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Uma serpente multicolor em cena!

Uma serpente multicolor em cena!

Metafórico no discurso, realista e imprevisível, Salimo Muhamed movimenta uma legião de admiradores do mundo da música. Nos próximos tempos, os conceitos para os seus (grandes) concertos serão definidos pelo público que os demanda. No entanto, se a prática for uma estratégia de marketing, então, tem tudo para ser bem-sucedida.

No dia em que, pela primeira vez, lhe solicitámos que nos cedesse uma entrevista, Salimo Muhamed não tinha a mínima ideia de quem éramos.

“Por essa razão, o artista podia-se ter recusado: a final, os músicos do seu naipe merecem repórteres (bem equipados e) com um percurso pro fissional pronunciado, o que nós, recém- formados no jornalismo, na altura não tínhamos”. Foi essa a cogitação que, imediatamente, nos percorreu a mente.

De qualquer modo, enfrentámos o desa fio e, em certo sentido, fomos bem-sucedidos. Arrancámos inclusive uma informação que o artista não costuma revelar, a sua data de aniversário, o dia 13 de Agosto. Salimo é uma pessoa muito humana, mas falar sobre si, acerca das suas criações artísticas nem é sempre fácil.

É por essa razão que, havendo necessidade, muito recentemente, solicitámos o ponto de vista de um actor incontornável na cena das artes moçambicanas, Ouri Pota Chapata Pacatamutondo, em relação a uma possível descrição psicológica da figura de Simião Mazuze, como (também) podemos chamar. A opção não foi simplesmente metódica. É que não tínhamos inspiração para desenvolver um (possível) artigo sobre o artista.

Facto, porém, é que “por vezes é controverso, mas, no cômputo geral, Salimo Muhamed é um homem de causas firmes. Quando desenha um projecto arrasta-o até às últimas consequências. Efectiva-o!”, comenta Chapatamutondo.

Nyoka Ya Mabalabala

Depois de em 2011 ter promovido um espectáculo, Tima ora, com o intuito de satisfazer a incansável demanda aos seus shows por parte do público , ou seja, para “matar a sua sede musical” nos dias um e dois de Junho, Salimo Muhamed promoveu uma “cobra de muitas cores”, Nyoka Ya Mabalabala, nos palcos do Centro Cultural Franco-Moçambicano, em Maputo.

Quando soubemos do evento, particularmente do tema, não cámos espantados, a final, a prática é rotineira por parte do artista. O assunto ganhou outra interpretação a partir do momento em que se soube de que, desta vez, o tema não foi sugerido pelo artista mas por um admirador: “penso que o jovem, meu admirador, ter-se-á recordado da referida composição numa situação em que estava a viver as peripécias similares às vivenciadas por uma serpente multicolor”, comenta Salimo Muhamed.

Para dar ensejo à transformação que se está a operar na forma como os conceitos, os provérbios, os ditos que dão mote aos seus espectáculos são concebidos, Simião Mazuze considera que “eu já não sugiro os títulos para os meus concertos. Essa tarefa cabe aos meus fãs e admiradores fazê-la”.

Interpretar a metáfora

Dizer Nyoka Ya Mabalabala pode ser uma forma simplista de resumir um composto de situações sociais complexas, o que é natural a final as línguas bantu têm a capacidade de abrigar nos contos e provérbios tradicionais africanos uma série de informações (até certo grau misteriosas) que, uma vez descobertas, dão a impressão de que nós, os cidadãos, reinventamos o sentido da vida.

Provavelmente será por essas razões que se acredita que depois de projectado no espaço social, “o tema irá suscitar um debate produtivo com um impacto positivo nas pessoas. Até porque os cidadãos mais críticos, os analistas socioculturais dedicarão algum tempo para compreender o valor semântico do tema “Cobras de Muitas Cores”.

De uma ou de outra forma, se partirmos do princípio de que Salimo Muhamed possui uma composição musical com o mesmo título, não é menos apropriado questionar o seu ponto de vista sobre o tópico:

“Compus a música entre os anos de 1983 e 86. Na altura havia uma movimentação revolucionária no país, por isso a obra retrata a referida época histórica em que a agitação social marcada por fome, situações de conturbação e de a flição, e de chacinas marcava o dia-a-dia das populações”.

Certo provérbio, “quando dois elefantes lutam quem sofre é o capim, pode ser equiparado ao que se canta na respectiva composição assim como à realidade social do país: anos de fome, de matança e de muitas doenças. Eu penso que apesar de, nos dias que correm, se considerar que a SIDA é uma doença implacável, não se pode comparar com o que sucedeu na década de 1980. Houve doenças letais e mais graves ainda. Sinto que quando a fome, por exemplo, se abate sobre as pessoas ela torna-se uma enfermidade”. O mais agravante é que, de acordo com Salimo, a realidade social em alusão concorreu para a queda da moralidade de muitas pessoas.

“Há 20 anos, por exemplo, era comum ouvirem-se pessoas a empregar termos insultuosos na sua comunicação no espaço público. Agora isso está a ser limado. Penso que para, para o efeito, as igrejas têm feito um trabalho profundo de modo que as vociferações de palavras indecentes reduziram”.

Fui mediador do con flito armado

Durante os anos em que Moçambique foi palco da guerra dos 16 anos que opôs a Frelimo à Renamo, Salimo Muhamed recorda-se de que compôs uma música cujo tema, na língua portuguesa equivale o mesmo a “Precaver-se”, em que propunha às formações beligerantes à necessidade do optarem pela diplomacia para terminar com o con flito.

Em certa ocasião, nos primeiros anos da década de 1980, o conteúdo da composição alimentou debates acesos no Parlamento moçambicano.

Sobre os primeiros anos da criação do programa Ngoma Moçambique, Salimo Mohamed con denciou-nos de que a sua música permaneceu um período de nove meses no topo da tabela classi ficativa do evento. No entanto, o artista lembra-se de que, em certa ocasião, o Presidente Samora Machel em conversa com Alberto Chissano e Marcelino dos Santos escutaram a referida composição.

“O Presidente da República Popular de Moçambique, Samora Machel, ordenou que se desligasse o rádio. Mas o segundo chefe do Estado moçambicano, Alberto Joaquim Chissano, – ficou impressionado com o teor da composição de tal sorte que considerou que Simião Mazuze era um génio da música em Moçambique”, a firma Muhamed.

Acredita-se que no referido ano, como o nosso interlocutor considera, a mesma música foi muito explorada na Rádio Moçambique, mas algum tempo depois nunca mais foi tocada. O regime deve ter ordenado que se coarctasse a sua radiodifusão.

Para o artista, a falha que os líderes políticos cometeram foi travar a referida conversa na presença de agentes de segurança do Estado porque eles, mais adiante, levaram o assunto para o espaço público e, consequentemente, o artista tomou conhecimento do assunto.

Estas e outras razões fizeram com que Salimo desse conta de que nos primeiros anos da formação da nação moçambicana não havia uma compreensão correcta acerca daquilo que era (ou não) segredo de Estado. É que os agentes secretos do Governo se expunham muito na sociedade.

Pior ainda, “os polícias andavam no encalço das pessoas, controlando as suas práticas privadas, como forma de descobrirem a sua filiação político-partidária. A prática fazia com que a sociedade – ficasse apreensiva e, em certo grau, com medo. Um agente secreto de segurança estatal não se deve expor de qualquer maneira, como acontecia no passado fazendo com que eles denunciassem as discussões dos governantes”.

Em tudo isso, o que abespinha o nosso interlocutor é que, na sua visão, tanto a sociedade como o Governo “esqueceram- se de que houve um herói nesse sentido. Eu, apesar de não ter participado na guerra, fui um mediador artístico-cultural para que ela terminasse”, diz lamentando o facto de “os chefes do Estado moçambicano só se terem apercebido tardiamente do impacto da minha música”.

Re fira-se, então, que a música em alusão foi gravada mas não chegou a ser registada num trabalho discográ fico. O mesmo sucede em relação ao tema que serviu de mote para o seu concerto do fim-de-semana passado.

Músicas com histórias e mistérios

Além do espaço social, ao certo não se sabe qual é a fonte de inspiração para a produção musical de Salimo Mohamed. O facto é que algumas das suas composições musicais possuem temas complexos. Tais são os casos de Sambroera Fandanga, Xipixe ni Khondlo, Xinfufununo, e Uma Gota de Água.

A maior parte da sua produção musical não foi publicada. É como o artista diz: “O celeiro da minha produção está cheio de excedente e di ficilmente vaza porque há falta de apoios. Para que a música seja publicada é preciso que haja pessoas que apostem nela”.

Infelizmente, “o que eu sinto é que prevalece um espírito de teimosia nos empresários moçambicanos. Creio que o grito segundo o qual as editoras sabem que a sociedade lamenta o facto de eu não editar novos trabalhos discográ ficos. Mesmo assim, eles são indiferentes. Em resultado disso, quem perde são as pessoas que gostam de escutar a minha música”.

Além do mais, “tenho uma multidão de fãs, admiradores, que são pessoas que apreciam as minha obras. Outros ainda são mais atrevidos, vêm ao meu encontro e revelam-me que gostam da arte que faço”.

Salimo Muhamed, um artista que se expressa através da música, da arte cinematográ fica e das artes plásticas, é uma pessoa grata em relação ao carinho que os seus admiradores expressam. Talvez seja por essa razão que o seu apelo é no sentido de que estes devem prestar uma atenção acrescida às suas composições:

“Elas têm um conteúdo que precisa de ser analisado cuidadosamente porque costumo empregar termos simbólicos, assim como alguns provérbios, o que faz com que certas vezes tais composições não sejam de fácil compreensão”, considera.

E não faltam exemplos: “A música Budula Mpfula Madaka Who Rethemuka – que numa tradição livre pode equivaler ´quem caminha no trilho do gado, onde nos dias chuvosos a terra é lamacenta, corre o risco de escorregar e tombar´ – é muito complexa. Eu nem sei onde é que encontro a inspiração para criar tais obras. Recordo- me de que quando compus a mesma música estava com o falecido Pedro Langa. Foi nessa época em que algumas senhoras descobriram que o leite podia substituir o amendoim para na cozinha”.

O artista que, presentemente, deposita alguma con fiança no novo Regulamento de Espectáculos considera que (actualmente) a música moçambicana podia evoluir imensamente mas há pouca motivação. Mas um aspecto é factual: ela precisa de estímulos, porque a música é um factor essencial na cultura humana.

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