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“Temos um problema de consumo de arte no país”

O artista plástico moçambicano, Hélder Nhackotou, um dos dirigentes da Associação Núcleo de Arte, em Maputo, considera que os moçambicanos (ainda) não têm a cultura de consumo de obras de arte. Enquanto isso, sempre que cidadãos ocidentais – os maiores consumidores – adquirem as obras de autores nacionais, com elas “vai-se um parágrafo da nossa história”.

A relação de Hélder Nhackotou com as artes plásticas inicia nos finais da década de 1990, altura em que concluiu a sua formação na Escola Nacional de Artes Visuais. Na altura, também, o artista começou a frequentar o Núcleo de Arte.

Em relação à referida fase, o pintor recorda-se de que a “partir do momento em que me apercebi de que tinha jeito para o desenho – uma área que sempre apreciei – decidi que devia segui-la. Aventurei-me e tive a oportunidade de frequentar a Escola Nacional de Artes Visuais, em Maputo, onde aprendi a essência da ciência da arte, o uso dos materiais, bem como a necessidade de aprimorar a capacidade de recriação e o conhecimento da história de arte”.

O impacto disso é que, a partir daí, “aprendi a defender a importância do trabalho artístico que faço. Em 1999, ganhei o interesse de participar em exposições – o que constituiu uma nova aventura, uma provocação – porque, dantes, só pintava e acumulava as obras em casa”.

O artista congratula-se com o facto de que, na sua andança nas artes, teve sempre o apoio dos pais. “Recordo-me de que quando eu passei para a 8ª classe, o meu pai questionou-me sobre o assunto até que eu lhe disse que queria estudar desenho porque apreciava a pintura. Ele anuiu, mas chamou-me a atenção para o facto de que a arte não é algo fácil”.

Entretanto, havia algumas restrições: “O único aspecto que eles criticavam era o facto de eu ter começado a fazer dreadlocks. É que, naquela altura, para muitos do meus colegas, ser artista significava isso. Havia uma grande emoção em relação à questão da identidade africana.

Mas, ao longo do tempo, com a maturidade, percebemos que a realidade não era bem assim. Tratava-se de uma questão de estilo e de certas etiquetas que se criavam”.

Ou seja, “o meu pai não gostava que eu estivesse muito envolvido com a cultura rastafari. Ele compreendeu que aqui, em Moçambique, ou em África, a maior parte dos artistas estava ligada a tais princípios – o que não constituía verdade. Mas como ele não havia dificultado na materialização da minha vontade, então, porque é eu lhe devia complicar? Não enveredei pelos caminhos que ele abominava”, refere.

Aliás, “também descobri que, em muitos de nós, as rastas eram criadas por uma questão de emoção. De uma ou de outra forma, sempre fui apoiado pelos meus pais. O maior valor que os meus familiares sempre exigiram, em casa, foi o respeito e a necessidade de evitarmos trazer problemas. E nós, os filhos, sempre evitámos”.

Preocupado com a inovação

Diz-se que a sua fonte de inspiração é o meio. Mas, a par disso, quais são os objectivos do artista sempre que gera arte? Nhackotou considera que “na minha produção, estou sempre preocupado em trazer um novo conceito, em termos de equilíbrio estético, para a obra. Uma diversidade na exploração de tonalidades de cores com que me envolvo e, por essa via, expressar aquilo que eu sinto dentro dessa paisagem que me rodeia, buscando – no contexto da técnica e do tema – algo para ensinar”.

Questionado sobre os principais consumidores de artes plásticas, em Moçambique, Hélder Nhackotou considera que “o que eu tenho apreciado é que a maior parte das pessoas que compram obras de arte no país provém do estrangeiro. Acho que isso se deve ao facto de eles terem tido a oportunidade, muito cedo, de conhecer a utilidade, o valor e a importância de uma criação artística. Como se sabe a arte não só exprime sentimentos, também expressa conhecimentos”.

Para o artista, “nós, os africanos, sempre olhamos para a arte como uma forma tradicional de expressar os nossos ritos cerimoniais como a dança, a gravura, a concepção de máscaras e nunca numa perspectiva de comercialização ou de conhecimento científico. Sucede, porém, que com esta educação – influenciada pela Europa – que recebemos, formata-se a nossa mente. Ganhamos uma visão científico-didáctica”. Mesmo assim, quando o assunto é o consumo, os estrangeiros continuam a assumir a liderança.

“É que eles quando visitam África conseguem reconhecer, através das obras, a história, os hábitos e costumes e a tradição do povo nativo. Ao comprar as obras de arte, não somente adquirem um objecto de valor, mas, com o mesmo, vai-se um parágrafo da nossa história. Esse quadro serve para a realização de uma série de análises e pesquisas”.

Não temos regulamento

Nhackotou considera que um quadro adquirido, em África, por 500 dólares, na Europa pode ser vendido a 2.000 dólares. É que naquele continente, através dos seus serviços de promoção da arte, estipulam-se preços básicos específicos.

Por exemplo, lá, “há galerias em que o preço mínimo de uma obra de arte é de mil euros. Aqui, em Moçambique, não temos um regulamento que determina, em todas as galerias que as obras expostas – independentemente do artista e do tamanho das criações – devem ter um preço básico pré-determinado”.

Em Moçambique, para a venda das obras de arte, “trabalhamos com base em preços propostos pelos artistas. Aliás, trata-se de propostas feitas tendo em conta a negociação. Por seu turno, o mercado europeu possui plataformas com determinados regulamentos da actividade artística. Eles, além de promover e divulgar a arte – possuem contratos de trabalho com os artistas – o que nós ainda não temos”.

De acordo com Nhackotou, a situação de Moçambique podia melhorar se as leis funcionassem. Por exemplo, agora o Governo conseguiu regular a Lei de Mecenato que – uma vez não havendo estas instituições de promoção de arte e patrocínio ao artista – envolve a participação das empresas.

“O Estado é que devia fazer isso mas como, ainda que tenha uma visão da coisa, não possui a capacidade de criar e organizar uma instituição à qual os artistas, sempre que precisarem, possam recorrer para obter apoios de forma segura”.

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