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Ser mulher polícia em Moçambique

Ser mulher polícia em Moçambique

Corria o ano de 1980 quando Lília Mugela se tornou parte da corporação da Polícia da República de Moçambique (PRM), no comando provincial de Nampula. Fê-lo, diz, por amor à farda e pelo desejo de proteger os cidadãos, apesar de não ser tarefa fácil.

Lília Momade Mugela tem 50 anos de idade, é mãe de três lhos e natural do distrito de Ribáuè, província de Nampula. Trabalha na Polícia da República de Moçambique (PRM), estando presentemente afecta ao Comando Provincial de Nampula.

Mugela a rma que entrou na corporação pelo amor que tem pela farda, e não só. Também queria defender a pátria de que faz parte e os direitos humanos, cujo respeito, a seu ver, continua aquém do desejado.

A nossa interlocutora conta que depois de ter cumprido os primeiros seis meses de treino no então Centro de Preparação Político Militar de Moamba, na província de Maputo, ingressou nas fileiras da PRM, na altura com 17 anos de idade.

“Na altura, não era qualquer pessoa que entrava na corporação e havia muito poucas mulheres que optavam pela PRM”, comenta. E acrescenta que era desprezada, alegadamente porque a patrulha e a guarnição eram trabalhos exclusivos dos homens.

A final, Lília não caiu de pára-quedas na PRM, pois o seu irmão mais velho, que também era polícia, foi quem a aconselhou e encorajou a ingressar na corporação. “Estar na Polícia constitui um sonho realizado porque tinha a ambição de defender a minha pátria e os meus concidadãos que merecem alguma protecção”, aponta.

Uma dura experiência

Lília Mugela diz que durante a sua carreira policial obteve muita experiência. Aprendeu a trabalhar com os homens lado a lado, e descobriu o alcance da capacidade e do valor de uma mulher. “Sempre me senti bem ao trabalhar com os homens, são bons companheiros, apesar de muitos serem orgulhosos e machistas. Na verdade, é melhor trabalhar com um homem que com uma mulher, porque um homem respeita-te”, desabafa.

Num outro desenvolvimento, a nossa entrevistada fez saber que desde o ano em que entrou na corporação (1980), foi patrulheira e esteve sempre na rua com uma arma AKM47 em punho na companhia dos seus colegas. Tempos depois, um dos seus chefes da brigada propôs que ela fosse transferida para um dos distritos da província de Nampula.

“O meu sonho era liderar um grupo de homens e… realizei-o”

Lília Mugela disse ainda que mesmo trabalhando com uma arma nas costas durante 20 anos, o seu sonho era um dia liderar um grupo de colegas, o que veio a acontecer. Estávamos no ano de 2003 quando esta mulher, diga-se, corajosa e destemida, foi indicada para che ar o Comando Distrital da PRM de Mogovolas, cargo que ocupou durante dois anos. Três anos depois foi transferida para Muecate, onde trabalhou como comandante distrital, também por dois anos.

Durante aproximadamente sete anos em que desempenhou a função de comandante em três distritos, Lília diz ter passado por bons e maus momentos.

“Já estive entre a espada e a parede”

No distrito de Muecate, segundo afi rma, já foi colocada entre a “espada e a parede”. Tal aconteceu quando um grupo de homens armados da Renamo perpetrou um ataque à localidade de Chipene. “Na verdade, tínhamos de reagir e foi um grande confronto.

Senti-me obrigada a usar a força contra os invasores e por conseguinte defender a pacata população. Felizmente, conseguimos derrotá- los. Foi difícil porque eles só pensavam em matar ou destruir o que encontravam pela frente”.

O casamento

Embora tenha ingressado nas fileiras da PRM com apenas 17 anos, Lília Mugela só veio a casar-se cinco anos mais tarde, com 22 anos de idade. Quis o destino que o seu cônjuge fosse também membro da PRM, em Nampula, o qual viria a perder a vida em 2002. Ambos tiveram três lhos.

Quando a esposa ganha mais que o marido

Uma das maiores provações pelas quais teve de passar na sua via conjugal foi quando passou a auferir um salário superior ao do marido. “Os salários, baixos ou altos, não interferiam na nossa vida, vivíamos um amor verdadeiro. Juntávamos o dinheiro e fazíamos planos juntos, aí ninguém era superior, apenas o afecto e o amor é que predominavam”.

Para ela, o maior mal que afecta as fi leiras da Polícia da República de Moçambique é o facto de nos dias de hoje a sociedade estar a desprezar os agentes da PRM, aos quais não raras vezes são atribuídos nomes pejorativos.

Corrupção na polícia

Quando se fala de corrupção no seio da Polícia, Lília Mugela é peremptória na resposta: “Estou há muito tempo na Polícia e nunca ouvi falar desse mal (a corrupção) no seio da classe. Esse tipo de comportamento é de hoje e é típico de pessoas que entram nas nossas fi leiras com o objectivo de ganhar dinheiro, e não para defender e proteger a população”.

Aos 50 anos de idade, 33 dos quais ao serviço da PRM, Lília Mugela afi rma que quando se trabalha na Polícia, os agentes devem deixar de lado os laços de parentesco ou de vizinhança e dedicarem-se só e somente à sociedade. “Caso haja necessidade de prender um lho, irmão, familiar ou vizinho, o agente deve estar à altura de o fazer, sob pena de estar a violar as regras”.

Actualmente, Lília Mugela desempenha as funções de inspectora e está afecta ao Departamento de Sensibilização de HIV/SIDA no Comando Provincial da PRM em Nampula, onde tem a dura missão de inverter o actual quadro da instituição, no que diz respeito à morte de agentes devido à pandemia do século. “Esta doença tem ceifado muitas vidas na nossa corporação”.

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