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Será que vamos ficar sem artistas?

Será que vamos ficar sem artistas?

O baixo consumo da produção artística nacional pelos moçambicanos e a falta de espaços apropriados para a sua exposição preocupam os artistas plásticos em Nampula. De qualquer modo, alguns deles agendaram uma mostra para Dezembro. O problema é que muitos pintores estão a abandonar o ofício. Será que ficaremos sem criadores na terra das Muthiana Orera?

Nos últimos tempos, na cidade de Nampula, as artes plásticas tendem a desaparecer da vista de quem as aprecia. A falta de clientes e da realização de mostras, incluindo o fraco apoio ao sector são alguns factores – apontados pela comunidade artística – que desencorajam os fazedores daquela forma de arte, na capital do norte.

Nessa perspectiva, com o objectivo de contrariar a tendência, a artista plástica Natália Sebastião, de 40 anos de idade, está a preparar uma mostra de arte a acontecer no Museu Nacional de Etnologia. A exposição, que está agendada desde Maio do ano que corre, possui um total de 30 obras, abordando temas diversos. Engajado na ideia, o conceituado artista plástico nampulense, Momade Mamudo, está a apoiar os preparativos dessa mostra que será replicada num programa que consiste em fazer as obras circularem por algumas escolas secundárias do centro da urbe.

Nas telas aludidas, a criadora preocupou-se em aprofundar os temas que têm a ver com as situações que geram momentos de alegria e tristeza das mulheres. Outros quadros retratam o sofrimento de crianças órfãs que vivem em situação deplorável e problemática. Os trabalhos artísticos dos seus colegas também serviram de fonte de inspiração para Natália Sebastião.

Com a exposição, a pintora pretende mostrar à comunidade local – incluindo a artística – que, com poucos recursos financeiros e materiais, é possível fazer um trabalho bonito. “Não podemos ficar reféns da falta de apoios. Temos de aceitar desafios para provar que somos capazes de superar adversidades”, refere Natália acrescentando que “com ou sem financiamentos, a minha decisão é continuar a trabalhar, produzindo obras de arte, de modo que possa conquistar a atenção do público no mercado”.

A relação de Natália com as artes plásticas existe desde a sua infância, tendo, já produzido inúmeras obras, o que lhe possibilitou participar em inúmeras mostras colectivas nas cidades de Maputo e Nampula. Desde a sua adolescência, a criadora apostou em tornar-se uma artista plástica de renome, o que ainda não se concretizou já que na sua terra natal há mais dificuldades do que facilidades para quem quer singrar no ramo da arte.

O problema tem a ver com a disfunção do sistema artístico em Nampula. Afinal, segundo a pintora, quando ingressou na Casa da Cultura local, onde aprendeu as primeiras lições sobre a arte que faz, intercambiava experiências com criadores ali filiados. No entanto, quando a formação terminou esse intercâmbio também cessou. A realidade não contribui para o desenvolvimento das artes na urbe e na província.

Na Casa de Cultura, Natália foi habilitada em matérias que têm a ver com a produção de dísticos, incluindo a pintura. E é nesse sector onde trabalha. Dado o seu empenhamento nas aulas, a criadora tornou-se a melhor desenhista nesse contexto colegial. O feito possibilitou-lhe que passasse a cursar, na mesma área, na cidade de Quelimane onde aprofundou os seus conhecimentos na área de desenho.

Na província da Zambeze, Natália estudou Desenho Técnico na Escola Patrice Lumumba. Além do mais, quando criou o seu grupo de desenhadores, Sebastião instalou uma dinâmica que possibilitou que a sua colectividade pintasse a maior parte dos murais que – ao longo das ruas e avenidas – dão cor e vida àquela urbe.

Depois de participar num ‘workshop’ sobre artes plásticas, promovido pela Cooperação Suíça, em 1994, na cidade de Nampula, Natália Sebastião decidiu dedicar-se profissionalmente às artes plásticas. Além do mais, não lhe faltaram argumentos e condições para optar por essa nobre decisão. “No fim da formação, fui a única seleccionada para receber um kit completo de material de desenho. O mesmo permitiu-me que apostasse com toda a força nesta actividade. Senti-me estimulada”.

Natália Sebastião participou no referido curso pela necessidade de ganhar novas experiências. Além do mais, “apesar de que já tinha participado noutros eventos similares, antes, eu sentia-me um pouco vazia”, refere a criadora que já tem, no seu espólio, mais de 60 obras originais. Ao longo da sua carreira, Natália já vendeu, pelos menos, duas obras de arte da sua criação numa feira de exposição fotográfica organizada pelo Núcleo de Artes Plásticas em parceria com a Casa Provincial da Cultura de Nampula.

O sofrimento dos criadores

Em Nampula há muitos artistas que se dedicam às artes plásticas, pura e simplesmente, por amor. A maior parte dos mesmos sobrevive realizando negócios – o que significa que a produção artística está aquém de satisfazer as suas necessidades de subsistência. A razão é simples – os cidadãos locais não apreciam e, consequentemente, não consomem a arte.

Por essa razão, o comentário de Natália Sebastião tem o seu sentido: “Pintamos – entenda-se, trabalhamos – porque gostamos desta arte e não porque ganhamos alguma coisa para sustentar as nossas famílias”. Pessoas existem que pensam que, no seio das famílias nampulenses, a sensibilidade em relação ao belo artístico está a desmoronar. Em resultado disso, mesmo que os artistas criem obras exclusivamente destinadas a ornamentar os compartimentos das residências, não são compradas. Elas acabam por se danificarem nos armazéns.

O problema é generalizado de tal sorte que é normal visitar escritórios de governantes ou de empresários e encontrá- -las com paredes nuas, sem nenhuma forma de arte pictórica. Em resultado desta realidade, muitos artistas plásticos estão a abandonar o seu ofício. Os poucos que resistem – como dizem – só perseveram por amor à arte. Não é possível que, em Nampula, o artista sobreviva com base no trabalho artístico.

Os quadros que, vezes sem conta, têm sido expostos no Museu Nacional de Etnologia são apreciados por turistas estrangeiros que visitam Nampula. Consequentemente, “nós investimos muito material para produzir um quadro, mas dificilmente conseguimos recuperar o valor que aplicamos na compra do material”. Neste sentido, é comum e normal que as obras de artes sejam armazenadas durante um período superior a dois anos, sem que sejam apreciadas. Para inverter este cenário, um grupo de artistas uniu-se e criou uma associação no recinto do Museu Nacional de Etnologia, no centro da cidade, onde produz obras por encomenda.

Está-se diante de uma estratégia positiva, uma vez que os artistas conseguem comercializar as suas criações e amealhar dinheiro para se recuperarem os investimentos que têm feito na aquisição do material. No entanto, a não divulgação das suas actividades e o pouco apoio por parte do governo são alguns factores que obstruem o desenvolvimento artístico em Nampula.

“Quando se lhe solicita apoios para a realização de feiras ou exposições de arte – por parte dos artistas – o governo da província de Nampula não tem dado uma resposta favorável. Os governantes dizem que não dispõem de dinheiro para incentivar a actividade artístico- -cultural”, refere Natália. É por essa razão que quando a maior parte das organizações não governamentais que, em Nampula, apoiam as artes, encerra as suas actividades, muitos artistas sentem-se absolutamente abandonados.

A cidade de Nampula não dispõe de um local apropriado para a exposição de artes. Por isso, como forma de estabelecer o encontro entre consumidores e expositores, os artistas vendem as suas criações no recinto do Museu Nacional de Etnologia. A situação cria dissabores aos criadores que se insurgem face à indiferença do governa face à necessidade de edificar uma galeria adequada para o efeito.

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