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Um ano cheio de livros em forma de cartão

Um ano depois da sua criação, a Livaningo Cartão d’Arte – uma editora “cartonera” – está longe de abranger, na totalidade, o seu público. Não obstante o facto de ser muito procurada, alguns dos seus públicos-alvo não a compreendem. De qualquer modo, ao longo do percurso, os seus dirigentes chegaram a uma ilação: “É muito melhor publicar nas editoras artesanais do que engavetar os livros”. Pelos seus feitos, hoje, 24 de Maio, há festa na aldeia. O ponto de encontro é a Casa da Paz, no bairro de Laulane, em Maputo. A seguir, Elcídio Bila – escritor e coordenador da organização – explica alguns aspectos afins…

@Verdade: Na história das editoras “cartoneras”, em Maputo, Luís Madureira, com a sua Kutsemba Cartão, é uma figura incontornável. Foi da sua iniciativa que surgiram outras organizações do ramo. O que vos moveu a criar a Livaningo Cartão d’Arte? Elcídio Bila

(EB): Nós, os estudantes da Faculdade de Letras e Ciências Sociais (FLCS/UEM), participámos numa oficina promovida, localmente, pelo Departamento da Comunicação e Imagem, para a criação de livros de cartão. Tratava-se de uma ideia original trazida pelo professor Luís Madureira. Mas quando a iniciativa terminou, sentimos que havia uma necessidade de se dar continuidade à criação de livros de cartão no país.

Foi nesse sentido que, quando retornou aos Estados Unidos, o docente deixou-nos a missão de dar continuidade ao trabalho iniciado. Podíamos manter o nome Kutsemba Cartão ou criar uma iniciativa paralela. Sucedeu que nós que havíamos participado na oficina juntámo-nos e criámos a editora da FLCS que servia apenas os interesses da faculdade. Trabalhámos e publicámos algumas obras. Mas, com o passar do tempo, tivemos de nos afastar da instituição.

Queríamos desenvolver um projecto autónomo. Em resultado disso, em Maio de 2012, criámos a Livaningo Cartão d´Arte. Ou seja, nós não quisemos continuar a utilizar o nome Kutsemba Cartão – cuja editora está sob direcção de Paulo Gwambe – numa altura em que existia outra iniciativa similar levada a cabo pelos alunos da Escola Secundária Eduardo Mondlane.

@Verdade: Que história tem o nome Livaningo Cartão d’Arte?

EB: O nome tem a ver com o facto de que queríamos que a nossa editora tivesse uma identidade diferente, parecida connosco e mais moçambicana. A ideia de agregar a expressão Cartão d´Arte é relacionada com a necessidade de se publicar algo à margem do que se havia introduzido por Madureira, os textos literários. Por isso, incluímos no rol das nossas publicações fotografias e criações dos artistas plásticos.

Queríamos ampliar a nossa esfera de publicação, abarcando outras formas de expressão artística não obstante o facto de que os criadores destes ramos não têm demandado os serviços. O nosso grupo editorial é composto por três pessoas dentre as quais eu, Elcídio Bila, José dos Remédios e o pintor Jossias Gwambe.

@Verdade: Porque é que se afastaram da Kutsemba?

EB: Pretendíamos dar espaço aos escritores emergentes, muitos dos quais não têm a possibilidade de publicar os seus livros nas editoras convencionais e, por meio disso, expandir a literatura nacional para outros cantos do país através da venda de livros a preços baixos. Também queríamos contribuir para que muitas pessoas passassem a participar nas cerimónias de lançamento de livros – as quais devem deixar de ser eventos estranhos e assustadores, confinando-se a uma certa camada social.

Por essa razão, nos nossos rituais de publicação de livros não valorizamos muito a mesa redonda e os demais artefactos que ‘elitizam’ o acontecimento. Estamos mais preocupados em criar cenários capazes de acolher as pessoas e que possibilitem que elas compreendam de que é que trata o livro, sob o ponto de vista do conteúdo.

@Verdade: Com que tipo de temáticas começaram a publicar livros?

EB: Começámos de forma diferente publicando uma tese de licenciatura – que é um ensaio – e uma novela. São dois géneros literários que não são muito aprofundados nas outras editoras.

@Verdade: Quais é que têm sido as dificuldades da editora?

EB: As nossas dificuldades são, acima de tudo, financeiras. Não tem sido fácil fazer a multiplicação dos livros. Conseguimos imprimir entre 30 e 60 exemplares. Gostaríamos de fazer mais cópias e ampliar as distribuições, oferecendo alguns exemplares às bibliotecas. Infelizmente, esta pretensão está longe de ser concretizada porque o valor ganho na venda dos livros é reinvestido na reprodução de outros.

Em relação ao acesso de espaço para a realização dos nossos eventos, notamos que as pessoas têm sido louvaminheiras para com esta actividade. Mesmo sob o ponto de vista da participação de escritores consagrados na elaboração de prefácios e apresentação dos livros, temos sido acarinhados.

@Verdade: Que percepções erradas as pessoas têm sobre a vossa actuação?

EB: Durante os doze meses em que temos estado a trabalhar, muitas pessoas perceberam a necessidade de lançar um livro connosco. Ou seja, compreenderam que no lugar de guardar um livro na gaveta é preferível torná-lo conhecido através das editoras “cartoneras”. De qualquer modo, muita gente tem a ideia de que publicar um livro é condição para se ter dinheiro – o que não é verdade.

Nós não ganhamos nada e, por isso, não pagamos a ninguém. Isso, agravado pelo facto de não fazermos uma grande tiragem, faz com que a obra não chegue a um grande público. O livro acaba por ser distribuído apenas entre as pessoas que participam nos lançamentos. Então são estas as pequenas dificuldades que fazem com que as pessoas não percebam claramente o trabalho da editora. Precisamos de dialogar mais com o público.

@Verdade: Então, quer dizer que os fotógrafos e os artistas plásticos – que também são o vosso público- alvo – não têm procurado os vossos serviços.

EB: Sim. Eles fazem parte do grupo de pessoas que não compreendem a nossa missão, quer porque não sabem onde nos encontrar, quer porque vêem muitos livros de poemas e contos publicados pensando, por isso, que as editoras só publicam textos.

@Verdade: Como será a celebração do primeiro aniversário?

EB: De facto será um evento de celebração em que – a par do relançamento do meu livro, Xiphefu – se irá promover uma feira do livro, onde serão expostos os 13 títulos já publicados até agora. Queremos contar a sua história, o percurso da editora, as dificuldades que está a enfrentar e abrir espaço para que se apreciem o nosso conceito organizacional e a nossa política editorial.

No Complexo 2BT, na Casa da Paz, no bairro de Laulane, onde o evento irá decorrer a partir da 18 horas, serão combinadas também diversas manifestações artístico-culturais desde a declamação de poesia, a realização de concertos por diversos artistas, a exibição de peças teatrais até shows de dança tradicional.

Irão actuar artistas locais como, por exemplo, Mestre Tchaka, Cândida Dambi, a banda Timbone Ta Jah, o grupo de Teatro Ximbitana, incluindo colectividades que praticam capoeira. O evento terminará na manhã do dia seguinte. Também haverá “DJ’s” que farão a animação musical.

@Verdade: Porque é que escolheram esse lugar para realizar o evento?

EB: A maior parte do nosso público é suburbano. As pessoas que dinamizam as actividades culturais na cidade, nós incluídos, vêm dos bairros. As artes são produzidas nas zonas suburbanas e Laulane é um exemplo. Por isso, realizar a festa do primeiro ano da Livaningo é uma forma de homenagear as nossas origens. Temos a ideia de realizar eventos similares noutros bairros, como forma de atingir a maior parte do público e fazer a produção artística retornar ao local de onde brota.

@Verdade: Quais são os projectos da Livaningo para o futuro?

EB: Todos os dias temos recebido no email cartas de escritores (conceituados e emergentes) a solicitar a chancela e a publicação dos seus livros. Em parte, isso significa que estamos a fazer um trabalho bom. Temos obras para publicar até o próximo ano. No entanto, temos de fazer uma programação para o efeito. De uma ou de outra forma, sentimos que ainda há muito por explorar na literatura moçambicana. Continuaremos a desempenhar o nosso papel.

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