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Uma dança desportiva que retrata a poligamia

Uma dança desportiva que retrata a poligamia

Pela primeira vez no país, a Associação de Atletas de Dança Desportiva (AADD) exibiu um espectáculo inspirado no livro Niketche da escritora africana Paulina Chiziane. Nos próximos parágrafos, acompanhe a entrevista com o coreógrafo moçambicano Ademar Chaúque, que montou a peça, sobre a iniciativa e aspectos afins…

@Verdade: Ademar, o que é a dança desportiva?

Ademar Chaúque: É uma modalidade constituída por dez ritmos de dança de salão que se dividem em duas categorias – as latinas e as clássicas. No primeiro grupo, temos a Valsa inglesa, o Tango, o Quickstep e o Foxtrot enquanto nas danças latinas se incluem o Chá-chá- -chá, a Rumba, a Salsa, o Samba e o Jive. Trata-se de uma modalidade que existe há meio século no mundo. A dança desportiva é extremamente cara devido ao tipo de material que se usa – as roupas, os sapatos e o salão – embora não se trate de nada que não existe no nosso país.

Em Moçambique, esta modalidade existe há cinco anos. No princípio ela era praticada de uma forma autónoma, porque começámos como um conjunto de atletas que aprendeu a dança desportiva e, depois, os membros da colectividade – por razões várias – dispersaram-se. Em 2011, decidimos juntá-los a fim de criar a AADD. Chamamos o grupo de atletas por causa da componente desportiva, mas, na verdade, nós somos bailarinos.

@Verdade: Isso significa que a dança desportiva se enquadra mais no bailado?

Ademar Chaúque: Felizmente, nós temos a sorte de esta modalidade poder ser incluída em ambas as partes – o desporto e o bailado. Se nós estivermos num pavilhão desportivo a competir, estamos no desporto. Agora se a manifestação for realizada num salão, numa cerimónia essencialmente cultural, estamos a realizar uma coreografia que se enquadra em todas as leis das actividades artístico-culturais. Já realizámos uma série de criações que exibimos ao longo do tempo que existimos. Por exemplo, neste ano participámos num festival de especialidade na Escócia, para onde levámos uma criação com o título Metamorfose.

Nela fizemos uma simbiose entre alguns ritmos da dança desportiva e da tradicional moçambicana como, por exemplo, o Samba e a Marrabenta, respectivamente. Esta pluralidade que a dança desportiva possui faz com que algumas pessoas a confundam, sob o ponto de vista de enquadramento. Se ela é dança ou desporto. No entanto, representa as duas dimensões. Por essa razão, dependendo do contexto em que é exposta, pode ser definida como desporto ou arte.

@Verdade: Talvez o vosso mérito está no facto de terem sido os primeiros a montar uma coreografia inspirada na obra Niketche no país. Como nasce essa ideia?

Ademar Chaúque: Tivemos um convite do Grupo de Elinga Teatro que produz o Festival de Teatro e Artes, em Luanda, para exibir as nossas criações. Ora, tratando-se de um festival de teatro, nós não queríamos estar alheios a essa manifestação, levando apenas a dança. É verdade que, nessa modalidade artística, estamos seguros de que fazemos um bom trabalho. Entretanto, já não se pode dizer o mesmo em relação ao teatro. A partir daí, pensámos em criar um musical que se baseasse na literatura moçambicana. Felizmente, o livro eleito foi o de Paulina Chiziane que já é conhecido por todos os bailarinos.

De qualquer modo, novamente, estávamos diante do mesmo problema – nós não somos actores. Nesse sentido, convidámos o actor e encenador moçambicano, Elliot Alex, para trabalhar connosco no aspecto do teatro. A produção foi exibida, em estreia, na cidade de Luanda, em Maio, onde fomos bem-sucedidos. A partir daí percebemos que, de facto, tínhamos um bom produto. Quando retornámos a Maputo, decidimos apresentar a criação ao público local até porque seria injusto que isso não acontecesse.

@Verdade: Terá havido um critério para a selecção do texto e do encenador?

Ademar Chaúque: Em relação à selecção do livro não houve critério específico. O facto é que quase todos nós já tínhamos lido a obra que – possuindo uma história peculiar sobre a poligamia – é muito conhecida. Por isso, para nós foi uma nova experiência retratá-la em forma de coreografia. É interessante notar que quando decidimos criar o musical com base em Niketche, Elliot Alex estava a trabalhar sobre o mesmo livro com o Teatro Luarte. Penso que ele foi felizardo na medida em que criou duas peças, a partir do mesmo texto, para áreas distintas.

@Verdade: Niketche é uma dança ritualística que se realiza no norte de Moçambique. Como é que se ponderou esse facto tendo em conta que a dança desportiva tem regras que – ao que tudo indica – não prevêem a introdução de outro tipo de bailado?

Ademar Chaúque: Excluímos a dança Niketche, mas retratámos o ritual que se faz no referido contexto, fazendo-o com base nas regras da dança desportiva. Para o efeito utilizámos o Samba. A nossa ideia não era levar, ao palco, o que está no livro, mas a partir disso inovar sem desrespeitar as nossas tradições.

@Verdade: Pode-se falar de dificuldades nesse processo criativo?

Ademar Chaúque: Nós dançamos todos os dias – por isso a única dificuldade enfrentada pelos bailarinos tem a ver com a parte teatral. Como dizer o texto perfeitamente? Qual é a dicção adequada? Trabalhámos durante dois meses, primeiro quando fomos a Luanda e, recentemente, para expor a obra em Maputo.

@verdade: No final, a coreografia relança o debate que Paulina Chiziane iniciou há muito tempo – a poligamia – incluindo as relações humanas no campo da vida marital.

Ademar Chaúque: A peça tem no seu ‘background’ uma série de valores, mas nós não queríamos, necessariamente, criar nenhum debate em torno disso. Podemos ter suscitado alguma reflexão nas pessoas, mas a nossa ideia não era trazer ao de cima o debate sobre a poligamia.

 

Artistas de alto gabarito

@Verdade: Há projectos para a realização de uma temporada com esta coreografia?

Ademar Chaúque: O nosso maior sonho é realizar esta peça envolvendo todos os artistas moçambicanos cujas músicas são exploradas, a fim de fazer um musical propriamente dito. A maior parte das músicas utilizadas na peça – com a excepção de um tango – pertence a músicos moçambicanos. Gostaríamos de partilhar o palco com eles, possibilitando que Mingas cante a sua Rumba, Moreira Chonguiça toque a sua Valsa, incluindo o Foxtrot de Sérgio Muiambo. Sucede, porém, que para que isso aconteça, precisamos de ter melhores condições sob o ponto de vista de financiamento, porque eles são artistas de alto gabarito. E nós não temos condições para levá-los ao palco. De qualquer modo, eu tenho a certeza de que um dia concretizaremos este sonho.

@Verdade: Penso que, a avaliar pelos resultados obtidos, tiveram um bom financiamento.

Ademar Chaúque: Não tivemos apoios. Sabes o que são apoios? Já foste a um concerto de Lizha James? Se quiseres perceber o que são apoios à produção artístico- cultural, conta o número de empresas que são mencionadas no cartaz de publicitação de um ‘show’ dessa cantora. Perceberás que tens cerca de 20. No nosso cartaz são mencionados os nomes Kukaracha – que é uma escola membro da nossa associação que funciona no Centro Cultural Brasil-Moçambique –, a gráfica Insaca, a fotógrafa Júlia Mena e o Teatro Avenida que nos cedeu a sala. Na verdade, eu não sei como é que se fez o ‘marketing’ para a divulgação da nossa obra. O facto é fomos bem-sucedidos. Imprimimos cerca de 500 bilhetes que se esgotaram. Estamos diante de um bom sinal porque o ‘feedback’ das pessoas da arte – os bailarinos e os actores – foi muito favorável.

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