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Toma que te dou: Um cego no aeródromo de Inhambane

Enquanto se realizava, no passado fim-de-semana, o IV Festival de Pára-quedismo de Inhambane, eu ficava dividido entre a contemplação da esplêndida paisagem que circunda aquele lugar, e os páraquedistas que gozavam a liberdade de passear na atmosfera, e um cego misturado num dos cachos da criançada que se deslocou avidamente para ali com a intenção de dar festa à alma. Ninguém prestava atenção ao homem que perdeu para sempre a dádiva de ver tudo isto que Deus criou com amor. Mas eu apaixonei-me imediatamente por ele. Saía de vez em quando do lugar VIP onde eu estava instalado na qualidade de membro da direcção do aeroclube, para estar mais perto deste actor que me faz lembrar Ray Charles.

Ele tem a cabeça erguida para o espaço sideral, abana-a sempre que ouve o roncar dos motores das aeronaves que voam no espaço. Sorri acompanhando as palmas que troam ao “cair” de um pára-quedista que acerta no alvo. E ninguém lhe liga, nem as crianças que o envolvem, que o apertam sem dar por ele, que se unem a ele sem perceberem que no seu seio está um homem que não vê nada, mas que ali está com eles celebrando a liberdade de estar no espaço, como o fazem todos os dias os pássaros.

Não consigo conter a intensa comoção de ver um cego no meio daquelas crianças que nem sequer o vêem, nem sequer o sentem. Ele abana a cabeça perscrutando a posição das máquinas aéreas, imaginando provavelmente a posição dos pára-quedistas. E eu estou ali, entre o absorver espiritual da arrebatadora paisagem e do êxtase de ver um homem em queda-livre numa altitude de morte, e de uma figura cega. Completamente cega.

Mas toda esta beleza arrepiante parece surreal. As crianças nunca estão no mesmo lugar. Elas movemse como o vento que está constantemente a mudar de direcção. As autoridades policiais destacadas para ali têm de estar em permanente vigilância. Depois de os petizes serem admoestados por pisarem a “linha”, eles voltam para trás, porém, volvido pouco tempo, eles vão pisar outra vez a “linha”. Quer dizer, os miúdos comportam-se como passarinhos rebeldes, recusam as gaiolas. Querem voar em liberdade, como “voam” em liberdade os pára-quedistas, com a diferença de que, enquanto aqueles voam em direcção à terra, eles querem voar ao encontro do Céu, e a Polícia não os deixa voar.

A banda municipal do saudoso Tsungu Thsoni está ali, também em liberdade, passando o mandado de soltura à enxurrada dos sopros levados no peito. A música, tocada em cada salto dos pára-quedistas, desperta ainda mais a vontade de ser como os anjos que mora nas crianças. Elas foram feitas para voar, e a Polícia não as quer deixar voar. Elas apaixonamse pelo céu azul, cantam com a banda, e dançam. Querem invadir a placa de estacionamento dos aviões, desejam sentir toda aquela festa a partir da pista de descolagem e aterragem. Mas a Polícia não permite.

O cego é abalroado neste movimento todo. É abanado para todos os lados. Para a direita e para a esquerda. Para a frente e para trás. Mas ele não se perturba. Também bate as palmas com a bengala apertada no sovaco do braço esquerdo. Sorri com os dentes de brancura imaculada. Delira sem limites e eu aproximo-me mais dele. Quero estar junto de um personagem que me faz lembrar Ray Charles, e não consigo conter a vontade de lhe dirigir a palavra. Passei o meu braço esquerdo por sobre o seu ombro, abraçando-o.

– Tudo bem, meu irmão?

– Quem é você?

– Chamo-me Alexandre Chaúque.

– Ah! Abraçámo-nos fortemente, e ele disse-me: “Está muito bonito, isto!”.

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