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SELO: O Falhanço do “Yes We Can” – Por: Raúl Barata

No ano de 2008 anunciava-se o início de uma Nova Era na história mundial, pelo menos era o que parecia. Um afro-americano tornava-se no Presidente do país mais poderoso do mundo. Pela primeira vez na história mundial, um negro chegava à casa construída pelos seus ancestrais escravos, ou seja, a famosa Casa Branca.

Barack Hussein Obama, ou simplesmente Barack Obama, tinha nas mãos o destino do mundo e da Nova Ordem Mundial. Várias foram as reacções a nível mundial sobre este acontecimento único. As redes sociais, os órgãos de comunicação explodiam e reagiam com euforia e excitação a chegada de um negro a posição de decisão política, económica e militar mais importante do mundo dos homens. O mundo todo se rendia ao maior feito do século XXI. Esperavam-se grandes mudanças no cenário político mundial, após a chegada de um democrata e sobretudo negro no poder da superpotência americana, num período em que o antecessor líder deixava o cargo em cenário de guerra e conflitos com os maiores rivais na política externa e internacional americana.

Para o povo americano, previa-se um momento de paz relativa no mundo, menos gastos na compra ou fabricação de armas para custear as guerras no Médio Oriente e mais atenção para a política interna, sobretudo nas vertentes de segurança nacional e saúde. Para a minoria negra da América era um momento de soltar lágrimas de orgulho, um momento de reconhecimento do ser negro, sobretudo pela horrível história que este povo teve como seres humanos. Para os africanos, o sentimento de orgulho por ter um negro como líder mundial dobrava. Em suma, com Obama o futuro da América e do mundo antecipava-se promissor e brilhante.

Mas nem tudo ou quase nada foi como a América negra e o mundo sonhavam. Nada foi como Obama descrevia nos seus belos discursos, ao jeito de Harvard, cheios de eloquência e retórica sobre esperança, optimismo, trabalho árduo, humildade, sonhos e conquistas inimagináveis.

Obama: A esperança vã

Nunca antes houve melhor momento na história para se ser negro e em particular negro dos EUA. Por este facto, presumia-se que os negros e outras minorias desprivilegiadas ganham-se mais reconhecimento. Esperava-se por parte de Obama, diria eu, mais atenção e reconhecimento sobre as minorias desfavorecidas nos EUA, em particular aos negros. No entanto, não foi o que ocorreu. Com Obama no poder, não se impediu que houvesse mortes de adolescentes e jovens negros indefesos, mortos pelo simples facto de serem negros. Provavelmente houve na era Obama mais casos de brutalidade policial, mortes e assassinatos de negros pela polícia do que alguma vez na história. Sem dar privilégios e vantagens especiais somente aos negros, e a outras minorias, Obama poderia mostrar mais interesse em acabar com as desigualdades sociais alarmantes que se verificam nos EUA. Para os seus na África, que contavam com o negro mais poderoso do mundo para minimizar os grandes problemas da política e economia que levam a pobreza no continente negro, foi uma decepção das mais duras.

Política interna: Perda das duas câmaras do congresso

Para além do grande fracasso na manutenção do seguro de saúde por parte dos beneficiários e na implementação do programa de saúde de iniciativa presidencial, o Obamacare, uma das grandes decepções e o mais marcante acontecimento na governação Obama foi a perda para os Republicanos da maioria dos assentos em ambas as câmaras legislativas do governo americano, o Senado e Câmara dos Representantes. Aqui Obama acabou perdendo poderes importantes em matéria de decisão sobre a política externa e internacional e sobretudo sobre a política interna que permitiu aos opositores votarem e votarem contra e sobre certas políticas públicas importantes do líder dos democratas. A perda de mais de 60 assentos na Câmara Baixa foi um golpe técnico que impossibilitou qualquer tipo de manobra evasiva para Barack Obama. Um erro cometido que vai ainda se fazer sentir por muitos anos sobre os democratas e com Obama fora do governo.

Um dos aspectos não menos importantes e de mérito para Obama, foi a capacidade de criar mais postos de emprego nestes dois mandatos em que esteve no poder, apesar de, não ter conseguido reduzir o grande problema da lotação das cadeias americanas por parte das populações negra e latina, por sinal grupos minoritários nos EUA.

Política internacional: Rússia no comando

Para muitos americanos um dos grandes feitos na governação Obama no quesito da política internacional foi a morte do líder da Al Qaeda, Osama Bin Laden. A decisão da retirada das tropas americanas do Afeganistão foi também um ganho para Obama. Dentre outros factos importantes e que estiveram à ordem de Obama encontra-se o apoio aos rebeldes na Líbia e a queda do regime líbio e do seu líder Muammar Khadafi. Por outro lado, no contexto Sírio o cenário foi diferente. Com o fracasso da política interna, o cenário externo e internacional sob o ponto de vista de decisões tornou-se cada vez mais difícil de controlar. Os EUA perdem o poder de decisão sobre os acontecimentos que tomaram conta do cenário político mundial.

A Rússia colocou-se à frente dos EUA sobretudo nas decisões sobre a invasão das forças militares aliadas aos EUA na Síria. A Rússia serviu de escudo ao regime do déspota esclarecido Bashar Al Assad aquando do uso por parte deste regime de armas químicas em 2014. A invasão da Crimeia pela Rússia e o controlo desta região geopolítica fundamental foi um dos marcos na política internacional e que Obama e seu governo não puderam interferir ficando inertes e inoperantes, não como principais jogadores, mas como meros espectadores. A Incapacidade de se lidar e resolver o problema das escutas telefónicas que envolveram o seu governo e alguns Estados europeus aliados seus, dentre eles a Alemanha, um forte parceiro, mostrou a sua fragilidade neste cenário.

Apesar de Obama ser claro conhecedor da teoria que advoga a aquisição, manutenção e exercício do poder político, sobretudo do seu conhecimento das teorias das relações internacionais, este não conseguiu fazer o uso do soft power e do hard power ou o the real politics enquanto necessário, ou no seu devido momento, pois, ora vejamos: acabou por falhar no apoio dos rebeldes e movimentos de contestação e pressão na Síria, Líbia e Egipto que foi um fracasso e uma má decisão na altura e que permitiu o surgimento de grupos insatisfeitos que hoje formam grandes grupos terroristas que se tornaram actores a ter em conta nas decisões políticas mundiais. A sua tentativa de através de um diálogo unir os Estados árabes com intuito de combater um inimigo comum e chegar a um acordo de paz no conflito Israel-Palestina foi um declínio, pois há por detrás interesses nacionais e ideologias completamente diferentes principalmente no que concerne a acções militares e bélicas.

Embora a governação Obama estar em volta à acontecimentos negativos, não se pode lhe retirar o mérito e crédito social e político que teve nestes últimos mandatos da sua governação. Foi o primeiro Presidente Negro na Historia dos EUA. Obama permitiu enriquecer o debate sobre a questão racial no mundo abriu espaços para uma visão menos preconceituosa e cheia de estereótipos sobre os negros e outras minorias no mundo. O seu carácter carismático e personalidade fortes, o seu estilo que eu chamaria de “cool”, o atributo de coolest president fizeram dele o presidente do povo. Em África e no mundo, através dos seus discursos motivacionais incríveis, Obama permitiu aos jovens líderes sonhar alto. Com pequenas iniciativas criou oportunidades para jovens terem acesso a educação de qualidade. Permitiu a formação de novos líderes por si inspirados, foi o máximo que conseguiu fazer. Ouvindo as suas palavras, esperava-se mais.

O slogan da sua campanha, o “Yes We Can” e os seus discursos foram das suas mais belas criações. Os seus discursos permitiram ao povo americano e mundial acreditar e sonhar num futuro melhor não com base em um optimismo falso, duvidoso e cego, mas na crença de que é possível sim alcançar na vida tudo oque desejamos, através da fé, optimismo, trabalho árduo e humildade. Apesar do “Yes We Can” não ter-se transformado completamente em uma realidade concreta e palpável para o povo americano negro e não só, foi o discurso mais poderoso e que permitiu aos povos a nível mundial, sejam estes negros ou caucasianos, latinos ou não, deficientes, heterossexuais ou homossexuais, pobres ou ricos de se abrirem, de se expressarem e irem na busca pelo sonho americano fora e sobretudo dentro dos EUA.

Que fique claro que, como prática transformada em políticas concretas para melhoria de vida dos americanos o “Yes We Can” foi um total fracasso, entretanto, como discurso foi sem dúvidas o seu maior legado como primeiro Presidente afro-americano dos Estados Unidos da América.

Por: Raúl Barata

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