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Um major do exército vivendo na lua

Um major do exército vivendo na lua

Se lhe perguntássemos sobre o que é que ele sabe fazer, provavelmente responder-nosia que sabe fazer tudo. Contrariamente àqueles dois jovens que, perante o patrão, um deles, ao ser-lhe questionado sobre o que sabia fazer, respondeu que não sabia fazer nada, e o outro, diante da mesma pergunta, disse que era adjunto do seu companheiro. Fernando Mendes é um tremendo autodidacta, um artista que se transformou num grande mestre multifacetado, que parte da construção civil à carpintaria e à marcenaria, das artes plásticas à caça, e da estofaria à grandeza do sonho.

Quer dizer, Mendes vive na lua, ou perto do satélite da terra. Um major do exército vivendo na lua A casa onde mora é uma autêntica homenagem à arquitectura, feita pelas suas próprias mãos, seguindo as indicações dos espíritos. Desenhou-a e dirigiu a sua construção, como mestre de obra e como pedreiro, pegando ele também o fi o-de-prumo, as pás para amassar o cimento e erguendo a obra bloco a bloco. Hoje está ali uma construção de bom nível, espaçosa e arejada.

Quando perguntámos a Mendes quem tinha feito a planta da sua casa, que faz inveja a quem quer que seja, ele desenhou nos lábios um sorriso matreiro e respondeu: “Fui eu, porquê?”. E nós apenas lhe contra-respondemos dizendo que é pelo facto de ela ser bonita. Bem conseguida. “Isto não é nada”, prosseguia Mendes. “Se eu vos levar a verem outros sítios, outras casas projectadas e construídas por mim, vocês não vão acreditar”.

Na verdade, é difícil acreditar que um homem como Mendes, actualmente afecto ao Estado-Maior General do exército moçambicano, tenha, para além das mãos para as armas, outras mãos para desenhar sonhos. Um aspecto particular que nos vai chamar a atenção na varanda da casa embelezada com azulejos de um branco misturado levemente com o cinzento, é uma enorme escultura de madeira, sugerindo- nos os tempos de revolta militar contra o colonialismo português.

“Fui eu que fi z esta escultura”. É uma obra-prima, que merece ser vista em galerias outras. “Eu não vendo os meus trabalhos ao desbarato, ou a singulares. Eles têm que ser contemplados em lugares públicos. Uma obra de arte não pode fi car fechada em paredes pequenas”. E talvez será por isso que Mendes mantém aquele “monstro” na varanda, para que todos os seus visitantes o sintam. Fernando Mendes é um militar que está no exército desde os fi nais de 1974, logo depois dos Acordos de Lusaka. Esteve em Boane, onde foi afecto à Secção das Artes, por terem descoberto nele talento para isso.

“Enquanto eu fazia desenhos técnicos para o exército, fui descobrindo outras habilidades que já existiam em mim, como, por exemplo, as artes plásticas, que venho abraçando até hoje, com muito amor e carinho”. Chegámos à casa de Fernando Mendes numa manhã de quinta-feira e, para além deste lado introduziu- nos na sua sala de visitas, onde, nas paredes, tem duas cabeças embalsamadas, de animais bravios. Uma delas é de um enorme e assustador cudo. “Também sou caçador. Aprendi a caçar com os macondes, e foi bom porque me sinto homem de verdade, quando vou à caça trago carne para os militares e agora para a minha família. Tenho licença para o efeito”.

Aliás, segundo a tradição dos macondes, um homem que nunca foi à caça, não é homem, não é nada. Mas o que nos vai espantar mais ainda é a preparação de Mendes para embalsamar animais. “Aprendi com Augus- to Cabral, um homem que deixou em mim marcas muito fortes na minha trajectória. Cabral tinha uma grande capacidade de trabalho e um carácter muito forte. Aprendi muito com ele”.

EXPOSIÇÃO PARA O “25”

Fernando Mendes pegou nas suas obras e protagonizou uma exposição na semana passada, na cidade de Maputo. Será uma espécie de retrospectiva de um percurso também registado por várias mostras nos quartéis e em alguns lugares públicos. Foi um evento concorrido – para além do público em geral – por militares e altas patentes do exército. “Estou bastante honrado por ter mostrado, uma vez mais, aquilo que faço com as minhas mãos e com a minha mente.

Tudo o que é bonito é para ser visto e eu tento mostrar aquilo que de bonito existe em mim”. Recorde-se que Fernando Mendes, no primeiro aniversário do @Verdade, celebrado no mês de Agosto, ofereceu um quadro ao nosso jornal, representado pelo director-geral, Erick Charas, a que deu o nome “A Verdade”, com uma imagem simbolizando a mulher.

“Eu ofereci-vos este quadro antes de estar emoldurado. Agora já está e levei-o à exposição. Veja só que muitos queriam comprá-lo e eu recusei a proposta porque o valor daquela obra não está no dinheiro, mas no seu signifi cado. É o apoio moral que dou a um semanário que, sem dúvida, é do povo, para o povo”. E este é Fernando Mendes, ou uma parte do Fernando Mendes, um homem que vive na lua!

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