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Uma companhia tradicional num mundo contemporâneo!

Uma companhia tradicional num mundo contemporâneo!

Passam os tempos, mudam-se as vontades, transforma-se as pessoas, mas o culto dos valores tradicionais da moçambicanidade mantém-se imutável na Companhia Nacional de Canto e Dança. Em certo sentido, na primeira década do terceiro milénio, esta inflexibilidade gerou uma crise sem precedentes na Catedral das Artes. No entanto, se nada falhar – e oxalá que assim seja –, o caminho rumo à idade 40 da sua existência pode trazer (necessárias e) profundas transformações. Mas atenção, vontades não bastam..

Eu não sei se afirmar que um determinado objecto se apresenta de uma certa forma – positiva ou negativa – é maldizê-lo como muitos, na minha terra, compreendem.

Mas também não sei se falar dos problemas sociais para que sejam conhecidos e, por via disso, instigar a quem de direito a resolvê-los seria, necessariamente, ignorar as proezas de uma entidade e/ ou de certa época histórica.

O que é facto é que sem a análise sobre o passado não se pode perceber o presente, da mesma forma que seria muito difícil realizar acções que tenham em conta o risco, ou o impacto que causarão no futuro.

De qualquer modo, nesta edição, @Verdade quis falar sobre a Companhia Nacional de Canto e Dança (CNCD). Daí que muito recentemente travou uma conversa com os seus dirigentes. Refiro-me a Agostinho Xadreque e Cândida Mata que são, respectivamente, director-geral e directora artística.

No contexto da conversa, Agostinho Xadreque referiu que durante muitos anos, desde a sua fundação, a CNCD foi sendo suportada com base em financiamentos e apoios de outras instituições, sem os quais não teria sido sustentável.

Nos primeiros anos da independência nacional o pessoal que trabalhava para a companhia (incluindo os artistas) era proveniente de diversas instituições de trabalho e/ou de educação que lhes assegurava o salário. Por isso, na CNCD, as pessoas não eram assalariadas.

Não tinham nenhum contrato que lhes garantisse ordenados em cada fim do mês. Na verdade, faziam arte (no caso a dança entre outras expressões cénicas) por puro prazer.

Com a criação do Fundo para o Desenvolvimento da Acção Cultural (FUNDAC), nos anos de 1990, o Estado moçambicano começa a prestar maior apoio à companhia, garantindo subsídio financeiro ao seu pessoal, de tal sorte que até os dias actuais a organização funciona nos mesmos moldes apenas com a diferença de que o salário dos funcionários e artistas é garantido pelo Governo.

Ao longo do tempo, muitas vicissitudes operaram-se, no entanto, um aspecto não se pode recusar: a Companhia Nacional de Canto e Dança – despida de qualquer inclinação político-partidária – é um dos maiores projectos culturais que o país possui.

Muito bem se sabe que o conceito de companhias nacionais é uma estrutura que, praticamente, já não existe em muitos países africanos que nos primeiros anos da sua independência adoptaram o referido modelo de activismo cultural para resgatar os seus valores culturais e nacionalistas.

No entanto, apesar de todas as intempéries que se abatem sobre si, a nossa CNCD resiste. E disso, quer a antiga direcção, quer a actual, quer o Governo, quer ainda o povo moçambicano, no geral, devem-se orgulhar.

O outro aspecto inquestionável é que a CNCD, com todo o mérito, ao longo dos anos da criação da nação moçambicana, afigurou-se uma espécie de embaixadora da nossa cultura no estrangeiro. É que, de forma teimosa, os seus dirigentes lutaram para que a organização não se desviasse da sua missão – exaltar a moçambicanidade e uma história político-nacionalista.

Ao longo dos anos de 1990 e princípios de 2000, com o boom das organizações não governamentais (ONGs), que apoiaram diversos projectos culturais e sociais no país, a CNCD viveu o seu melhor momento histórico depois de, nos primeiros anos da independência, ter promovido a moçambicanidade pelo mundo na companhia do Presidente Samora Machel.

“Foi com base no apoio das ONGs que conseguimos fechar algumas lacunas da organização. Afinal, com os mesmos a instituição conseguia satisfazer as necessidades salariais dos artistas e dos funcionários”, precisa Cândida Mata, a directora artística.

A crise

O que se pretende afirmar é que nessa época a CNCD gozava de boa saúde. Um clima de satisfação geral. Mas, o mesmo clima não era, necessariamente, motivado pela não existência de dificuldades e/ou de problemas.

Na passagem do primeiro quinquénio do ano 2000, o mundo defrontou-se com uma crise financeira internacional. Os financiamentos provenientes das ONGs reduziram drasticamente. Ninguém estava preparado para confrontar a realidade. Pior ainda, como a arte em Moçambique não rende muito, a situação da CNCD complicou-se.

O que aconteceu é que nos finais dos anos 2000, com a eclosão da crise financeira internacional, os apoios por parte das ONGs retraíram radicalmente.

Ora, quando a par da realidade da crise mundial se associa o facto de os espectáculos de dança não possuírem muita adesão do público em Moçambique, o que implica negativamente nas rendas internas, nenhum outro clima se devia esperar a não ser uma instabilidade geral no seio da organização.

Os funcionários e artistas que operam na CNCD engendram um conjunto de mecanismos para denunciar uma situação de crise que no seu entender, se devia à má gestão da direcção da organização. O assunto animou a Imprensa moçambicana.

Como se pode perceber, está-se diante de uma realidade que quando contada sem a devida contextualização pode provocar incompreensões entre os menos atentos.

Espanta-nos que quando questionada sobre a realidade interna que a nova direcção encontrou na companhia, sobretudo para informar os moçambicanos sobre a base em que irá trabalhar, para por via disso granjear (ou não) a simpatia de quem pode ajudar, a directora artística, Cândida Mata – aparentemente mal-humorada com uma imprensa a qual apelida de sensacionalista e parcial – nos responda:

“Eu penso que a Imprensa moçambicana está mais interessada em divulgar a parte má das pessoas. Por isso, os momentos da instabilidade pelos quais a companhia passou, e que na minha opinião foram efémeros, foram mais glorificados pelos jornalista em detrimento daquilo que é a actividade principal da nossa organização – a arte e a cultura”.

Como o estimado leitor já deve perceber, as razões do nosso intróito, a nossa missão era confrontar se os títulos ´incendiários´ que foram popularizados pelos media eram verdadeiros ou apenas uma construção social.

Garantir a estabilidade

Para quem acompanha as actividades artísticas e culturais, nem vale a pena explicar que sempre que se realizam dois ou mais concertos, por exemplo, um de dança outro de música, as pessoas aderem mais ao segundo. Em resultado disso, torna-se difícil operar no campo artístico da dança.

A experiência da Cidade da Matola – onde se exibiu a peça Hanya Machel, no intuito de ampliar o espaço de acção da companhia através da conquista de novos públicos – é apenas um exemplo. Afirmar que ninguém foi ao concerto pode ser um exagero. A verdade é a sociedade precisa de ser instigada a consumir as artes.

Afinal, infelizmente, “a cultura ainda não é um sector em que se fazem muitos investimentos, apesar de que isso não significa que o Governo não queira. É que definiu outras prioridades”, considera Mata.

Seja como for, não deixou de ser preocupante perceber que a nossa interlocutora percebeu-nos mal na medida em que, levando a sua posição ao extremo, afirmou:

“Eu não posso afirmar que encontrámos uma situação (difícil) a qual estamos a gerir. A realidade actual da organização refl ecte o somatório de vários factores e acontecimentos sucedidos. A nossa aposta é estabilizar o processo de integração das pessoas para que tenham o conhecimento do seu estatuto na instituição.

Estamos a trabalhar mais para que, não somente, se valorize o grau de escolaridade mas também o conhecimento empírico que os artistas têm em relação à arte. Só assim se pode chegar à etapa em que o Governo moçambicano reconheça as competências das pessoas não somente em função do seu grau de formação, mas também do know how”.

África mutilada

Num outro desenvolvimento, Cândida Mata agiu como uma vidente para em relação a algumas das questões que inquietam os moçambicanos – o estado de degradação contínua da sala do Cine Teatro África, a Catedral das Artes –, afirmar que “neste momento não há financiamentos para a reabilitação da infra-estrutura.

As pessoas que exploram o edifício existem e estão a trabalhar, mas enquanto houver uma apetência – por parte da Imprensa – de mostrar que fulano e sicrano não fazem nada, as obras da Companhia Nacional de Canto e Dança, que são uma herança de longos anos de trabalho árduo, foram esquecidas”, diz.

Em certa ocasião, a interlocutora considerou que, “é importante que nos questionemos sobre o que fazer para valorizar os talentos que existem nas diversas áreas culturais e/ou atrair os mecenas para apoiar o seu processo de desenvolvimento”. Para si, se a Imprensa puder fazer isso seria melhor.

Por sua vez, Agonstinho Xadreque revelou que, presentemente, “há esforços que estão a ser levados a cabo pelo Governo para garantir a reabilitação do Cine África”.

Xadreque, que não quis apontar os culpados pela degradação da infra-estrutura, considera que durante o tempo em que o edifício do Cine África funcionou como um centro difusor das artes no país, sofreu um processo contínuo de degradação.

Nos dias que correm o impacto do estado do desconforto da instituição pode ser desastroso: “poucos promotores de espectáculos e divertimentos públicos preferem realizar eventos no Cine África”.

Nem vale a pena dizer que alguns programas culturais dinamizados pelo Grupo Soico passaram a ser realizados noutros locais como, por exemplo, o Estúdio 222. A verdade é que o Cine África – devido às más condições que oferece ao seu público – está a perder clientes.

Funcionários inoperantes

Já referimos que em muitos países africanos, além de Moçambique, o conceito de companhias nacionais já não existe? Senão, fique a saber. No entanto, mais interessante é saber que nos dias actuais a CNCD possui 85 funcionários no seu quadro geral.

Há quem considere que isso não difere de promoção de empregos e salários. O facto é que do universo, apenas 31 pessoas (da parte artística) é que dão visibilidade à instituição.

As remanescentes 54 estão distribuídas pelas áreas técnicas, sendo que o Departamento de Marketing, por exemplo, absorve 27 pessoas. Existem outros dois sectores que possuem, respectivamente, cinco e 13 pessoas.

A realidade dificulta a acção da direcção mas, infelizmente, não tem como resolvê-la. “Fomos acumulando essa quantidade de pessoas porque não temos uma legislação que nos esclareça sobre que tratamento dar a um artista que termina a sua carreira. O facto é que, nas condições actuais, esse número é insuportável”, considera o director.

De qualquer modo, Xadreque pode-se congratular pelo facto de o Estado moçambicano garantir salários aos 85 funcionários da instituição que dirige. No entanto, em relação à improdutividade instalada não esteja igualmente satisfeito.

Pelo menos o seu comentário traduz outro cenário: ”é importante que não fiquemos passivos porque temos a garantia dos salários no fim de cada mês. Devemos trabalhar para gerar as nossas receitas”.

Uma organização tradicional

Na verdade, quando afirmamos que a CNCD é uma organização tradicional num mundo contemporâneo não é somente para exaltar o seu carácter de culto aos aspectos tradicionais de se ser moçambicano. O problema é que os seus processos laborais e/ou de comunicação são obstruídos pelo excesso de burocracia.

Numa situação em que a instituição é gerida pelo Governo, no campo financeiro, o trabalho artístico da CNCD deve obedecer rigorosamente às regras e procedimentos de administração financeira dos fundos do Estado, o que, logo à partida, é incompatível. Afinal, todos os bens adquiridos por qualquer sector do Estado devem ser pagos ao fornecedor e justificados.

Facto, porém, é que para a companhia montar uma coreografia necessita de inúmeros adereços, muitos dos quais, o processo da sua aquisição não se enquadra nos critérios oficiais. Afinal, só o mercado informal oferece: materiais como, por exemplo, esteiras, alguidares, cestos de palha e montes de caniços são produzidos por artesãos.

Mas, mesmo que fossem fornecidos no mercado formal este não aceitaria que a CNCD pagasse um valor de 50, 100 ou 200 meticais (que é o preço que tais objectos são vendidos) por meio de cheque.

Recorde-se de que em muitas operações financeiras oficiais se exige que os operadores económicos tenham o chamado Número Único de Identificação Tributária (NUIT), o que muitos moçambicanos ainda não têm. Então, a CNCD é uma organização tradicional atracada num mundo contemporânea e que, passivamente, cumpre ordens do Estado.

Enfim, este artigo possibilita ao leitor perceber a realidade da nossa CNCD. Ela carece de apoio de todos os segmentos sociais para continuar a alegrar os moçambicanos com as suas obras. Diante dela, há uma equipa jovem e, em certo sentido, dinâmica mas, como dissemos, vontades não bastam. A sua materialização é necessária. Acompanharemos o impacto no futuro.

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