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Uma orquestra imortal

Uma orquestra imortal

Desde a sua criação, a Orquestra Djambo toca com sentimento o quotidiano de um povo, suscitando um grande entusiasmo nos moçambicanos. E, diga-se, fá-lo com obrigação patriótica pois atravessou gerações e hoje é, sem dúvidas, uma das mais conceitudas orquestras do país.

 

“A Orquestra Djambo tem uma história longa”, começa por dizer Moisés Ribeiro da Conceição, de 91 anos de idade, um dos dois fundadores ainda vivos do agrupamento instrumental que começou por ser um conjunto e, depressa, se tornou uma orquestra, com sonoridades e ritmos moçambicanos.

 

A paixão pela música sempre esteve presente desde miúdo na vida dos fundadores da Orquestra Djambo. Mas a história da orquestra começa nos princípios dos anos ‘50, logo após um indivíduo de nome Young Issufo ter adquirido alguns instrumentos musicais. E convidou Moisés, Orlando, Domingos, Hassane, Tiago, Zé Manel e Zé Mondlane para ensaiarem na sua casa.

Porém, depararam-se com um problema – o primeiro de muitos que o agrupamento teria pela frente: um dos elementos não se exercitava, neste caso Domingos Mabombo, porque não dispunha de um instrumento (piano). O Centro Associativo dos Negros da Colónia de Moçambique era o único que dispunha de um piano na época. Domingos, cujo pai era um dos sócios daquela agremiação, teve a ideia de pedir o espaço de modo a que todos os elementos do grupo, da qual fazia parte, pudessem ensaiar. Foi-lhes concedido o lugar e a banda começa a dar os seus primeiros passos.

Os seus ensaios eram frequentemente apreciados por diversas pessoas. Certo dia, Samuel Dabula, trabalhador da Rádio Clube de Moçambique – actual Rádio de Moçambique – foi assistir a um dos ensaios do agrupamento, tendo ficado espantado com o virtuosismo que a banda apresentava e comunicou à direcção do Centro que se preparava para organizar um baile na quadra festiva.

E o contrato para actuar não tardou a chegar, aliás, na madrugada do mesmo dia, receberam uma proposta para se apresentarem no Natal e no fim do ano. Recusaram-se a tocar na passagem do ano porque não queriam ficar “presos” à agremiação numa época em que surgiam novas propostas, mas aceitavam actuar nos próximos eventos.

“Sentimo-nos constrangidos por não termos satisfeito o pedido do Centro, uma vez que nos oferecia espaço para ensaiar e um dos elementos da banda era filho de um dos sócios”, diz Moisés. O conjunto começa a ganhar forma e muita aceitação popular, mas ainda não tinha nome. Chamavam-no Conjunto de Young Ussufo.

Mais tarde, a banda atravessa um momento de crise. Young Ussufo leva os seus instrumentos musicais e um dos elementos – Orlando – decide abandonar o agrupamento para tocar numa outra banda, mas os outros integrantes convenceram-no a não fazê-lo.

Apenas com piano, trompeta, saxofone e trombone, o grupo de jovens músicos teve de conceber um plano para animar as noites de então cidade de Lourenço Marques. Surge a ideia luminosa de buscar a ajuda da direcção do Centro. A agremiação prontificou-se a adquirir o material, mas os músicos iriam pagar mensalmente com o dinheiro de espectáculos. Assim, a banda ganhou forma novamente e começam os ensaios no mesmo local.

À procura de nome

O conjunto actuou em diversos locais da cidade de Maputo sem nome. “Quando sentimos que éramos maduros o suficiente, decidimos procurar um nome”, conta o decano da Orquestra Djambo.

Cada integrante tinha de sugerir um nome, mas as propostas não colhiam consenso. Tempo depois, Domingos teve a ideia de baptizar o conjunto de “Djambo”, inspirado num tema de um disco de música cubana denominado “Mambo Djambo”. Os restantes membros do agrupamento concordaram com a ideia, pois apreciavam a música, mas ninguém sabia o significado da palavra “Djambo”. “Mais tarde, com ajuda de um brasileiro que sempre vinha assistir aos nossos ensaios ficámos a saber que Djambo quer dizer ritmo”, diz Moisés.

Na altura, existia um grupo musical com a denominação “Ritmo”. No entanto, optaram por chamar Conjunto Djambo de modo a que não fosse confundido com outra banda, e, mais tarde, passou a denominar-se Orquestra Djambo, visto que tocavam instrumentos de sopro.

Depois de muito trabalho, o agrupamento caiu na graça do público. “As pessoas admiravam bastante o nosso trabalho. Éramos a única orquestra de negros que tocava a verdadeira música tradicional moçambicana, por isso, recebíamos muitos convites para actuar em bailes”, lembra.

Os anos que se seguiram não foram fáceis para o agrupamento. A orquestra teve de sobreviver a tudo: começando pela desistência de alguns membros. Com bilhete de passagem na mão, viu-se impedida de actuar em Brasil e outros países. Viu as portas do Centro Associativo dos Negros da Colónia de Moçambique – espaço que era o local de ensaios – a serem fechadas pela PIDE com todos os instrumentos no seu interior em 1965. A orquestra começou a dissolver-se.

Desde sempre, a Orquestra Djambo foi um dos mais importantes agrupamentos. Animava as noites e eventos sociais da capital com o ritmo animado e melodias arrebatadoras da marrabenta, ndlama, xingombela, xigubo e nfena. Grande parte das composições era original. A orquestra também gravou um single com os sucessos “Elisa Gomara Saia”, “Bambatela Sábado”, “Laurinda” e “Xinwanana”.

Por volta de 1969, o agrupamento reaparece com alguns novos membros e uma nova denominação: Djambo 70. Mas esta “nova” orquestra não granjeou simpatia de um público habituado a uma marrabenta, com uma subtil mistura de pequenos insólitos da vida quotidiana e dos grandes eventos históricos, feita de sentimentos.

A orquestra do povo

Quando reabre o Centro Cultural de Xipamanine, marca-se uma nova fase para a Orquestra Djambo. Hoje, conta com sete integrantes, nomeadamente Moisés da Conceição, Raimundo Cossa, Inácio Magaia, Milagre Langa, Américo, Policarpo Dias e Cecília Xavier, para além de um corpo de bailarinos.

E é a orquestra mais aplaudida de sempre. “Sentimo-nos como peixe na água quando estamos no palco porque tocamos o dia-a-dia do povo para o povo. Expressamos a moçambicanidade ”, diz Policarpo Dias.

A orquestra é a figura de cartaz da quarta edição do “Festival da Marrabenta” que arranca esta sexta-feira (28). É a terceira vez que o agrupamento participa neste evento que tem como objectivo valorizar a marrabenta.

As composições da Orquestra Djambo estão registadas em bobinas na Rádio Moçambique. Não tem álbum gravado, mas dispõe de um single – composto por quatro temas – gravado por volta de 1964.

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