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Um artista de mão cheia

Hortêncio Langa está decepcionado com a cidade de Maputo

Aos 60 anos de idade – grande parte deles dedicados à música – Hortêncio Langa continua igual a si mesmo. É intérprete, compositor, escritor, musicólogo e artista plástico, mas a música é a arte que se lhe cola quando o seu nome vem a terreiro.

 

 

Na última edição do Festival Marrabenta – um evento cultural que anualmente eleva ao expoente máximo a música nacional – Langa extasiou os apreciadores da Marrabenta cantando o sucesso Alirhandzo – um tema que marcou gerações.

“O evento serviu para desanuviar e/ou destruir a ideia que se tem sobre a existência de desavenças entre os jovens e os velhos ao nível da música”, comenta o artista que acrescenta: “é um imbróglio que não faz sentido. O festival acabou provando isso, a partir da promoção da colaboração a que se assistiu entre as gerações de músicos. O festival foi uma oportunidade para uma troca de experiências; criou um espaço de troca de emoções e de saberes entre os músicos”.

Para o músico, “nunca há uma barreira efectiva entre uma geração e outra”, mas, no que respeita ao conhecimento da arte e, sobretudo da cultura, “desde sempre houve uma passagem de testemunho dos mais velhos para os mais novos. E os mais novos, por sua vez, adquirem novas ideias, transformam-nas para transmiti-las às gerações seguintes. Portanto, as gerações funcionam assim”.

No dia 28 de Fevereiro último, no CCFM, Hortêncio Langa deu um golpe de mestre ao simular abandonar o palco sem cantar o “Amor” (leia-se Alirhabdzo). O público, sedento de uma viagem sem precedentes ao som da boa música, sentiuse traído. Mas, “nada foi planifi cado. O facto é que não havíamos ensaiado o tema Alirhandzo. Como o público exigiu não tivemos outra opção a não ser satisfazê-lo, cantando o tema”, esclarece.

Para Langa, o importante é que ficou claro que o tema Alirhandzo “já caiu nas graças do público, de maneira que se tornou obrigatório, mas o mais importante ainda é que esta música marca a presença do seu autor”.

Internacionalizar as artes moçambicanas

Que Hortêncio Langa é um artista multifacetado não há dúvida. Não obstante, quando se acresce à pintura nas demais artes a sua característica de multifacetado consolidase.

“A característica do artista multifacetado é um dom natural. Penso ainda que, de algum modo, todo o artista tem uma tendência para compreender ou ter sensibilidade para as outras expressões artísticas. Quer dizer, é quase normal que um músico tenha uma inclinação para a pintura ou para a literatura e vice-versa” comenta o artista que também estudou pintura decorativa em tempos idos.

“Todo o artista que se dedica à arte tem pretensões naturais, para que a sua arte seja expandida para outras dimensões geográfi cas, e amplia os seus sonhos e pretensões em volta do que faz”, afi rma quando questionado sobre se havia alguma relação entre as suas mil faces artísticas e a necessidade de internacionalizar a arte música moçambicana que o artista expressara na sua tese sobre a internacionalização da música moçambicana.

O que se diz sobre Hortêncio Langa

@Verdade conversou com alguns artistas que esta noite participarão no concerto das bodas de diamante de Hortêncio Langa. A expectativa é enorme e pronunciada. Todavia, os mais ousados garantem que será o melhor concerto do ano. Para Wazimbo o concerto trespassa a mera dimensão de celebração de uma data natalícia, mas sim será um momento de refl exão e balanço.

Wazimbo, o autor de Alirhandzo, tema que é igualmente explorado por Hortêncio Langa, adjectiva o aniversariante de “homem determinado, de carácter profundo, com ideias orientadas por diversas convicções. É tenaz e não desiste das suas metas antes de alcançá-las”.

Além de ser um artista exímio, Hortêncio Langa é uma “pessoa que não se deixa abater por nada. Nele encontramos um músico, escritor e fazedor das artes plásticas. Homem auto-confiante, de quem se pode aprender a humildade. Apesar do estatuto que ostenta, sabe situar-se no tempo e no espaço”, diz.

Se não fosse o facto de a música se ter imposto, Wazimbo revela que Hortêncio Langa seria um grande futebolista. Daí que o concerto não servirá somente “para comemorar o aniversário de Langa. Mas é, também, uma ocasião para refl ectir e fazer um balanço dos nossos percursos desde quando decidimos apostar na música ainda crianças”.

José Mucavel, outro gigante da música moçambicana que esta noite irá emprestar a graça da sua voz para enlevar Langa e o público, revelou ser um fã incondicional.

A cumplicidade que Mucavel tem com Langa não se restringe à música. Expande-se pelos diversos aspectos da vida. Com Hortêncio Langa “cresci e, curiosamente, de mim ele aprendeu a utilizar os primeiros instrumentos musicais – a viola. De maneira que, além de irmão, Hortêncio Langa é dos poucos que em Moçambique considero fenómeno na arte”, afi rma Mucavel.

Para Mucavel, Hortêncio Langa tornou-se “o melhor compositor da música ligeira moçambicana e, consequentemente, meu no ídolo. Por isso, com todas as pompas e circunstâncias que um ídolo merece, digo que sou seu fã incondicional”.

E critica: “esta sociedade é um pouco ingrata e, por vezes, sem cultura de cultura. Porque quando se trata de eventos desta natureza, em que artistas como Hortêncio Langa interpretam a cultura moçambicana, e os mesmos são pouco concorridos pelos jovens, isso signifi ca que o país precisa de um antídoto porque está doente. Para dizer que a celebração dos 60 anos de Hortêncio Langa é um evento de parar o país. Porque ele é uma fi gura pública de Moçambique, e não somente Maputo”.

Já o revendendo Arão Litsure, célebre figura da música e literatura moçambicana, apelida Langa de “melhor compositor da nossa praça”. Daí que “estou me preparando para que a minha pequena aparição em concerto lhe preste uma grande homenagem. Afi nal, ele é o melhor compositor da música moçambicana. Nas suas músicas, sentimos que as suas composições possuem todos os condimentos para alegrar aqueles que têm bom ouvido”.

Litsure assegurou que “não é por acaso que algumas das suas composições são veiculadas e interpretadas por outros artistas do país”. Sobre a humildade de Hortêncio Langa, Litsure afi rma que “o profeta da casa nunca é elevado”. É por isso que a “humildade de Hortêncio Langa não realça aquilo que ele é. Mas, se observarmos com atenção aquilo que produz, perceberemos que estamos diante de um colosso das artes”.

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