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Um ano depois, derrame da BP ainda causa doenças

Quando os moradores de Jean Lafitte, no Estado da Louisiana, nos Estados Unidos, ficaram a saber da explosão da plataforma da British Petroleum (BP), o prefeito Tim Kerner incentivou todos a unirem-se para limpar as águas do Golfo do México.

Foi a única coisa que lhe ocorreu fazer para impedir que o óleo destruísse a sua comunidade, cujos integrantes trabalharam dia e noite com esse objectivo.

Agora, um ano depois de a BP ter conseguido fechar o poço que acabou por espalhar o equivalente a cinco milhões de barris de petróleo no Golfo do México, a maioria dessas pessoas está doente.

“Temo que os meus vizinhos venham e digam: não te teria ouvido e continuado com o trabalho se soubesse que isso me mataria”, disse Kerner.

A sua história foi uma das muitas compartilhadas por Kerry Kennedy, presidente do Robert F. Kennedy Center for Justice and Human Rights (RFK – Centro Robert F. Kennedy para a Justiça e os Direitos Humanos), numa conferência realizada no dia 27 de Julho, um dia depois de ter enviado uma delegação à costa do Golfo do México para avaliar o alcance da crise sanitária causada pelo derrame.

“Os moradores da área estão doentes. Desconhecem a causa exacta da enfermidade, mas, como nunca sofreram desta maneira antes do derrame e todos participaram na limpeza nos seus barcos de pesca, suspeitam que tenha algo a ver com as toxinas”, disse Kennedy.

O óleo começou a espalhar-se no dia 20 de Abril de 2010, quando a plataforma de exploração Deepwater Horizon, que a BP arrendara da firma suíça Transocean, explodiu e dois dias depois afundou. Somente em Junho daquele ano foi possível conter o derrame.

Segundo Anne Rolfes, directora fundadora da organização ambientalista Lousiana Bucket Brigade, quase 75%, dos que estiveram em contacto com o petróleo ou o dispersante nele despejado disseram ter apresentado sintomas que correspondem aos da exposição química.

A organização de Rolfes associou-se à Academia de Liderança em Resiliência a Desastres, da Universidade de Tulane, para realizar uma pesquisa com a população que vive nas comunidades afectadas.

“Tosse, irritação respiratória e ocular foram os sintomas mais comuns”, disse Rolfes. Os consultados “descreveram que os sintomas apareceram e desapareceram repentinamente, e isto seria consistente com uma espécie de onda de exposição química, mesmo quando se considera aspectos como as alergias”, acrescentou.

Contudo, Kennedy disse que os médicos da área não estão certos quanto à vinculação dos sintomas dos seus pacientes ao petróleo.

“Não têm a perícia necessária para fazer um diagnóstico em toxicologia, não sabem como tratar esse diagnóstico, e se tentarem tratá-lo correm o risco de perderem as suas licenças médicas”, afi rmou.

“E numa região predominantemente rural onde a maioria dos pacientes é de trabalhadores independentes e sem nenhum seguro, os centros médicos ficam muito longe e o acesso a especialistas em toxicologia é quase impossível”, acrescentou Kennedy.

Mesmo que os conhecimentos estejam disponíveis, “poucos podem pagar os caros exames e remédios necessários para tratar um envenenamento”, continuou. Nessa ocasião, os colegas de Kennedy expressaram a esperança de que o Congresso norte-americano preserve o financiamento de uma rede de “centros de excelência” em matéria de saúde.

Esta cobrança é oportuna, quando o debate sobre o orçamento sacode os parlamentares com pedidos de redução de fundos para programas cruciais para as vítimas pobres do derrame de petróleo, que agora têm novas preocupações relacionadas com a saúde.

“Pensamos que é uma crise séria, e o governo federal tem de aferrar-se a isso de um modo mais agressivo e dar os meios para garantir que as centenas de milhares de pessoas afectadas pelo derrame tenham cobertura de saúde”, enfatizou Philip Johnston, presidente da directoria do RFK Center.

Houve pouca menção à BP e aos seus sócios, os quais, enfrentando as possíveis ramifi cações legais do desastre, comprometeram-se a criar um fundo de compensação de 20 biliões de dólares para ajudar os prejudicados pelo derrame.

No começo de Julho, o procurador-geral dos Estados Unidos, Eric Holder, informou a Kenneth Feinberg (designado para administrar as demandas relacionadas com a BP) que o Departamento de Justiça iniciaria uma auditoria independente com base em críticas à transparência do processo seguido por Feinberg.

Um informe, apresentado no dia 25 de Julho, diz que o processo é um “fracasso abjecto”, e que até agora o fundo pagou apenas 16% das demandas apresentadas.

Um estudo da organização Advogados pelos Direitos Humanos Ambientais (AEHR) reportou discrepâncias no modo como Feinberg administrou as reclamações de fundos de desastres anteriores pagos com dinheiro de contribuintes – como o caso do 11 de Setembro de 2001 – e as do Fundo de Compensação do derrame Petrolífero da BP, cujos pagamentos derivam da própria companhia petrolífera.

“Concluímos que, em desastres anteriores, os que apresentaram reclamações não precisaram de mostrar provas de causalidade. Tudo o que precisaram de fazer foi dizer que estavam doentes” e que estavam nesse lugar, disse Michele Roberts, coordenador de campanhas e políticas da AEHR.

No caso do fundo de compensação da BP, os moradores da área do Golfo ficaram a saber que as suas reclamações são rejeitadas se não pode provar que a BP ou o dispersante usado são a causa da sua doença, disse Roberts, acrescentando que a inconsistência é “uma violação directa dos direitos humanos”.

Rolfes disse que, enquanto não vir a construção de centros de saúde em cada distrito prejudicado pelo derrame, não considerará que a resposta foi adequada.

“Agora precisamos de atenção com a saúde e isso deveria ser financiado pela BP. Não está certo que seja o contribuinte a arcar com os gastos do desastre petrolífero causado pela BP”, afirmou.

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