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Um artista eternamente (de) ambulante!

Um artista eternamente (de) ambulante!

Podia ser um ícone da música ligeira moçambicana. No entanto, com mais de 30 anos de carreira, não possui sequer um trabalho discográfico registado. Presentemente com problemas visuais, Leonado Langa é a metáfora de muitos artistas moçambicanos para quem a nossa legislação cultural é uma miragem.

Dedica-se à música há mais de 30 anos. Possui cerca de 100 composições musicais, no entanto, para si, um estúdio de gravação musical não passa de uma ilusão.

Orgulhoso com o destino para o qual a vida o conduziu, o de se ter tornado num artista ambulante, diariamente, Leonardo Langa deambula pela cidade de Maputo onde (sobretudo nos lugares densamente frequentadas por pessoas de origens diferentes como, por exemplo, os espaços comerciais) cantando não somente encanta os moçambicanos como também consegue granjear o seu apoio, em sentido material, com o objectivo de garantir a sua sobrevivência.

A referida actividade artístico-musical migratória é realizada por Leonardo há mais de 20 anos. Ou seja, desde 1990, desde quando, vítima de um acidente laboral, o cantor perdeu (parcialmente) a visão: “não tenho outra alternativa para garantir a minha sobrevivência”, a firma.

Na verdade, cantar em espaços populares como os mercados podia efectivamente ter sido a consequência do facto de Leonardo ter tido um acidente que lhe valeu a de ciência visual, o que não é verdade. A cegueira (apenas) aguçou a sua paixão pela arte de cantar nas ruas.

Facto, porém, é que os acontecimentos de há mais 20 anos para cá, altura em que Leonardo Langa era funcionário da actual empresa dos Transportes Públicos de Maputo (TPM), não somente comprovam que uma prática leviana pode tornar- se num vício, como também que os mesmos se constroem à custa da repetição.

“Quando obtive a minha primeira viola, por volta dos anos 1990, sucedeu que em certo dia senti muita fome, mas com material para trabalhar, a guitarra. Saí do trabalho com destino ao mercado de Estrela Vermelha (recordo-me de que na altura as barracas comerciais acabavam de surgir), onde cantei algumas músicas para as pessoas que se encontravam no local, de tal sorte que acabei por granjear a sua simpatia, o que moveu-lhes a ofertar-me algum dinheiro. Naquele dia, consegui resolver o meu problema: a fome”, narra Leonardo em jeito de recordação.

A partir daí, diga-se, para Leonardo ficou claro que era possível resolver os problemas de sua subsistência com realizando trabalhos lúdicos e honestos. O que o artista não sabia é que tal atitude evoluir, e consolidar-se como o único meio para a sua sobrevivência.

De qualquer maneira, “foi assim que em mim se instalou esta vontade permanente para ser um artista ambulante. Comecei a cantar sistematicamente em diversos lugares públicos da cidade de Maputo. Tornei-me num artista de rua. Mas na mesma ocasião, eu actuava em certas colectividades musicais como, por exemplo, Central Line, e Homba Mo. O que sucedeu é que nos agrupamentos musicais moçambicanos, às vezes, tem havido uma desorganização que coloca em causa a sua estabilidade”.

O artista defende que “muitos problemas que instabilizam alguns artistas consorciados para produzir arte são originados por questões de natureza financeira”.

Discípulos bem-sucedidos

Ao certo, Leonardo Langa não sabe explicar por que razão, apesar de ter tantos anos de dedicação à música, tendo passado por diversas agremiações culturais, algumas das quais bem conhecidas no espaço nacional, em que contribuiu para a formação musical de alguns conceituados cantores moçambicanos, não conseguiu sequer gravar um trabalho discográ co. Fala- -nos da existência de inúmeras di ficuldades no panorama a música nacional.

Agora, “nesta situação, um artista como eu que nunca gravou nenhum trabalho discográfico é difícil ser bem sucedido: ainda continuo a ser um cantor ambulante enquanto formei certos artistas moçambicanos, alguns dos quais muito conhecidos e que actuam em grandes palcos na Europa. E aqui podemos apontar os exemplos de Patrício Augusto, Vicente Cossa e Luísa Boaventura que aprenderam a dar os primeiros passos da sua carreira artística comigo”.

“Mas, por que razão Leonardo Langa não conseguiu publicar nenhum trabalho discográ fico?”. Novamente, formulámos a mesma questão ao que nos explica que “o que sucedeu é que, no passado, a única instituição que se dedicava ao registo de trabalhos musicais era a Rádio Moçambique. Mas não era fácil ter acesso ao estúdio.

Nós, os artistas moçambicanos, somos muitos e não era possível abarcar a todos no mesmo estúdio. Ora, nos dias que correm, apesar da aparente facilidade, as di ficuldades são enormes porque nós, os músicos, continuamos sem dinheiro para financiar a produção discográfica”.

Como tudo começou

Responder esta pergunta é o mesmo que explicar a história de Leonardo Langa em relação à música. Como tal, não há nada melhor que começar por considerar que o artista nasceu a 18 de Dezembro de 1958, em Chidenguele, na província de Gaza.

A sua carreira artístico-musical começa logo depois da sua partida de Gaza para a capital moçambicana, Maputo, onde vinha dar continuidade ao seu ensino. O artista, ainda criança, foi inscrito na Escola Primária São Francisco cujas instalações, actualmente, são exploradas pela empresa de Transportes Lalgy.

Na altura, o seu pai, Salomão Langa, trabalhava em Lourenço Marques (actual Maputo) daí que, uma vez casado, criou condições para que “a sua família, incluindo os filhos, passasse a viver na capital o que foi bom na medida em que possibilitou que eu estudasse”, considera Leonardo.

Alguns anos depois, o nosso interlocutor passou a frequentar a Escola Primária Manuel Bulosa que, nos dias que correm é conhecida como Escola Primária de Bagamoyo, na cidade da Matola, de onde saiu para o Centro Missionário da Santa Maria, a hodierna Unidade H, ainda na município matolense, até concluir a 4ª classe. Leonardo Langa formou-se em serrilharia na Escola de Artes e Ofícios e Elementar da Agricultura de Umbeluzi, na província de Maputo.

Sobre este período peculiar do seu percurso, o cantor recorda- -se de que a sua carreira musical ganhara ímpeto, sobretudo, quando no ano de 1984 se associou ao grupo Xirho Xamutapa.

A partir daí muitos outros grupos como, por exemplo, Xibedjane, Luz da Manhã, Os Ilimitáveis (neste último foram membros integrantes músicos como Magid Mussá e Humberto Benedito) se formaram “até que a dado momento passei a não ser membro da banda Os Ilimitáveis a favor da colectividade musical Os Viajantes de que faziam parte cantores moçambicanos como Feliciano Sigaúque, Luísa Boaventura e Maria Miguel”.

No entanto, a partir de 1988, devido ao facto de alguns integrantes do mesmo grupo – como aconteceu com muitos moçambicanos – terem partido para a República Democrática Alemã (RDA), Os Viajantes dispersaram-se. Em resultado disso, Leonardo considera que ficou “sem um conjunto para trabalhar”, mas alguns anos depois, “passei a trabalhar como actor na Casa de Cultura do Alto-Maé, em Maputo, onde fui integrado no Grupo Teatral Phapalate”.

Cantar para sobreviver

Dez anos depois do seu nascimento, em 1958, Leonadordo Langa tornou-se órfão de pai, o que aconteceu em 1968. Algum anos depois, o jovem formou- -se na área de serrilharia que lhe valeu um emprego para assegurar a subsistência da sua família, uma vez que a sua mãe, Avelina Kalanga, não tinha meios para o fazer.

É como o artista refere: “depois da minha formação, como era órfão de pai, passei a trabalhar na Companhia Transportes de Moçambique que, mais adiante, em resultado da uni ficação das duas empresas, Companhia de Transportes de Moçambique e Serviços Municipalizados de Viação, criou-se os TPU de que, finalmente, derivou a actual empresa Transportes Públicos de Maputo (TPM)”.

“Foi nessa empresa onde tive um acidente que me prejudicou a vista”, comenta o artista que esclarece que “não sou cego de nascença, muito menos na totalidade. De facto, o trabalho de artista ambulante foi iniciado em 1990, altura em que eu trabalhava na empresa TPM. A partir daí em diante, a minha sobrevivência, como não tenho mais nada a fazer, passou a depender dos concertos de rua”.

É desta forma que se pode explicar a manifestação do percurso artístico musical de Leonardo Langa. Um artista cujas obras – exibidas de forma acústica – podem ser exploradas em qualquer momento nos diversos locais da cidade de Maputo.

A vida é dura

Na verdade, as músicas de Leonardo, em certo sentido, com a excepção das composições em que o artista agrega algum valor imaginário e, por conseguinte, fictício, espelham a realidade da sociedade moçambicana. Além do mais, é nela que o artista busca a sua inspiração a partir dos seus grandes feitos, assim como nos aspectos negativos, os quais critica.

“Sou um artista incansável daí que sempre que acontece algo no espaço social, fico inspirado para compor uma letra musical. No entanto, magoa-me estar constantemente a produzir músicas para serem simplesmente coleccionadas. Não tenho como promover a minha arte ao mais alto nível perante os moçambicanos, porque não tenho possibilidades de registá-las em formato físico”, comenta o artista ao mesmo tempo que arranja uma forma de se autoconsolar:

“como, presentemente, tenho uma lha de três anos, pretendo arranjar meios de registar tais obras nalgum suporte físico de modo que a menina, já crescida, se por ventura, se interessar pela música possa aproveitar o meu espólio”.

É que, “a vida é dura. Ela torna- -se mais pesada a cada dia que passa. Isso faz com que viver seja uma arte pesada, não somente para mim, como também, para toda a sociedade: as pessoas ficaram mais egoístas e menos solidárias”, considera.

Projectos

Em relação ao campo de projectos, Leonardo Langa tenciona publicar os seus trabalhos discográ ficos, mas o maior problema é que em Moçambique há di culdades de acesso ao financiamento para as iniciativas de artistas: “onde vou pedir apoios?”

Foi nesse sentido que lhe perguntámos se sabia que o Governo moçambicano havia aprovado, muito recentemente, um regulamento para a área dos espectáculos e que, em certo grau, o mesmo bene ficiava mais os músicos.

O artista, simplesmente, comentou: “É possível que o Governo tenha aprovado o Regulamento de Espectáculos mas, como eu não tenho nenhum aparelho de radiodifusão, há muita informação que me passa despercebida. Não tenho nenhuma ideia sobre como é que o referido instrumento me pode ajudar na realização dos meus projectos musicais”.

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