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“…tenho muito dinheiro. Por isso excluem-me”

“...tenho muito dinheiro. Por isso excluem-me”

Depois de suportar toda a chaga comum, enfrentada por qualquer fazedor de arte, na vila católica de Namaacha, o artista plástico moçambicano, Leidito Penga, luta contra a exclusão social praticada pela comunidade local, pura e simplesmente, porque se acredita que, além de dom, ele tem muito dinheiro.

Em Novembro de 2013, a vila fronteiriça de Namaacha experimentou uma dinâmica sociopolítica incomum que se deveu ao facto de, mais uma vez, na sua história como autarquia ter sido palco das eleições para a eleição do edil. Em resultado disso – e dizemo-lo inspirados nos inúmeros depoimentos dessa classe social – os artistas foram explorados para propalar as propagandas dos partidos políticos.

Entrámos nessa onda com o intuito de conhecê-los. Agendámos uma cavaqueira com o jovem Leidito Penga. Artista nato e autodidacta que se dedica à escultura e à pintura. O que se pode dizer sobre este criador? Ele é um homem (artisticamente) sensível.

O seu corpo e alma estão entregues à produção artística. Por isso, não raras vezes, o criador transforma tudo o que está à sua volta – mormente os materiais recicláveis – conferindo-lhes formas de arte. A avaliar pela mensagem que possuem, algumas das suas obras cicatrizam a falta de oportunidade para expor as obras, incluindo a visibilidade social de que a classe, por lá, fala.

Há nas suas obras uma dimensão triangular da relação humana com a arte – o luto, a esperança e a paz. Não se faz muito esforço para construir este triângulo. As cores que emprega – o preto, o verde e o branco – nas suas telas remetem-nos a essas ideias. Leidito Penga é esse poço de riqueza artística, mas precisa de ser descoberto. Ou seja, ele é uma revelação que enquanto não for vista como tal irá abrigar sentimentos de dor, luta e esperança.

Há desafios genéricos – enfrentados por todos os artistas – que ensombram a relação de Leidito Penga com as artes plásticas. Tais situações podem ser descritas da seguinte maneira: “Em Moçambique as pessoas que têm poder e dever de apoiar o desenvolvimento das artes são indiferentes. Muitas vezes condicionam os seus apoios ao sector das artes. E nós, os artistas, à partida, não temos nada além da arte para lhes oferecer”, diz.

Por essa razão, de acordo com esse criador, a indiferença dos políticos – ou a sua falta de ideias para o desenvolvimento das artes – é um contra- -senso grotesco. “Se todos nós – incluídos os políticos e os artistas conceituados – apostássemos nas artes, havendo essa relação de entreajuda, penso que podíamos construir uma sociedade culta e com espírito de irmandade, reduzindo-se o egoísmo e a inveja que se glorificam”.

Autodidacta

A vila de Namaacha é conhecida por fazer fronteira com a Suazilândia, mas as cascatas e montanhas que possui são outras referências a ter em conta. Tomando esses dois últimos elementos como fonte da sua inspiração, Leidito Penga afirma que ele é um artista nato que não teve nenhuma influência humana – na sua alfabetização artística – além da natural.

De uma ou de outra forma, porque o aprecia, este jovem reconhece na figura de Malangata Valente Ngwenya um mestre incontornável na pintura. “Na verdade, o meu gosto pelas cores e pelo barro desenvolve-se quando eu era criança. Logo percebi a minha necessidade de criar coisas inexistentes a partir de desenhos livres, incluindo o reaproveitamento do barro”, refere.

Narra o artista que ao longo da sua infância “comecei a conferir uma existência pictórica a todos os objectos que agradavam a minha vista. E, desse modo, o meu sentido de arte e de artista foi-se construindo em conformidade com a minha socialização como homem. Portanto, observei os males, as alegrias e as mágoas da sociedade e, ao procurar retratá-los a partir do barro ou da pintura, tornei-me artista”.

Nos últimos anos, nessa ansiedade de ver o seu trabalho artístico transpor as montanhas de Namaacha em que se inspira a fim de ocupar uma galeria de arte e ser apreciado pelo público, começou igualmente a pensar na arte como fonte de rendimento. O elevado custo de vida e a falta de apoio são outros factores que consolidam esse pensamento mercantil. “Estou há anos a tentar caminhar como profissional, mas a falta de oportunidades faz com que não consiga nem tirar o pé do chão, para dar o primeiro passo”.

As (in) compreensões sociais

Em reconhecimento do seu trabalho e da necessidade que possui, a Escola Secundária de Namaacha concedeu- -lhe uma sala que, tendo alguns anos funcionado como capela, o artista explora-a como atelier. Comentando sobre a suposta desvalorização do artista moçambicano, no seu próprio país, Leidito considera que isso tem como propósito perpetuar as encomendas que se fazem à produção estrangeira.

No capítulo da relação entre artistas e a comunidade local, Leidito Penga considera que nada é salutar. É, em certo grau – mesmo que difícil de perceber – uma conexão que se baseia nos princípios de animosidade. As pessoas de Namaacha pensam que além dádiva de criação que Deus lhe concedeu, o artista tem muito dinheiro. Em resultado disso, excluem-no do convívio social.

“Por inúmeras vezes fui excluído do convívio social pela comunidade, simplesmente porque pensam que tenho muito dinheiro. As pessoas não aceitam que os artistas também sofrem e, muitas vezes, muito mais que os outros”. De acordo com o artista, manifestações de inveja e assaltos de que tem sido alvo são uma extensão desse sentimento.

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