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Há vândalos da paz em Nampula

Há vândalos da paz em Nampula

A crise político-militar que se regista no país, com incidência na região de Muxúnguè, na província de Sofala, inspirou o Grupo Teatral Axinene, na cidade de Nampula, a criar a peça Vandalismo e os Vândalos da Paz.

A nova obra do Grupo Teatral Axinene, Vandalismo e os Vândalos da Paz, inspira-se no sofrimento enfrentando pelos moçambicanos que se encontram nas proximidades da região do Muxúnguè. Ela foi criada a fim de se mostrar até que ponto a situação que se vive na província de Sofala é uma ameaça generalizada para o povo. A paz é um bem comum, por isso a sua preservação demanda a comparticipação de todos os moçambicanos.

De acordo com os integrantes do Grupo de Teatro Axinene, “queremos a paz. Por isso, compreendemos que a música e as palestras não são as únicas formas de fazer esse apelo, o teatro também é uma das maneiras de não somente apelar ao Governo para a manutenção de um ambiente de paz, como também de mostrar os efeitos catastróficos da guerra. Só um ambiente sem conflito militar é que possibilita o desenvolvimento”. Na obra em alusão, critica-se o Governo devido, supostamente, à forma arrogante com que trata o assunto. Diz-se que se está a fingir – perante os moçambicanos – que há uma preocupação em relação à preservação da concórdia com a Renamo.

Além do mais, os actores estão sensibilizados com as peripécias que decorrem no centro de Moçambique, muito em particular quando se toma em consideração que são pessoas inocentes que estão a perder a vida. Presentemente, receia-se uma possível eclosão de uma guerra que se pode generalizar em todo o país, se o Governo não tomar medidas enérgicas para abortar esta situação. O outro objectivo associado à manutenção da paz é que o Grupo Teatral Axinene está preocupado em convencer os jovens que ignoram o teatro – muitos dos quais consideram os actores palhaços – a perceber que o mesmo é uma forma eficaz de transmitir mensagens de grande impacto social.

“Somos considerados palhaços porque as nossas peças reflectem as preocupações das populações. Outro problema é que – sempre que exibimos as nossas obras – determinados membros do Governo criticam-nos, pura e simplesmente, porque abordamos temas que tornam as pessoas despertas em relação à forma como são governadas”.

É neste sentido que, através do teatro, os Axinene pretendem estimular a comunidade local a envolver-se, cada vez mais, nas actividades artístico-culturais, com enfoque para as artes cénicas, muito em particular porque se ignora aquela área. Assim, com a peça Vandalismo e os Vândalos da Paz, a colectividade quer potenciar uma forma de arte pouco desenvolvida em Nampula.

Dada a relevância temática que possui, esta peça será exibida nas cidades da Beira e Quelimane. Trata-se de um trabalho promovido à luz do intercâmbio cultural que existe entre os Axinene e as colectividades teatrais das referidas urbes. Na verdade, o plano do Grupo Teatral Axinene era exibir a sua obra em todas as capitais provinciais. O drama é que não se reúne o dinheiro para custear as viagens.

De acordo com o director da referida formação, Juvenal Pilica, “não temos dinheiro para circular em todo o país. Solicitámos o apoio do governo provincial, a fim de materializar a ideia, no entanto, o nosso pedido não foi acolhido favoravelmente”. Entretanto, além da obra Vandalismo e os Vândalos da Paz, o Grupo Teatral Axinene já apresentou aos nampulenses a peça O Que Pensam de Nós que retrata a desilusão dos funcionários públicos em relação às reformas salarias implementadas pelo Governo. O pretexto é o de que os mesmos são miseráveis.

O Grupo de Teatro Axinene produz obras revolucionárias de carácter reivindicativo em relação às políticas de governação vigentes. É por essa razão que as suas duas últimas peças têm os títulos O Que São Sete Porcento? e Comandante de 14 Anos. Presentemente, a colectividade está a produzir outras obras que serão exibidas em Dezembro. De qualquer modo, os artistas não ignoram o quotidiano dos moçambicanos – com enfoque para a comunidade local.

Génese dos Axinene

Em Nampula, o teatro não é uma expressão artística evoluída. Por isso, a criação do Grupo Teatral Axinene (cujo termo equivalente na língua portuguesa é Os Donos), em 2011, configura- se uma resposta à realidade. Pretende-se reactivar a visibilidade das artes cénicas na capital do norte de Moçambique. A ideia surgiu no contexto de uma conversa entre estudantes universitários locais – com alguma sensibilidade para aquela forma de arte.

O Grupo de Teatro Axinene é composto por jovens oriundos das cidade de Quelimane, Chimoio e Beira. Inicialmente, houve uma preocupação, por parte dos referidos jovens, de se integrarem na Casa Velha. Por lá permaneceram por um período de seis meses, até que as incompatibilidades de horário os impeliram a abandonar a instituição. Os actores estão resolvidos a desenvolver as artes cénicas. “Mesmo sem apoio, lutaremos para que o teatro seja uma realidade em Nampula, por isso estamos a pensar em realizar o Festival Nacional de Teatro em Dezembro”.

Há insatisfação

Uma das preocupações manifestadas pelos actores é a apatia do público local perante as exibições teatrais. Para contrariar tal comportamento, a estratégia encontrada pelos Axinene é a exibição de peças teatrais gratuitamente.

“Quando organizamos programas vespertinos, em que exibimos as peças teatrais, o público tem sido pouco participativo. As pessoas já não gostam de ver as obras teatrais nas casas de pasto. No entanto, preferem comprar discos piratas a fim de verem as obras nas suas casas a partir da televisão”, afirma Juvenal Pileca que acrescenta que é normal que uma peça teatral seja vista por apenas dez pessoas.

O problema é que o Grupo de Teatro Axinene ainda não reúne condições para gravar as suas peças teatrais no formato de vídeo. O fraco consumo das peças e a inexistência de espaços adequados para a apresentação das mesmas são os factores apontados como os que não contribuem para o desenvolvimento daquela forma de arte em Nampula.

Falta de anfiteatros

Na cidade de Nampula, os preços para arrendar os salões para a exposição de actividades culturais são muito altos. Por essa razão, afugentam os grupos que querem exibir as suas obras. Assim, a falta de anfiteatros é uma das questões que inquieta os artistas. O mais grave é que os principais centros de exposição das artes foram transformados em centros de culto religioso.

Por exemplo, presentemente, os Cinemas Moçambique e Almeida Garrett foram ocupados pela Igreja Universal do Reino de Deus. Por sua vez, o Cinema Militar e o Salão do Conselho Municipal de Nampula são arrendados por hora aplicando- se valores monetários muito altos. Trata-se de uma situação que desaponta os artistas locais. “É inacreditável que numa cidade como esta, os espaços que foram concebidos para a exibição das artes sejam, actualmente, transformados em centros de culto religioso com a conivência do Governo”.

Sebastião Paulino

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