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Kinani reinventa-se e rompe com ideologias

Kinani reinventa-se e rompe com ideologias

Neste 2013, em cinco edições consecutivas, a bienal internacional de dança contemporânea (Kinani) celebra o décimo aniversário. É um momento de plena reflexão sobre o que se fez, o que está a ser feito e o que se pretende fazer no futuro. No entanto, a analisar pelo cardápio das propostas coreográficas e produções afins, constata-se que se está diante de uma plataforma de reinvenção absoluta. Por isso, não ver as obras é um contra-senso. Saiba as razões…

Há vários pontos de partida para se entender o percurso da Plataforma Internacional de Dança Contemporânea – Kinani. Um deles pode ser a análise das realizações dos anos precedentes. Outro elemento, mais interessante, sobretudo para atrair quem nunca assistiu a um espectáculo de dança contemporânea (apesar, provavelmente, de ter alguma noção sobre como a mesma se manifesta) pode ser o conceito inovador do evento 4º Andar, que é uma realização artística que irá acontecer num espaço não convencional.

No entroncamento das Avenidas Olof Palm e 24 de Julho, em Maputo, existe um edifício inacabado que, diariamente, agenda as conversas de quem por lá passa. Por essa razão, essa infra-estrutura é incontornável para os transeuntes. Pessoas há que pensam que – uma vez não concluída, por motivos diversos e, consequentemente, desabitada, – essa construção é um desperdício.

Ao agendar-se para acontecer naquele espaço, conhecido pelos habitantes da cidade de Maputo e não só, apenas de vista, o 4º Andar posiciona-se como um evento inovador com um novo formato de apresentações artísticas no contexto do Kinani, muito em particular porque explora um espaço incomum para a exibição das artes.

Talvez este seja o primeiro mérito do Kinani, esta Plataforma Internacional de Dança Contemporânea para qual acorrem bailarinos e coreógrafos africanos e de outras parcelas do mundo, criado em 2003, que presentemente celebra o seu 10º ano de existência. Mas o que há de particular no edifício onde irá acontecer esse evento? Que impacto a realização do evento 4º Andar irá gerar para o mesmo e para as pessoas?

Um dos aspectos relevantes é que o edifício está em “suspensão construtiva”, desde a época da proclamação da independência nacional, há quase 40 anos. E, pela primeira vez, dentro das realizações do Festival Kinani, o mesmo irá receber uma moldura humana.

Espera-se que participem nas actuações oito artistas ou companhias que apresentarão as suas criações artísticas para um público que, de forma sequenciada, irá circular pelos compartimentos do edifício, do primeiro ao quarto andar, acompanhando o desenrolar das peças em exibição.

Uma expressão de subversão

Existe o belo no trabalho dos artistas, como se percebeu em algumas actuações da campanha pré-Kinani, decorrida em Novembro. Mas, esclareça-se, apesar de a estética não ter sido excluída no contexto do 4º Andar, ela não é a preocupação central dessa realização de dança contemporânea. Há, por aqui, uma preocupação transformista e quase revolucionária.

É no contexto desse evento que “os jovens dançarinos e coreógrafos que querem encontrar no palco um espaço de experimentação, de liberdade e de afirmação pessoal, rebelam-se”, refere o escritor moçambicano Luís Bernardo Honwana para quem os 10 anos da existência do Kinani representam “o memento apropriado para se avaliar os progressos registados desde a sua primeira realização em 2003, quer a nível nacional, quer a nível internacional”.

A quinta bienal do Kinani irá decorrer na primeira semana de Dezembro, entre os dias 2 e 6, e terá lugar nos palcos do Centro Cultural Franco-Moçambicano, do Teatro Avenida, do Museu Nacional de Arte e do Cine Teatro África, incluindo o espaço alternativo do edifício que se encontra entre as Avenidas 24 de Julho e Olof Palm.

À partida, além da ousadia, tomando em conta as dificuldades que se superaram no processo negocial para a utilização da infra-estrutura, fica-se com a impressão, não só, de uma ruptura em relação aos conceitos já estabelecidos para a exibição das obras de arte, a dança contemporânea no específico, bem como as razões que fecundaram tal iniciativa criativa. Há um objectivo específico nesta realização que trespassa a mera exibição artística circunstancial.

“Esta iniciativa pretende sensibilizar e alertar todos os agentes das artes performativas, e o público em geral, para a falta de espaços de trabalho para os artistas. Por outro lado, tem-se a intenção de apresentar soluções no uso e aproveitamento do património em deterioração. Mas também pretende-se exaltar as qualidades intrínsecas de espaços abandonados a fim de servirem de acolhimento para eventos artísticos”, refere a organização.

E no caso deste evento, muito em particular o 4º Andar, a organização e todos os artistas envolvidos, agindo contra as limitações do seu tempo (muitas das quais obstruem o desenvolvimento artístico) para a materialização da dessa manifestação, aceitaram o desafio proposto pelo célebre director de teatro e cinema britânico, Piter Brook, ao afirmar o seguinte:

“Posso escolher qualquer espaço vazio e considerá-lo um palco nu. Um homem atravessa este espaço vazio enquanto outro o observa, e isso é suficiente para criar”. Inspirando-se nesses ditames, a produção do Kinani assegura- -nos que, nos próximos dias, teremos a oportunidade de ver como um espaço nu – na verdade, alternativo – pode ser convertido num palco a fim de que a arte se materialize em prol da perenidade da cultura humana.

Kinani

A Plataforma Internacional de Dança Contemporânea (Kinani) existe há 10 anos. Ela surge com o objectivo de alargar a esfera de acção e representação dos artistas que se dedicam a essa forma de arte, na cidade de Maputo, tendo-se, nos últimos anos, consagrado como uma das grandes mostras do baile no país e no mundo. Este ano, na quinta edição, o Festival Kinani irá associar 13 companhias e artistas diversos, nacionais e internacionais, com igual número de peças a serem exibidas durante uma semana.

Por todas estas razões, no editorial dessa edição, Luís Bernardo Honwana explica: “Espera-se a participação de grupos representativos das principais escolas e manifestações de dança contemporânea em África. Para além dos espectáculos e da actividade da divulgação (particularmente entre as camadas juvenis e a população estudantil), anunciaram-se diversos ateliers de dança e fóruns de debate que não deixarão certamente de abordar questões gerais do âmbito cultural do país e os problemas práticos. As dificuldades conceptuais que afectam o desenvolvimento da dança contemporânea serão motivo de abordagem”.

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