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O que (mais) se dirá sobre o amor?

O que (mais) se dirá sobre o amor?

A primeira impressão com que se fica quando se folheia “Dos Frutos do Amor e Desamores até à Partida”, a nova obra poética do escritor moçambicano, Adelino Timóteo, é a de se estar diante de um livro assaz desinteressante e (tendencialmente) irritante. O contrário só se pode dizer depois de uma (profunda) leitura.

É que, como é óbvio, em nome do amor, o autor exagerou na sua lírica erótica: a nudez, os lábios, o ânus, os seios, o beijo, ou seja, esta exploração desenfreada e desesperada dos fragmentos físicos – sensuais – do corpo humano, da mulher, que o autor propõe nesta criação literária.

Ora, se consideramos que ainda que somente dita, escrita ou lida, a palavra nem sempre transparece a ideia do objecto em apreço, podendo-se carregar o texto de algum eufemismo na intenção da sexualidade. O autor entendeu que não era suficiente.

Que não satisfazia os anseios egocêntricos do seu sujeito poético. Eis que convidou o artista plástico moçambicano Silvério Sitoe para transladar a nudez da figura feminina – que bastas vezes crava na tela – para o livro, realçando o conteúdo do texto.

Ou seja, o discurso da imagem integra-se perfeitamente na visível semiótica do discurso textual exposto em “Dos Frutos do Amor e Desamores até à Partida”.

Em meio-termo, sobre a mulher diz: “és feita de silêncios, de telegramas que se chegam pelos teus beijos, cartas e telexes que se me chegam pela ponta da tua língua, às digitais, esperada pelo que encarrega pela tua boca.” Ou seja, até aqui, fora do plano físico e sensual, do amor erótico o autor não tem outro enquadramento.

O que se pode perceber pela definição que engendra sobre a mulher: “é uma maça polida para levar-te à língua, (…) Eu te procuraria nessa volúpia, quase fogo, quase lume em tuas sementes sufragadas de desejo”.

Fazer do sexo um guru

Na nossa leitura ao texto, de recear que uma leitura numa altura em que toda a sociedade se debruça contra o abuso sexual de menores, contrariamente a isso, e pela sua crise sensual, o autor sugira que se devore as mulheres em independência da idade.

É que, ao que tudo indica, nalguns dos seus escritos Adelino Timóteo acaba por fazer do sexo o seu guru para, imediatamente, acusar a figura feminina: “Os animais são lentos, mas tu és ainda mais lenta, insubordinada à urgência. (…) Lenta, ao ritmo com que me chegas”, mas aqui vale a pena questionar a urgência de quê?

No entanto, ainda que possa parecer contraditório que chame, implicitamente, atenção para a luta contra o abuso sexual de menores, ou de qualquer mulher, a verdade é que o poeta fá-lo. Basta que se leia: “És madura até ao embrião, aberta como um mexilhão. Chegas-me pelas pétalas do corpo, concava até ao teu peito sensível, perfumada”.

Ora, se alguém erroneamente, interpretar a Adelino Timóteo como nós o fizemos, provavelmente, estará a manifestar-se leigo em matéria da poesia, como nós parecemos ser. Há quem sugira que o sexo, de que recorrentes vezes o autor nos fala, pode ser um símbolo metafórico que representa o ponto de encontro.

São desta perspectiva pensamentos como os de escritor moçambicano Lucílio Manjate que apresentou a obra. Reparemos primeiro que “tudo o que sabe dizer, ou seja, tudo o que ouve, vê, sente, cheira, prova, é nu. A ´nudez` há-de ser, portanto, o núcleo habitacional da enunciação poética desta obra”, afirma Manjate.

E não tardou muito para este autor esclarecer que seria um perigo pensar que “Adelino Timóteo nos apresenta poemas eróticos. O erotismo nestes versos não é um fim em si mesmo, mas um ponto de chegada que tem no conceito de identificação o ponto de partida, onde ou quando precisamos de ser Outro para sermos Nós. É o ideal da fusão de todos os sentidos.”

De qualquer modo, Manjate consente que “de facto, a nudez é o signo que Adelino Timóteo elegeu para celebrar o amor carnal.” Isto equivale a dizer que não precisamos de tomar a parte pelo todo, sobretudo porque Adelino Timóteo quer que a sua “obra seja uma pura e plena homenagem ao amor”.

Aliás, isto nota-se na segunda parte do livro em que o autor transcende para o plano metafísico e platónico do amor. O sintoma disso é que passa a amar “esses jardins divinos, suspensos do corpo, essa cordilheira que se prende à terra, essa fonte de pureza, esse trono donde se espreita a alegria, a lascívia”.

E de facto não tem outra opção por, a dado passo, emergindo em desamores pela sua amada – a mulher simbólica – se entristece: “À partida os teus olhos choviam torrencialmente como neste poema. E eras como um nó de lágrimas, uma cólera à garganta apertada.” Mais interessante é que esta poesia se enriquece por novos signos que são o mar, o fogo, a música.

O escritor Fernando Couto, que contribui na obra com um posfácio, resume o discurso ao afirmar que “a poesia de Adelino Timóteo é iluminada constantemente por essas imagens que seduzem transformando a mulher amada num fenómeno de deusa pagã.

Considerando que constantemente a transformação ocorre, não surpreende que não notemos diferenças sensíveis entre “Amores” e “Desamores”, tão profunda é a paixão e continuará a ser, nem mesmo nos perturbarão. E a ´Partida` será a viagem que nos conduzirá a um ambiente novo, mas também marcado pelo idêntico juízo ou começo da continuação em quebra notória sempre ao Éden ”.

Biografia

Nascido a 03 de Fevereiro, de 1970, Adelino Timóteo dedica-se às artes – literatura, artes plásticas e jornalismo – há um bom par de anos. No género da poesia publicou em 1999 “os Segredos da arte de amar”, tendo em 2002 ganho o “Prémio Nacional de Revelação da AEMO”, com a obra “Viagem à Grécia através da Ilha de Moçambique”. Em 2006 publica, sob a chancela da AEMO, “A fronteira do sublime”.

Mulungu (2008), A virgem da Babilónia (2009), Nação Pátria (2010) são outras obras do género romance por si publicados.

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