura fez para chegar ao estágio de convulsão criativa, abolindo a boa imagem que se tem sobre a mulher, como forma de revelar algumas verdades sobre a prostituição?

Pelo que soubemos do próprio autor, as obras de Paulina Chiziane – que, em certo sentido, o transportam para o complexo mundo da realidade feminina – é que o instigaram a realizar a sua (…) Reforma da Prostituta.

Ou seja, envolvido nas obras de Chiziane, as quais chama feministas, Francelin decidiu retratar a vivência das mulheres, mas desta vez, fazendo, no seu entender, de forma diferente à feita por Paulina: “para falar das trabalhadoras de sexo, as prostitutas”.

É como se diz na gíria popular, nada vem por acaso. Na vida tudo tem um princípio. Em relação ao nosso interlocutor, o primeiro passo para se tornar no escritor que é deveu- -se ao reconhecimento da própria vulnerabilidade.

“Sempre achava-me incapaz de escrever”, comenta ao mesmo tempo que engendra um argumento: “aprendi a ler tardiamente. Na altura frequentava a 4ª classe do ensino primário. Quando dei conta de que já sabia ler – além de me surpreender pela positiva com a sensação de poder aceder a diversas informações – passei a ter mais afinidade com a leitura, lendo tudo o que se me apresentava sob a forma gráfica”.

Mais adiante, “criei a abelhudice, na verdade um desafio, de ler integralmente algumas obras. Na ocasião, algumas bibliotecas da cidade de Lichinga, com destaque para a do município, foram-me muito úteis. É que foi nesta última que eu e um grupo de amigos criámos o hábito de fazer a rotação de livros. Depois de ter lido debatíamos sobre o conteúdo das obras. Em seguida, produzíamos artigos que eram publicados num jornal de parede afixado na biblioteca e na Escola Secundária de Lichinga”.

Desse modo, para o jovem escritor, estavam criadas as bases para sustentar o vício da escrita. Considera que foi como se tivesse ingerido um veneno cujo efeito era a necessidade de entranhar cada vez mais o gosto pela escrita.

Nem a devoção com que os seus companheiros se dedicavam à música desviou o nosso interlocutor da arte da escrita. Aliás, para o efeito, a queda que possuía em relação à poesia foi determinante: “a partir do dia em que escrevi o (meu) primeiro poema, não consegui parar de escrever. A escrita é um vício que me persegue até aos dias actuais”.

Em resultado da referida inclinação em relação à escrita, Francelin Wilson viu-se impelido a envolver-se, cada vez mais, no mundo das letras. O resultado disso é que o jovem escritor tem publicado as suas criações literárias em algumas antologias, com particular destaque para a obra Jóia Niassa – Metáforas do Ventre. No entanto, nem com os referidos feitos o escriba deixa de endereçar a sua reclamação às entidades de direito. “É muito difícil publicar livros em Moçambique”.

Venerar Chiziane

É indubitável que, no seio do movimento literário nacional e não só, a escritora moçambicana Paulina Chiziane é uma referência que se impõe perante os amantes da arte de escrever. A escriba é considerada, com verdade, a primeira romancista que o país possui, apesar de que Chiziane, humildemente, recusa tal estatuto.

Ademais, esta escritora é considerada (pela crítica da área) como uma figura que dinamiza o movimento feminista literário, o que, invariavelmente, a artista não tem aceitado: “só porque sou mulher e falo sobre as mulheres, sou feminista?”, assim contestava Paulina em entrevista cedida ao site literário Madeira e Zinco.

Em certo grau, o que se pretende explicar é que quem fala de Paulina Chiziane, além de estar a referir-se a uma diva da literatura moçambicana, retrata igualmente uma personagem que realiza um trabalho artístico com um alcance grandíloquo e que, apesar de lhe valer uma série rótulos, muitas vezes, tem-nos recusado.

Um aspecto interessante é que é essa personalidade de Paulina, aliada às suas obras que, grosso modo, além da (grande) admiração que possui por ela, instigou o nosso interlocutor a gerar a sua literatura.

“Escrevi o meu livro em resposta à provocação de Paulina Chiziane, sobretudo porque depois de ler grande parte da sua colecção de livros, achei que havia um campo fértil para produzir textos (sobre a vida das mulheres) que ela não explorava. Penso que ela deve ter algum receio de abordar a figura da mulher, por exemplo, no aspecto que concerne à prostituição”, comenta Mukwarura.

Ou seja, “Paulina fala da mulher como um exemplo e como vítima da violência doméstica, mas ainda não desenvolveu a face a que me referi. Por isso, escrevi (…) a Reforma da Prostituta em jeito de reacção às suas abordagens feministas. Em tudo isso, pretendo afirmar que ela é uma das escritoras que eu admiro e que me inspira”, explica.

Uma prostituta (re)formada

Para quem lê a obra “Ninkokwe a Reforma da Prostituta”, de autoria de Francelin Wilson, entre outros cenários narrados acerca da prostituição, poderá encontrar muita miséria, desgraça, frustração e lamúrias. O lado macabro da vida que uma mulher – enganada pela máxima de que a prostituição é a profissão original e mais antiga da humanidade – enfrenta, muito em particular, quando é mãe de dois filhos, Tonico e Lília, de pais foragidos.

Uma questão que se nos impõe (re)formular é se, de facto, a prostituição será uma (melhor) estratégia para que uma mulher – com voz e rosto, mas sem nome como acontece no conto em apreço – possa garantir a subsistência a sua família gerada na lamúria em que vive?

Se não conseguirmos responder a essa pergunta – pela pertinência que existe em relação à necessidade de o estimado leitor descobrir na leitura que fizer à obra –, no mínimo, podemos afirmar que a nossa pergunta tem o mérito de, em certo grau, descrever a protagonista (…) de a Reforma da Prostituta.

Uma personagem que alcança a reforma da sua actividade laboral depois de conseguir uma mala cheia de dinheiro arrancada de um cliente numa noite de volúpia. Mais adiante, a meretriz parte para longe e constrói o seu novo mundo na vida milionária que sempre desenhou na sua imaginação.

Comentando sobre alguns traços da figura principal do seu texto, o autor considera que as prostitutas argumentam que enveredam pelo meretrício devido à pobreza – daí que se vêm impelidas a praticar tal actividade como outra metáfora – que lhes auxilia a combatê-la.

“Uma prostituta para mim é uma lição para a vida, porque é alguém que garante a própria sobrevivência empregando os meios que possui”, considera Mukwarura a quem perguntámos se tal prática era uma maneira digna de ganhar dinheiro.

“Se é (in)digno, ético, (i)moral, penso que é outro debate, mas eu encaro a prostituição como uma profissão opcional para muitas pessoas a quem garante viver”.

O facto é que, segundo Mukwarura, “de dia todos nós camuflamo-nos, mas de noite passamos pela Avenida 24 de Julho, ou pela Rua do Bagamoyo ou Araújo, em Maputo, por exemplo, onde se pratica a prostituição”. Então, “porque não institucionalizar a actividade de modo que possamos beneficiar dessa prática de um modo mais aberto?”.

Igualmente, Francelin Wilson que assumiu perante @Verdade ter ido ao encontro de prostitutas, como forma de falar do tópico prostituição com alguma propriedade (como o faz no seu livro). Revelou que a sua inspiração brotou das leituras feitas às obras do escritor colombiano Gabriel Garcia Marquéz, com particular destaque para a obra “Memória de Minhas Putas Tristes”.

Aliás, Francelin revolta-se com o título do autor colombiano considerando-o “um pouco contundente”, para num outro desenvolvimento justificar o seu propósito ao escrever “Ninkokwe a Reforma da Prostituta” nos seguintes moldes: “Não quis fazer uma reflexão sobre as minhas putas tristes ou alegres, mas quis narrar sobre a vida de um personagem que acho que andou comigo durante muito tempo. E eu quis livrar- -me desse personagem oferecendo-o aos leitores”.

Uma morte depois do sexo

O estimado leitor já se imaginou numa situação em que um acto sexual fosse a condição para a sua posterior morte? E se a referida situação fosse factual, será que o leitor manteria relações sexuais? E se o seu parceiro sexual tivesse a infecção do vírus do HIV/SIDA?

O facto é que, diariamente, milhares de cidadãos se debatem com tais situações, mas, infelizmente, pouco reflectem em volta das mesmas antes de partir para a acção. Muitos deles acabam por contrair diversas complicações de saúde. Da mesma forma, outros encontram a morte.

O que se pretende explicar é em que sentido Ninkokwe – devido às suas características em relação à vida sexual – fecundou alguma inspiração para a geração de a Reforma da Prostituta, obra da autoria do nosso interlocutor.

Mas, nada melhor que perceber-se a explicação do autor quando afirma que “Ninkokwe é um animal da espécie das ratazanas. Digamos que é um rato, mas com uma particularidade: o macho, após a sua primeira relação sexual, morre.

Ou seja, ele nasce, vive, cresce, mas no dia em que se relaciona sexualmente com uma fêmea (positivamente) encontra a morte. É essa a história que eu aprendi do referido bicho, tendo sido por essa razão que decidi escrevê-la como um exemplo para que possamos reflectir sobre a nossa vida sexual”.

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