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Revitalizar as acácias

As festividades da semana da capital – cujo apogeu se assinala a 10 de Novembro – já agitam os maputenses. Entretanto, com o projecto “Poesia nas Acácias”, o Movimento Literário Kupaluxa assume (algum) protagonismo e propõe-se uma missão árdua: “Transformar Maputo na capital da literatura”.

De há alguns anos a esta parte, os agregados do Movimento Literário Kupaluxa, uma agremiação cultural da sociedade civil, prestaram atenção às vicissitudes que se operam na cidade de Maputo – construção de novos edifícios, bem como o surgimento de novos bairros suburbano, etc., – até que perceberam que enquanto a urbe tende a alastrar-se inversamente a isso, as acácias, um dos (seus) mais representativos símbolos, estão propensas ao atrofi amento, ou até, pior ainda, nalguns casos, a extinguir-se.

Na mesma sequência, o Kupaluxa observou que apesar de, nos últimos dias, além das funções de cidade política e económica – que desde que se transferiu a capital de Nampula para Lourenço Marques, em 1872 – Maputo manifesta a intenção de abocanhar o título de capital de actividades culturais.

Eis a razão por que em jeito de “ameaça” para os activistas culturais das demais capitais provinciais – com destaque para as cidades de Inhambane, Beira e Nampula – numa tentativa quase literal de “pôr as acácias a recitar” Kupaluxa se propõe converter Maputo na capital da literatura. A meta é incentivar, de forma espontânea, os cidadãos ao apreço pela leitura e pela escrita.

Caso a iniciativa vingue, os primeiros sintomas serão a transformação da urbe na capital da literatura nos próximos anos. Ou seja, é como diz Eduardo Quive, um dos mentores da iniciativa que a propala em todos os cantos: “queremos tornar Maputo na capital da literatura do país”.

Lê-se (muito) pouco

Um dos aspectos de que @Verdade se apercebeu no contacto com Eduardo Quive é a crise social de pouco gosto pela leitura que teima em incidir apesar de as estatísticas oficiais – e é neste sentido que se trabalha – revelarem que os índices de pessoas com instrução básica estão a evoluir.

“Não faz sentido que em cerca de 1.766.829 – conforme dados do Censo Populacional do ano 2007 – nós, os habitantes de Maputo, não consigamos esgotar a 500 cópias de livros que (semanalmente) são publicados em Maputo”, reclama Quive, dando a entender que se não temos problemas na indústria livreira nacional é porque – nos últimos dias – o mecenato tem apoiado. Senão, algumas editoras já deviam ter falido.

Mais adiante, e em jeito de pergunta e resposta quisemos perceber de Eduardo Quive um pouco mais sobre a iniciativa que pressupõe a exposição de textos poéticos extraídos de autores moçambicanos conceituados das várias gerações, mas sobretudo de potenciais escritores espalhados por todos o país, bem como a realização de saraus culturais durante os três dias do evento. Ou seja, nos dias 10, 11 e 12 de Novembro. Ficam os pontos mais importantes.

@Verdade – O que é “ Poesia nas Acácias?” Eduardo Quive

(EQ) – “Poesia nas Acácias” é mais uma ideia criativa do Movimento Literário Kupaluxa que visa incutir na sociedade o gosto pela leitura, dando-lhe acesso a algo para ler. A iniciativa consiste no modelo de exposição de textos poéticos nas acácias.

O nome “Poesia nas Acácias” surge pelo facto de, apesar de haver muitas árvores de diferentes espécies em Maputo, as acácias serem as mais representativas. Centrando-se em Maputo, a capital sociopolítica e económica do país, o projecto será igualmente um apelo para se olhar a forma como actualmente as acácias são tratadas. De qualquer modo, a meta é fazer de Maputo também uma capital da literatura.

Mas na verdade, o (nosso) primeiro intuito é levar a poesia ao encontro do povo. Por isso, vamos expor/pendurar textos em locais popularmente movimentados, como, por exemplo, nas árvores do Jardim Tunduro, bem como nas que se encontram na Rua da Rádio.

@Verdade – Por que razão o projecto só envolve poetas iniciantes e sem obra publicada?

EQ – Os nossos estatutos, como uma organização cultural, versam que é objectivo do movimento divulgar e promover os novos escritores, como forma de engrandecer a literatura nacional. Por isso, aliamos a iniciativa a esta causa. Pensamos que o Kupaluxa, enquanto movimento de inserção e integração de amantes da literatura, deve lutar pela inserção de novos autores no mercado livreiro.

Ora, isto não significa que estamos a apartar-nos dos escritores (já) consagrados. Também serão divulgados, mas não na mesma dimensão que os novos talentos. Planifi cámos expor cerca de 300 poemas, dos quais só 10 porcento serão de autores consagrados. Esta última parte tem como meta promover o gosto pela leitura dos livros já existentes, o que signifi ca que as telas dos textos expostos constarão ainda de referências das obras donde os textos serão extraídos.

@Verdade – Até que ponto expor os textos pode ser uma oportunidade – por exemplo de publicar um livro – para os novos talentos?

EQ – Penso que, numa altura em que é extremamente difícil e complicado para os jovens escritores publicarem obras literárias, hastear os seus textos perante o público pode ser, igualmente, uma forma de apresentá-los à sociedade, mas também de atrair potenciais apreciadores/investidores para as respectivas obras.

Poesia de/para todos

@Verdade – Quantos artistas se prevê que participem no evento?

EQ – Bem, vale a pena antes dizer que com esta actividade temos três metas fundamentais. A primeira é colocar poesia de/para todo o mundo, sem nenhuma discriminação. Como tal, se me perguntares quantas pessoas irão ler os textos, eu não saberei responder-te pois não sei quantas pessoas percorrem a Rua da Rádio, tão-pouco quantas frequentam o Jardim Tunduro. Mas acredito que o evento abrangerá todos os públicos, sem contar com os públicos dos diversos bairros de Maputo que serão convidados.

A outra meta é congregar obras de autores de todo o país, no mesmo espaço. Afinal, a iniciativa abrange todos os jovens de Moçambique, desde que não tenham livro publicado. Nesta perspectiva acreditamos que a iniciativa irá abranger mais 200 novos autores que irão colocar em montra dentre dois a três poemas individuais.

Por fim, tencionamos incentivar as pessoas a acorrer aos locais onde decorrem os eventos culturais. Às bibliotecas, aos programas de publicação de novos livros – como forma de criar novos públicos – sobretudo porque temos notado que os mesmos eventos são frequentados pelas mesmas pessoas.

@Verdade – Em que medida esta iniciativa contribuirá para o crescimento da cidade?

EQ – Penso que é uma boa pergunta. Mas serão expostos textos temáticos – ainda que não seja este o critério de selecção – que retratam os problemas, os desafios, as conquistas de Maputo e do país por extensão. Ou melhor, trata-se de textos que abordam a questão da pobreza urbana, dos acidentes nas rodovias, do custo de vida, mas também temas alegres como o amor, como forma de educar, formar e informar a sociedade.

@Verdade – Pressupondo a participação de artistas de todo o país, como será viabilizada a sua vinda a Maputo?

EQ – Não será assim. Até porque – ainda que gostássemos que assim fosse – não temos condições para o efeito. Mas, antes de mais, é que o nosso objectivo não é ter o artista, mas a sua obra. Ou seja, ele far-se-á presente através da sua obra. Isto equivale a dizer que, mesmo os de Maputo podem não presenciar o evento, mas a sua obra será apreciada e consumida.

@Verdade – Teriam pensado na componente ambiental, ao escolherem o Jardim Tunduro?

EQ – É verdade! Temos constatado, de facto, que actualmente o Jardim Tunduro não difere de um espaço abandonado. Ou seja, o Tunduro, que em tempos fora um horto botânico de grande referência, tende a desaparecer. Penso que a cidade de Maputo está a cair numa crise que se constata partindo da extinção das acácias. Cada vez que se edifi ca um prédio inúmeras árvores são abatidas.

Pensamos que essa via pode ser uma forma de resgatar a prática de realização de cerimónias culturais no Tunduro, resgatar a sua beleza – reabilitando-o, como forma de revalorizar a beleza contida no espaço.

Reviver o M´saho

Ainda no contexto das mesmas festividades, o Movimento Literário Kupaluxa reservou o último dia do evento – 12 de Novembro – para, no Coreto no Jardim Tunduro, realizar um sarau cultural sob o mote “Revivendo o M´saho”. A cerimónia será, sem dúvida nenhuma, um momento nostálgico para muitos escritores e, não só, que nos anos ´80 e ´90 encontraram no Sarau Cultural M´saho a primeira plataforma de recitar poesia perante um público extenso.

Elitização da cultura, um fenómeno nefasto

No entanto, ainda que se promovam eventos culturais populares em Maputo – e sem nenhum custo – Eduardo Quive, que também é jornalista, considera que, pelo menos, no contexto da literatura, as actividades culturais continuam a ser algo para as elites.

Por isso, “queremos despertar a atenção da sociedade para o facto de que, quando um escritor publica um livro, fá-lo para o povo e não para si próprio”. E mais, “não faz sentido que com inúmeros habitantes, os cidadãos de Maputo não consigam esgotar 500 cópias de um livro recém- -publicado”, reitera.

A poesia não suja a cidade

Seguindo a alocução de Quive, provavelmente a fraca aderência aos eventos de literatura – que ainda caracterizam as cerimónias que encerram as novas publicações – pode ser descrita como resultante da incompreensão do papel da própria literatura, sobretudo relativamente às camadas sociais de base.

“E nós pensamos que este fenómeno se deve à elitização da cultura, em Maputo. Actualmente, quando se realiza um sarau cultural em qualquer espaço da capital vão as mesmas pessoas porque não conseguimos atingir os outros”, queixa-se.

Pior ainda, “estamos a fazer o evento a sangue-frio, ou seja, com os nossos parcos meios. Mas o maior receio era que o Município não nos cedesse o espaço, alegando que podíamos sujá-lo. Daí que explicámos que “a poesia não suja a cidade, educa a sociedade, cria novos horizontes. Com esta iniciativa, Maputo será uma referência de uma cidade que fortifica o turismo cultural”.

Mas o contraste de tudo isso é que “a maior preocupação, quando se faz um evento cultural, é convidar um artista nobre, no lugar de convidar um cidadão comum do subúrbio. Então, constatámos que se o Kupaluxa, na qualidade de um movimento cultural juvenil, for à base pode-se criar uma nova sociedade de leitores”.

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