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Uma profissão (in)grata

Uma profissão (in)grata

Entre ser bem visto e sobreviver, um cobrador de “chapa cem” escolhe a segunda opção. O encurtamento de rotas é um corta-mato para a sobrevivência. Os clientes que o digam…

Quatro da manhã, por norma, é a hora em que Paulito se levanta, ao fim de cinco horas de descanso – se é que se pode chamar de descanso. O seu destino é o parque, que dista mais de dois quilómetros, onde o seu colega (entenda-se motorista) deixa o carro ao fim de uma jornada de trabalho. O silêncio da madrugada e o risco de ser abordado pelos “amigos do alheio” não o intimidam. Aliás, ele não tem escolha: ou enfrenta o medo, ou morre à fome pois a vida não lhe oferece(u) outra alternativa.

A sua “profissão” exige que ele faça esse sacrifício. O seu papel é levar trabalhadores e estudantes aos seus postos de trabalho e escolas, respectivamente. Ele é cobrador e faz a rota Baixa-Magoanine. O seu posto de trabalho é um simples autocarro de 29 lugares, lotação determinada pelo fabricante, mas para o cobrador a mesma é inválida. Para ele o que interessa é a receita que, ao fim do dia, tem de entregar ao seu patrão. E para tal, quanto mais pessoas puderem entrar no “chapa” melhor.

Com apenas 23 anos, sete dos quais como cobrador, Paulito deixou de estudar na quarta classe. Conta que foi criado pela mãe pois o pai está na África do Sul há mais de 18 anos, o que a obrigou a redobrar os esforços para poder criar os cinco filhos. “Ia à escola com fome e sempre via a minha mãe a acordar muito cedo para ir vender pão no Terminal de Mercadorias das Mahotas. Decidi entrar para esta vida”, conta.

A única alternativa que encontrou foi ser cobrador, aliás, esta é uma das poucas actividades ou profissões para as quais o indivíduo não precisa de formação ou experiência. Basta saber contar, coisa que todos fazem(os).

O quotidiano de Paulito é idêntico ao de Adriano, de 27 anos, e Xavier, de 28 anos, também cobradores. Adriano trabalha como cobrador desde os 22 anos. Tudo começou quando, depois de concluir a 12ª, não conseguiu ingressar no ensino superior. Tentou procurar emprego, mas debalde.

“No meio de dificuldades, um vizinho meu, que trabalha como motorista, convidava- me aos fins-de-semana para trabalhar com ele e, com o andar do tempo, fui ganhando o hábito e a coragem. É com ele que trabalho até hoje”, diz.

Já a situação de Xavier é diferente. Diz que trabalha como cobrador para custear as despesas relacionadas com a escola. Encontra-se a frequentar o primeiro ano do curso médio de Contabilidade no Instituto Comercial Somimo.

“Posso dizer que não trabalho por necessidade, os meus pais trabalham e conseguem sustentar a família, só não podem pagar as mensalidades da minha escola. Tenho mensalidades por pagar e transporte, estou no curso nocturno. Estou de passagem nesta profissão, o meu sonho é ser contabilista”, conta.

“O nosso comportamento é imposto pelas circunstâncias”

Ele pode ser considerado um homem com dupla personalidade pois a simplicidade e o respeito que o caracterizam no seu bairro (Mavalane) não servem no seu local de trabalho, diga-se, “chapa”. Quanto mais rude e impaciente ele se apresentar, melhor. O seu desejo era que o carro fosse elástico, assim ele levaria o maior número possível de passageiros.

Engane-se quem pensa que o cobrador assim age por mero prazer. Embora não justifi quem o seu comportamento, as obrigações que os transportadores semicolectivos têm perante o seu patronato fazem com que eles não olhem a meios para as cumprir.

Ao fim do dia, eles têm de entregar ao seu patrão uma receita líquida de 2 300,00 Mt (dois mil e trezentos meticais), no caso dos autocarros de 29 lugares e 1 200,00 a 1 400 meticais, para os de 15 lugares. A receita bruta está estimada em 3500 e 2500 para as viaturas de 29 e 15 lugares, respectivamente. Mas a lista de despesas diárias não se fica por aqui.

O carro deve ser entreguecom o tanque de combustível cheio (60 litros para os de 29 lugares e 40 litros para os de 15 lugares). Em relação à alimentação, dizem que os seus patrões só permitem que eles retirem 60 meticais para o almoço. O motorista tem direito a 75 meticais.

Mas eles dão sempre um jeito de contornar essas difi culdades. No caso das refeições, por exemplo, eles dizem que o valor determinado pelo patrão só dá para comprar um prato. “Temos de tomar um refresco, não podemos beber água depois de almoçar. Nós gastamos cerca de 150 meticais para almoçar pois só assim é que podemos ter forças para trabalhar”, dizem.

Ainda na lista das despesas inerentes a esta actividade um elemento despertou a nossa atenção: embora não seja do conhecimento dos proprietários das viaturas, eles têm sempre um valor extra para subornar a polícia no caso de cometerem uma infracção, porém, este valor não pode, de modo algum, afectar a receita porque, caso isso aconteça, o mesmo será descontado do salário. Este montante varia consoante o tipo de viatura, sendo 75 para as de 15 lugares e 150 para as de 29.

Engarrafamentos: uma das causas dos encurtamentos

No rol das dificuldades enfrentadas por esta classe estão os engarrafamentos que, nos últimos tempos, caracterizam a nossa cidade capital, Maputo. Eles são apontados como sendo os responsáveis pelos incumprimentos dos horários de trabalho e, consequentemente, dos resultados.

“Levamos muito tempo nos engarrafamentos e o patrão não quer saber, ele só quer a receita. Isso obriga-nos a encurtar as rotas para podermos compensar o tempo perdido “, contam os nossos interlocutores.

Os encurtamentos são, na sua maioria, praticados por chapas de 15 lugares que, na verdade, levam mais de 20 passageiros. Já para os de 29 lugares, o que vale é levar o maior número de passageiros possível.

Nem a higiene e a integridade física dos seus passageiros os interessam. Chegam a ofender as pessoas que tenham um peso “acima do normal”, chamam-lhes nomes. Nas horas de ponta fazem questão de não os levar nas paragens, por mais que haja espaço. Segundo eles, “este tipo de pessoas ocupa um espaço que podia ser ocupado por duas”.

Trabalhar sem contrato

Segundo dados da Associação dos Transportadores Rodoviários de Maputo (ATROMAP), a cidade de Maputo conta actualmente com 530 viaturas de transporte semi-colectivo, número correspondente ao de cobradores.

A maior parte deles, senão todos, não possui contrato de trabalho por vontade própria, mas há casos de cobradores que não o têm por não saberem que qualquer relação de trabalho deve ser baseada num contrato ou porque o patrão assim o quis. A contratação e/ou demissão é feita oralmente, nada é escrito.

Muitos dizem que não querem contratos porque as possibilidades de mudar de “emprego” são maiores. “É normal aparecer alguém com uma viatura nova e dizer que precisa de um cobrador, e se eu tiver um contrato não poderei aceitar. A falta de contrato torna flexível a nossa desvinculação. Posso ligar e dizer ao meu patrão que já não quero trabalhar”, justifica um dos cobradores por nós entrevistado.

A ausência de um contrato pressupõe a inexistência de garantias de assistência médica e medicamentosa no caso de doença ou acidente de trabalho. Em relação a esse aspecto, o presidente da ATROMAP, Samuel Nhatitima, diz que, em caso de doenças, eles são substituídos e o seu salário não sofre nenhum desconto. “Muitas vezes é o próprio cobrador a dizer ao patrão que está doente e que vai mandar o seu primo ou amigo para o substituir”, afirma.

Se para os cobradores e para a associação os contratos não são um elemento importante na sua profi ssão, o mesmo não se pode dizer em relação ao Instituto Nacional de Segurança Social, Inspecção Geral do Trabalho e ao Ministério das Finanças, entidade responsável pela colecta de impostos.

Quantos meticais deixam de ser canalizados aos cofres do Estado devido à inexistência de contratos de trabalho? O que acontece, por exemplo, à família de um cobrador que perca a vida durante a vigência do “contrato oral”? Será que pode recorrer ao INSS para ter direito ao subsídio de funeral, será que o patrão tem a obrigação de pagar algum valor? São questões que ficam no ar.

Um salário desproporcional ao seu esforço

Quem vê o cobrador a contar dinheiro pode pensar que ele recebe um bom salário no final de cada mês. Puro engano. O cobrador é um simples intermediário entre o passageiro e o seu patrão.

A jornada laboral é de 11 horas por dia, três horas acima do permitido por lei. Eles trabalham das seis às vinte, com um intervalo de três horas (das 12 às 15), para receber no, fim do mês, 2 000 e 2 250 meticais para quem trabalha numa viatura de 15 e 29 lugares, respectivamente. Os motoristas ganham entre 3000 e 3500 meticais. No meio da classe (trabalhadores e motoristas) há quem ganhe menos e há quem renda mais, tudo depende do patrão.

O horário acima referenciado foi estabelecido pelos transportadores, mas é constantemente violado devido à realidade no terreno. Segundo eles, dizer que o cobrador e o motorista devem descansar três horas é uma ilusão. “Nós só paramos, no máximo, uma hora para podermos almoçar. Se parássemos três horas o patrão não teria a receita no fim do dia”, dizem.

Porém, no caso dos motoristas, esta situação – de trabalhar acima das oito horas e, pior, sem descanso – coloca em risco a segurança dos passageiros pois pode-se dizer que eles não dormem, o que provoca a fadiga, tida como uma das causas dos acidentes de viação no país e no mundo.

Por seu turno, o presidente da ATROMAP diz que é possível descansar três horas e ter a receita no fim do dia. “Não descansam porque querem fazer uma receita extra para eles (cobrador e motorista). Eles começam a trabalhar antes das seis (horário de entrada) e vão para além das 20 (hora de saída) ”, considera.

“Nada justifica a indisciplina e a falta de respeito dos cobradores”

O argumento de que o engarrafamento e as obrigações que os cobradores têm para com os seus patrões é motivo para que eles encurtem as rotas e cometam indisciplina não colhe consenso por parte do presidente da ATROMAP, que considera que o principal culpado é o cidadão.

“Infelizmente, em Moçambique não temos a cultura ou coragem de denunciar o motorista ou o cobrador. O cobrador encurta a rota e as pessoas sobem porque descem perto ou porque querem chegar cedo à casa ou ao trabalho. Quando alguém reclama é criticado. Não podemos ser assim”, justifi ca.

No caso de encurtamento de rota ou violação dos seus direitos por parte do cobrador e/ou do motorista, o cidadão pode remeter o caso à ATROMAP, dirigindo-se às suas instalações ou ligando para os números 823911680 e 823938294, e deixar os seguintes dados: matrícula, destino e a rota para a qual a viatura foi licenciada, no caso de encurtamento.

“Nesta actividade só não desenvolve quem não quer”

Embora não ganhem um salário que os permita sonhar, os cobradores por nós entrevistados são unânimes em afirmar que é possível fazer a vida naquela actividade. Eles dizem que não dependem do salário, o segredo é tentar completar a receita do patrão e o dinheiro de combustível o mais cedo possível. “Há dias em que completamos a receita às 16. Depois disso o dinheiro é nosso. Muitos de nós já têm casas, alguns estão a arrendar”, revelam.

Para fazerem jus às suas palavras, deram como exemplo o facto de muitos motoristas terem sido cobradores e que, com esforço, tiraram as suas cartas e hoje “mudaram de porta”, isto é, passaram a entrar pela porta direita do carro e não pela esquerda. Para eles, a actividade é dura mas “pode-se dizer que compensa”.

Embora considerem a actividade rentável, eles dizem que a sociedade ainda não olha para o cobrador como um trabalhador normal. “É difícil dizer em casa ou à esposa que és um cobrador. Há discriminação, por mais que o cobrador ande limpo e trate bem as pessoas (passageiros). A ideia que existe é de que o cobrador é um marginal”, concluem.

Em tempos, falava-se da possibilidade de os cobradores passarem por uma formação e possuírem crachás e uniforme, mas o assunto caiu no esquecimento, daí a anarquia que se vive no sector: qualquer um pode ser cobrador, à hora que quer e tratar os seus passageiros como se de objectos se tratasse. Há que regular este sector!

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