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Um exemplo de empreendedorismo comunitário

Um exemplo de empreendedorismo comunitário

Um grupo de ex-estivadores constituído por cinco pessoas, de idades compreendida entre 22 e 33 anos, juntou-se e criou uma espécie de cooperativa para ganhar o sustento diário de forma honesta. Numa iniciativa que se pode considerar empreendedorismo comunitário, os jovens instalam-se nos locais de grande aglomerado para vigiar bicicletas e motorizadas de quem tem de ir trabalhar ou realizar qualquer outra tarefa, e no fim do dia amealham, pelo menos, mil meticais.

Têm idades diferentes, mas estão unidos pelo mesmo objectivo: ganhar a vida. São cinco jovens e montaram alpendres em diversos locais de grande aglomeração, com destaque para os mercados, feiras e hospitais na cidade de Nampula.

No mercado grossista da Aresta, por dia, em média, os jovens, com um alpendre feito de estacas e capim, recebem 100 velocípedes e 50 motorizadas, e cobram pela vigilância cinco e 10 meticais, respectivamente. Segundo contaram à nossa reportagem, diariamente eles chegam a facturar entre 1000 a 1200 meticais.

No alpendre localizado no Hospital Central de Nampula, feito de blocos de cimento, ferros e lonas sintéticas, segundo revelaram as nossas fontes, chegam a amealhar, por dia, mais de mil meticais, vigiando viaturas, motorizadas e bicicletas. Porém, naquele local, eles têm de desembolsar mensalmente a quantia de 2500 meticais referente ao arrendamento do espaço.

Na feira dominical no mercado dos Belenenses, onde aquele grupo tem desempenhado as suas funções, os jovens conseguem obter mais dinheiro para o sustento das suas famílias. Se de segunda a sábado facturam 500 meticais por dia, aos domingos a sorte é outra. Ou seja, eles chegam a amealhar 3000 a 4500 meticais, vigiando apenas bicicletas e motorizadas dos comerciantes e clientes que recorrem à feira.

Aqueles jovens associados pagam ao município uma taxa anual de 3500 meticais, e afirmam que o sonho do grupo é criar uma empresa de renome que possa ser sustentável e capaz de dar emprego a um grande número de pessoas na sua maioria vulneráveis ou carenciadas.

Nelito Ernesto, de 22 anos de idade, é um dos membros associados que se orgulha de fazer parte daquele grupo de jovens com ideias inovadoras na luta contra a pobreza. Conta que, antes de se juntar aos actuais colegas, dedicava-se apenas a trabalhos domésticos.

Acrescenta ainda que, várias vezes, realizava actividades como ajudante carregando de mercadorias ou sacos de carvão vegetal nos diferentes mercados da cidade como forma de ganhar algum dinheiro para alimentar a sua família e dar continuidade aos seus estudos.

Nelito refere que aquela actividade, apesar de ainda não lhe proporcionar um rendimento mensal, já mudou radicalmente a sua situação financeira. “Hoje não tenho problemas com a alimentação porque os subsídios que ganhamos, um dia sim outro não, permitem-me adquirir comida para a minha família”, afirmou.

Cristóvão Omar, de 31 anos de idade, é um outro membro desse grupo que se dedica à vigilância de motorizadas e bicicletas. Ele conta que a ideia da criação da associação é de um grupo de jovens ex-estivadores e meninos da rua que se dedicavam a diversas actividades em diferentes mercados, feira dominical e estação ferroviária da cidade de Nampula.

“Todos éramos estivadores, mas vimos que a actividade que exercíamos não nos ajudava em nada, pelo contrário, arruinava as nossas vidas. No entanto, decidimos organizar-nos para velar por bicicletas, motorizadas e, algumas vezes, viaturas, reduzindo, assim, o índice de roubos que se verificavam quase todos os dias”, explica.

Num outro passo, Omar referiu que enfrentaram diversos constrangimentos na criação e legalização do organismo. “Tivemos que passar por momentos de muita turbulência e excesso de burocracia por parte das autoridades governamentais”, conta.

Omar acusa os funcionários do Balcão Único de Atendimento (BAU) de terem tentado vender a ideia a um outro grupo de jovens.

“Para obter o alvará, tivemos que perseguir um grupo de funcionários que chegaram a cobrar-nos algum valor para agilizar o nosso processo, mas graças a alguns trabalhadores honestos do município vimos o nosso sonho realizado”, afirma, tendo referido ainda que, nos primeiros dias, as coisas eram bastante difíceis, mas presentemente a situação é bem melhor do que imaginavam.

Importa referir que o sonho deste grupo de jovens é criar alpendres em quase todos os mercados municipais de modo a evitar roubos de bicicletas, motorizadas, espelhos retrovisores e outros bens guardados nas viaturas pelos proprietários quando se deslocam a diferentes mercados e locais públicos da cidade de Nampula.

A nossa reportagem conversou com três pessoas, dois proprietários de bicicletas e um de motorizada, que afirmaram que, antes de existir aquele parque de estacionamento, muitos vendedores e compradores perdiam os seus meios de transporte, uma vez que eram extraviadas.

Rafael António, residente na zona de Marrere, no povoado de Namara, a 15 quilómetros da cidade de Nampula, afirma ter perdido duas bicicletas no mercado da Aresta quando não existia o trabalho de vigilância naquele local.

“No princípio, guardávamos as bicicletas atrás das nossas bancas, mas sempre havia quem se aproveitava da nossa falta de atenção, sobretudo na hora de grande procura, para se apropriar dos nossos meios de locomoção”, conta e acrescenta que se sente satisfeito com a iniciativa daqueles jovens ex-estivadores.

António diz ainda que, apesar de ter de pagar todos os dias pela vigilância, a ideia é bem-vinda, uma vez que a probabilidade de perder a sua bicicleta é muito menor, além de louvar o facto de os vigiadores exigirem uma senha no momento do levantamento do velocípede ou motorizada.

Maulana Hermínio, residente em Namaíta, começou por elogiar a iniciativa para depois apelar aos jovens para fazerem alpendres de modo a armazenar bicicletas ou motorizadas nos casos em que os proprietários têm dificuldades em levar para casa os seus veículos. “Muitas vezes, algumas pessoas perdem senhas e precisam de justificativos”, afirma.

André Faustino, proprietário de uma motorizada e vendedor de tomate no mercado da Aresta desde 2008, na sua locução, começou por elogiar a ideia daqueles ex-estivadores pela iniciativa inovadora. “Antes não passava um dia sem se ouvir que o fulano ou beltrano perdeu a sua motorizada ou bicicleta, mas presentemente isso já não acontece”, afiançou.

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