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Turismo em Mocambique: ter praias lindas e fauna exótica não chega

Turismo em Mocambique: ter praias lindas e fauna exótica não chega

“Um país repleto de vida, exotismo e mistérios. De beleza única, onde há pureza por todas as partes. Pudera o mundo conhecer este lugar. Nada haveria de conter o encantamento de todos… Quem aqui vem ou não parte ou volta um dia. Assim é Moçambique. Belo e acolhedor. Alegre e surpreendente. Único e fascinante.”
Com estas palavras inspiradoras, a marca Moçambique propõe-se projectar o nosso país além-fronteiras para cativar potenciais turistas.

Mas nestas mesmas características muitos outros destinos encaixam. Outros destinos que também têm praias de água azul, muito verde da natureza e o amarelo do sol tropical. Destinos que têm também infra-estruturas que funcionam e estão interligadas, uma indústria de turismo montada.

Como podemos ombrear com estes concorrentes?

Apesar dos nossos parcos recursos financeiros, se entramos numa disputa temos que usar as mesmas “armas” que os nossos adversários. Exacto. São adversários, não amigos nem parceiros, porque não podemos ter ilusões ou esperar que os turistas que vêm para destinos aqui na nossa região, que já são parte da rota mundial de turismo, decidam alongar as suas estadias e passar também mais alguns dias em Moçambique.

Porque o fariam? Onde teriam ouvido falar do nosso país? Se é verdade que começam a aparecer algumas notícias sobre Moçambique na imprensa internacional convenhamos que muitas outras notícias aparecem sobre outros destinos na região. Se nós anunciamos numa revista internacional os nossos adversários anunciam em muitas outras publicações de distribuição à escala mundial, anunciam em redes de televisão globais e tiram grandes proveitos da aldeia global que é a internet, entre outros canais e meios de comunicação.

Na altura do lançamento da “Marca Moçambique” o Ministério do Turismo afirmou que esta seria promovida em português e inglês em vários países, entre os quais Portugal, África do Sul, Reino Unido, Alemanha e alguns da Ásia, numa campanha que deverá durar seis meses. Hoje, passados quase 3 meses constatamos apenas anúncios na imprensa local e em algumas revistas internacionais.

Segundo o director nacional de Promoção Turística no Ministério do Turismo, Jeremias Manussa, está prevista para o mês de Maio a continuidade da campanha com o alargamento a outros media, nomeadamente televisão e rádio nacionais.

Mas afinal a quem queremos mostrar a nova marca? Aos moçambicanos? Ou a potenciais turistas estrangeiros?

Segundo Jeremias Manussa, temos estado presentes em algumas feiras internacionais do sector. Mas será que o turista decide para onde vai de férias pelo que vê num pavilhão de uma feira? Quantos turistas tiveram contacto com este marketing durante essas feiras?

É certo que alguns operadores turísticos, nesses países onde se realizam as feiras, possam ter visto a marca e pretendam incluir Moçambique na sua oferta de destinos. Mas sem uma comunicação e marketing integrados a nível internacional, ou mesmo nacional, isto passará despercebido a muitos potenciais turistas.

Um facto é que a marca Moçambique não tem até hoje, passados quase 3 meses do seu lançamento, um website. Quão difícil será fazer um website? Estará, com certeza, ainda em andamento o concurso público para a sua efectivação. Entretanto, centenas de moçambicanos criam todos os dias páginas na web.

Alguns moçambicanos terão ouvido falar em Montenegro ou na Croácia pelos mais variados motivos. Hoje descobrimos, se calhar apenas alguns mais privilégiados que podem assistir a canais de TV globais, que esses países têm praias fantásticas de àguas azuis e quentes, paisagens de cortar a respiração. Moçambique continua por se mostrar.

O que leverá um turista a fazer um safari no Quénia em vez de vir fazê-lo a Moçambique? Natureza e animais selvagens nós temos. Será a desvantagem de apenas termos uma ligação directa para a Europa, via TAP, ou será que nos fazem falta também voos directos da América ou da Àsia? Ou será mais conhecido o Quénia pelo seus belos safaris, que até Hollywood se encarregou de imortalizar? Será por acaso que imagens de leões ou elefantes nas pradarias africanas não são filmadas no nosso país? Porque será que nos poucos filmes de Hollywood rodados em Moçambique não aparecemos como cenário original, (as nossas praias ou os nossos animais selvagens), mas sim como um locação onde é recriado outro país?

Neste assunto de animais selvagens importa destacar que até para o turista moçambicano, e ele existe apesar de ignorado, sai mais em conta ir apreciar leões a um parque transfronteiriço do que fazê-lo no nosso território.

É com agrado que vamos sendo informados de que o nosso país aumentou o número de camas para acolher turistas, como resultado do aumento dos investimentos na área do turismo. Mas será que o turismo resume-se a hotéis bem decorados, praias lindas ou animais selvagens? Onde fica a qualidade do atendimento nestes locais, onde para se fazer pompa emprega-se mão- de- obra local de fraca formação e sem estímulos para fazer melhor? É importante que as estatísticas mostrem que determinado empreendimento gera emprego nas comunidades onde está inserido.

Num recente relatório do World Economic Forum, sobre competitividade no sector do Turismo mundial, Moçambique está entre os piores dez locais para investir nesta área (124º lugar num universo de 133 países).

Neste mesmo relatório, a nossa mão -de- obra na àrea de turismo é colocada em 130º lugar e no quesito dificuldade para a obtenção de visto de entrada estamos posicionados na 122ª posição. Sobre a fiabilidade da nossa PRM estamos no 117º lugar.

Ainda de acordo com o director nacional de Promoção Turística no Ministério do Turismo, a campanha da marca Moçambique também tem por objectivo resgatar o caloroso e amistoso acolhimento com que o povo moçambicano tem encantado estrangeiros há vários séculos. Um dos mais antigos visitantes, Vasco da Gama, designou o nosso país de “terra de boa gente”.

Mas será que o pescador nas praias lindíssimas recebeu a mensagem? Será que o polícia vai mudar a sua atitude? Será menos complicado conseguir um visto de entrada numa fronteira nacional sem desperdiçar horas de espera que muito melhor seriam dispendidas na praia?

É importante destacar que o nosso país está bem colocado, 46ª posição, no que respeita ao esforço do governo em dar prioridade ao sector do turismo. Mas está claro que este esfoço não tem sido suficiente.

A verdade é que não tem sido suficiente não pela falta de trabalho e dedicação de quem trabalha no sector, mas pela inexistência de uma estratégia concertada e articulada entre os vários intervenientes e actores desta indústria.

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