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Um músico politizado em Nampula

Em 45 anos de idade, o músico nampulense, Charifo Victor Salimo, gerou 26 filhos. Ele desconhece as circunstâncias que o conduziram a tornar-se cantor, acreditando, porém, que se trata de um dom.

Muito cedo, quando Charifo Victor Salimo era criança, os seus pais aperceberam-se da sua inclinação para a música. Logo, encaminharam-no a um artista experiente a fim de lhe dar as lições adequadas . Quando tinha 11 anos de idade, o artista foi integrado no grupo cultural “A Revolução Continua”. Na altura, o mesmo era constituído por artistas originários da Tanzânia e da província de Cabo Delgado.

O conjunto realizava shows nos bairros de Nampula, explorando vários géneros de música, com destaque para a Rumba que é uma mistura de músicas tradicionais do norte de Moçambique. Na colectividade, o cantor começou por aprender a tocar a guitarra – por um período de três anos – e quando tinha 14 de idade já fazia concertos em palco.

Charifo ganhou visibilidade no seio do grupo mas, tempos mais tarde, a banda parou de actuar. Perante a situação, Charifo Victor Salimo – que já possuía um número assinalável de admiradores – teve o patrocínio do Conselho Municipal de Nampula e do FUNDAC para a gravação do seu primeiro disco.

Foi, aliás, ao abrigo do entendimento de ambas as instituições que o artista viajou para Portugal, onde gravou o seu álbum nos estúdios do músico angolano Yeyé. A obra contou com a participação de Pureza Wafino.

Sob o ponto de vista temático, o trabalho é um retrato social bem como um tributo aos seus pais. Explorando a diversidade de manifestações culturais que abunda no norte de Moçambique, o artista associou ritmos de danças como o Tufu, a Sacacha e a Namahaja – cuja mescla gera a Rumba e a Passada. O cantor, que está arrependido por não ter ido à escola, em tempo útil, frequenta hoje a 10ª classe. “Quando me envolvi com a viola, fiquei corrompido. Não sabia que a não escolarização me seria um problema. Nos dias que correm, se a pessoa não estudou não é respeitada na sociedade”, comenta.

Além do mais, de acordo com o cantor, nos últimos dias tem sido difícil que um artista viva apenas da sua actividade como tal. Os empresários locais não apoiam a arte. “A realidade é preocupante porque os artistas que surgem, mesmo que sejam talentosos, não têm mecanismos para colocar os seus produtos no mercado”.

Uma mudança que magoa

Actualmente, Victor Salimo possui no mercado nove trabalhos discográficos. Quatro foram editados pela J&B Recording. Três foram chanceladas pela Vidisco Moçambique, enquanto os outros dois foram produzidos de forma independente.O encerramento das editoras – uma realidade que complica a produção musical – magoa o cantor.

A inoperância das leis culturais no país é outro calvário. O cantor recorda-se de que quando tinha uma relação laboral com a Vidisco Moçambique o seu trabalho era rentável. Vendia discos no estrangeiro. O álbum Acai, cujas vendas chegaram a 80 mil cópias, em 2004, valendo-lhe a conquista do disco de Dupla Platina, é um exemplo.

Um músico político

Ao receber o troféu, o cantor esperava o reconhecimento do Governo local pelo seu papel na massificação das actividades culturais. “Mas estamos na região norte de Moçambique, onde, na prática, a cultura é olhada pelo lado esquerdo”, desabafa. É por essa razão que para o músico, de certa forma, o Governo deve apoiar os artistas.

Por isso, Charifo Victor Salimo – pelo facto de compreender a Constituição da República, o funcionamento do estado moçambicano e acompanhar a dinâmica sociopolítica do país – considera-se um músico político e argumenta: “Eu sinto-me um músico político, porque fiz várias campanhas de mobilização social a favor do Partido Frelimo. As pessoas gloriam-se com os resultados das referidas campanhas”. No entanto, a sua veia para a política – recentemente descoberta – afasta o cantor da música.

Lutar contra a pirataria

Em Moçambique, os fazedores da cultura têm lamentado em relação à prática da pirataria. Em Nampula, por exemplo, os músicos estão agastados com o fenómeno. Victor Salimo sente pena dos novos talentos na música porque a contrafacção já se responsabilizou pela falência da maior parte das editoras.

Para si, o Governo deve frear esta tendência. O cantor diz que o elevado índice de pirataria que se regista no país resulta do facto de o Ministério da Cultura não encontrar mecanismos adequados para controlar a situação. Aliás, em Nampula, perante o olhar indiferente do Conselho Municipal de Nampula, há pessoas que a praticam, de forma normal, como uma actividade de sobrevivência.

Uma carreira dura

Se Charifo Victor Salimo – que fez uma carreira repleta de sacrifícios – é um artista bem-sucedido, tal deve-se ao facto de nunca ter desistido de lutar. Transformou as dificuldades em desafios. Quando abandonou a sua banda, Charifo seguiu uma carreira a solo – o que não foi fácil pois não tinha nenhum instrumento de música.

“Numa primeira fase, pedi apoios a alguns empresários em Nampula. A resposta não foi favorável. Com o apoio dos meus familiares, comprei uma guitarra”, recorda-se.

Neste momento, o músico trabalha a fim de publicar o seu décimo álbum no mercado – o que acontecerá nos finais de 2013. O disco terá 12 faixas que retratam a sociedade moçambicana. Nos seus projectos está incluída a criação da banda Honda do Índico, cujo objectivo é a preservação da cultura da região norte de Moçambique.

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