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Um baú misterioso!

Um baú misterioso!

Há apenas dois sentidos, o real e o metafórico, em “O Baú do Pinto Zulo” – uma exposição de artes plásticas inaugurada na última quarta-feira (18), na Mediateca do BCI, em Maputo, pertencente ao artista moçambicano Pinto Zulo -, e nitidamente eles ajudam-nos a perceber, nas duas vertentes, o seu mistério. Realmente! Através da madeira e zinco da Mafalala, das “mamanas” de capulana, das crianças a brincar, da paisagem suburbana, Pinto mostra-nos o que vem na sua alma: a alegria e a dor.

São obras sem títulos nem legendas, o que cria um misto de sentimentos a quem as aprecia. O belo, caracterizado pelas suaves e lindas cores, ofusca a mensagem dos quadros, guiando o público, desta forma, a análises um tanto subjectivas. E isto é bom, pois, a ser verdade, os artistas falam de um forma bonita e delicada – com qualquer tipo de técnica. Eles fazem-nos perceber as atrocidades que assolam a nossa sociedade, acometendo algum segmento social e não só.

Como regra geral, há também pessoas que, por pura ignorância ou outro propósito, desconsideram o centro da questão, avaliando as artes plásticas, ou qualquer outro oficio artístico (no que diz respeito à interpretação da mensagem que contêm) como algo lindo, engraçado ou, na pior das hipóteses, simplesmente decorativo.

E não se pode fingir. Isto é normal para os supostos apreciadores e consumidores das artes em Moçambique. Todavia, está-se longe de se afirmar que o engraçado é supérfluo numa obra de arte. E não se está a dizer, de forma alguma, aqui, que as obras de Pinto Zulo – que jazem no Espaço Joaquim Chissano até o dia 28 de Março em curso – não sejam de molde a provocar entusiasmo com as suas cores.

Enfatiza-se, porém, que esse não é o aspecto essencial. De todas as formas, o criador quis explorar os atributos do bairro que lhe viu nascer e também o que, diariamente, constata na sociedade, como, por exemplo, o impávido olhar, diga-se, melancólico. “Zulo é só o apelido. Não tem nada a ver com o grande guerrilheiro sul-africano, Shaka Zulu, mas talvez, em última análise, se conclua que ambos têm a mesma majestade, um na arte da guerrilha, este na criação artístico-cultural”.

No entanto, se, por um lado, Pinto se inspira na quotidianidade da sua comunidade para esboçar os seus trabalhos, por outro, a mesma influência estende-se a vivos e mortos, heróis da Mafalala.

À guisa de exemplo, diversas obras prestam homenagens a José Craveirinha, Noémia de Sousa, ao compositor e intérprete Fany Mpfumo, ao jogador de futebol Eusébio, que se consagrou no Benfica e na selecção portuguesa e a líderes da Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo), como Samora Machel e Joaquim Chissano, os dois primeiros Presidentes do país depois da independência.

Um mistério artístico Se além do belo a mensagem é uma das componentes mais importantes de uma criação artística, que conteúdos se pretendem, afinal, disseminar com as obras deste principiante nas artes? A imagem que serve de mostra do catálogo da exposição resume as dezenas de obras do artista. Isto é totalmente metafórico.

O que teria a revelar uma chaleira no lume feito a partir da lenha? Para interpretar, comecemos por analisar a mensagem da lenha que está lá. Coincidentemente, a então “cidade de caniço” é comummente conhecida pelas suas condições desastrosas, pela imundice e pela pobreza que afecta, quase, todos os seus residentes. No entanto, devido ao alto custo de vida, a lenha (madeira seca) sempre foi indispensável na vida de uma família humilde (laia-se pobre).

Mas também, em Moçambique, principalmente nas zonas mais recônditas e no subúrbio, falar da lenha é o mesmo que falar de Deus. Sim, pois, se para os cristãos o Senhor é a salvação e a garantia do pão de cada dia, para eles, a lenha também tem as mesmas funções. Verdade ou não, é facto irrecusável que, no “O Baú do Pinto Zulo”, a chaleira representa o quotidiano. É um novo amanhecer. É esperança. É uma necessidade eterna.

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