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MANUELA SOEIRO: “Foi muito mais fácil combater através de armas do que pela arte!”

MANUELA SOEIRO: “Foi muito mais fácil combater através de armas do que pela arte!”

A conceituada encenadora moçambicana, Manuela Soeiro, defendeu perante @Verdade, a heroicidade (pouco reconhecida) dos artistas moçambicanos na proeza da independência nacional. Afinal, no seu entender, “foi muito mais fácil pegar em armas e lançar-se num conflito bélico do que engendrar ideias, pensamentos, formas de arte e, por essa via, lutar pela liberdade”.

A celebração da vida e obra e dos ideais do Marechal Samora M. Machel, primeiro Presidente de Moçambique independente, bem como das 25 primaveras do Grupo de Teatro Mutumbela Gogo que este ano se assinalam fazem de 2011 um marco ímpar no país.

@Verdade quis fazer da ocasião um momento não somente festivo, mais acima de tudo de acérrimas refl exões sobre a realidade sociocultural, a condição humana do ser moçambicano. Portanto, muito recentemente, travou uma conversa (amena) com a directora do Teatro Avenida, Manuela Soeiro.

Refira-se que Soeiro, o protótipo de uma mulher moçambicana batalhadora, nos últimos dias tem tido inúmeros motivos para se congratular. O principal (para além da vida e da saúde) é ter dirigido com êxito, uma colectividade cultural, safando-a da bancarrota mesmo nos momentos mais críticos da sua história. Tal colectividade completa a seis de Novembro 25 anos.

“Quando tive a ideia de fazer um teatro fora dos parâmetros usuais, ou seja, do teatro clássico, nessa altura, eu não estava necessariamente contra, mas pensava que era importante que nós, os moçambicanos ou africanos, procurássemos as nossas raízes culturais”.

Ou melhor que “tínhamos que ter a iniciativa de fazer algo diferente, no âmbito cultural, sob pena de eternamente copiar os outros. O objectivo era evitar que (de facto, o teatro tem a ver com a vida, com o quotidiano da sociedade) corrêssemos o risco de nunca mais ter a possibilidade de o nosso teatro reflectir a nossa realidade”, começa por dizer Manuela Soeiro em jeito de recordação de um percurso de décadas.

O lugar da língua

Não tardou muito para que a partir de 1986, Manuela Soeiro e os companheiros de jornada artística se socorressem das crónicas de autores como Mia Couto, José Craveirinha, Luís Bernardo Honwana, Rui Nogar e tantos outros, não somente ganhassem “asas” para levantar voo, assim como inspirar outras colectividades culturais a envolverem-se na arte de representar.

Eles “deram-nos alguma inspiração para encontrar as nossas personagens. Isso foi muito importante”, diz referindo-se aos escritores moçambicanos. Até porque na altura as “pessoas pensavam que o teatro era um fantasma, uma coisa difícil, quando na verdade nós tínhamos algum”.

No período pós-colonial havia um aspecto peculiar e importante: a língua portuguesa herdada. Aliás a língua foi um dos poucos bens do sistema colonial – que mesmo durante a luta armada de libertação nacional não foi sabotado pela FRELIMO. No entanto, o Mutumbela recusou-se a aplicá- la da “forma como nos era imposta”.

“Passámos a utilizar a língua que brotava da miscelânea (do português) com os vários idiomas nacionais”. Além do mais, “existiam as expressões idiomáticas, que uma vez introduzidas nas obras, não somente enfatizavam a cena, a mensagem que se transmitia, mas acrescia o valor da (nossa) identidade. Isto fez com as pessoas (facilmente) entrassem na história, compreendendo-a melhor”.

Produzir utilidades

Recorde-se que nos anos subsequentes à criação, uma série de crises sociais – algumas das quais o excesso da burocracia que incidia paralelamente com a corrupção, para não falar da guerra dos 16 anos – marcava o cenário nacional.

Eis que “iniciámos um processo de crítica social, o que fez com que a sociedade tivesse no teatro uma forma de se inspirar. Afinal, muitas vezes, quando o teatro fala sobre a vida acaba por engendrar soluções para os seus problemas”. Isto é, “criávamos situações que podiam levar o público a caminhos benéfi cos para a resolução dos problemas da vida”.

Além da aparente melhor condição que possui se o Teatro Mutumbela conseguiu resistir até à actualidade foi, em grande parte, devido à sábia edifi cação de um grupo, com objectivos claros e consolidados. Muito mais importante ainda, Manuela Soeiro não desistiu do sonho. É como diz:

“Apercebi-me, ao longo dos anos, que quando tinha desilusões ganhava mais vontade de continuar. Não sou uma pessoa para desistir, antes pelo contrário, dou a volta por cima. O meu objectivo foi – sempre – não ficar presa aos problemas existentes”. Aliás, “já passámos por momentos difíceis, até porque começámos do zero”.

Eles não podem ser polivalentes

Porque nem sempre se tem a oportunidade de conversar com Manuela Soeiro – é muito atarefada – encontrámos na ocasião um motivo para refl ectirmos sobre a sociedade e a nossa cultura, começando pela aparente fraca cooperação – na verdade inexistente – entre os músicos e os escritores, sobretudo no tópico da exploração musical de obras literárias.

Neste aspecto, Soeiro observa: “Existe um e outro músico que busca as composições dos escritores para interpretar. Mas ainda são muito poucos. Penso que já era tempo de os (próprios) músicos perceberem que nem sempre podem ser polivalentes. Muitas vezes a música vale pela letra, o conteúdo”.

Além do mais “é cansativo ouvir uma música que só tem duas palavras – do primeiro ao último minuto – e não diz mais nada, não se desenvolve porque faltam-lhe nuances”.

Como se não bastasse, “tenho a impressão de que a música urbana tem deixado muito a desejar”. Sobretudo, porque “os artistas só falam dos problemas entre marido e mulher, quando podiam desenvolver e aprofundar mais outros temas, como, por exemplo, o da SIDA. As composições podiam ser melhor tratadas. Nada é melhor – para um músico – que trabalhar com um escritor, porque este ajuda-lhe a dar um valor literário à composição musical”.

De qualquer modo, “penso que a geração actual deve trabalhar para o desenvolvimento da música. Porque o que acontece, muitas vezes, é que há gente que não aceita as mudanças. Não obstante, acredito que aparecerão novos artistas com abertura mais larga. Até porque alguns jovens (já) resgatam a música popular para recriá-la”.

O passado incomoda-lhes

É nossa compreensão que na actualidade há uma preocupação constante – por parte dos movimentos culturais nacionais – de resgatar o tema da guerra, da opressão, deste passado melancólico, como forma de valorizar o ambiente de paz que prevalece.

Perguntámos a Manuela Soeiro sobre até que ponto a reflexão sobre o passado ajuda os moçambicanos a construir uma sociedade justa e de justiça social ao que nos respondeu nos seguintes termos:

“Penso que quando nos escondemos do nosso passado, muitas vezes não sabemos quem somos. E a geração actual é fruto de uma história. Tenho percebido que os mais novos tentam resgatar isso, o que é importante. Começam a sentir a necessidade de acrescentar neles próprios aquilo que lhes falta, a raiz. Nós, as pessoas, somos iguais às árvores. O passado é a nossa crosta. Através da crosta – entenda-se passado – algumas árvores protegem-se melhor, outras pouco e facilmente derrubam-se”. Afinal, “não têm energia suficiente. Então, o nosso passado deve servir-nos de baluarte”.

E mais: “recordo que sempre que íamos a Portugal participar em eventos culturais, já há bastante tempo que não vamos, agregávamos nas nossas peças traços sobre o colonialismo. Eu sentia que os portugueses não gostavam disso, incomodava- lhes”. Como tal, “chamavam atenção a respeito disso, dizendo que a peça era boa, criticando a cena do colonialismo que lhes intrigava”.

Mas o facto é que “para nós, aquela cena fazia falta. Era preciso mostrar-lhes”. E, por via disso, “provar o contrário do que diziam que o colonialismo não foi tão perverso como o sentimos”. Ou melhor, “revelar que se dizem isso, é porque não estiveram no local para viver a realidade, senti- -la”. Então, “nada melhor que o teatro e o cinema para levantar estes aspectos”.

Mas atenção: o nosso passado – por mais perverso que tenha sido – não deve servir, em momento algum, para justificar as nossas incapacidades. Afinal, muitas vezes se busca o passado para justifi car os erros, num discurso de auto-vitimização. Aliás, “temos de lutar contra isso. Esse passado deve servir de exemplo, para evitar que episódios similares se repitam”.

Interromperam os ideais

De qualquer modo, ainda que interessante – desta vez – a abordagem da Manuela Soeiro parece-nos politicamente correcta. O que (também) podia resultar de uma eventual má percepção nossa. Por isso, ganhámos fôlego para refazer a questão.

Diz-se que 2011 é o “Ano Samora Machel”, homem cujos princípios o mundo – Moçambique em particular – tem como ideais. E, se calhar por isso, bastas vezes, no dia-a-dia, são difundidos pela imprensa audiovisual. Será que pensar no passado, refl ectir nos ideais de Samora Machel estará a ajudar-nos na criação de uma sociedade melhor?

A sociedade “poderia ser/estar melhor. Mas o problema é que se interromperam os ideais de Samora. Uma vez Samora morto, a luta pelos seus ideais cessou”. A pobreza absoluta permanente que afecta o povo é a consequência imediata.

“Não se vêem transformações. As transformações terminam nas cidades. No campo tudo continua estagnado”. “Recordo-me de que desde criança eu ia a Chidenguele visitar o meu avô. Hoje, passado cerca de meio século, vejo a mesma realidade”.

Houve uma vez que o Mutumbela viajou para Manica de carro, em 1994, quando das primeiras eleições presidenciais. “Passávamos por algumas aldeias e à noite víamos uma massa de residências. Cerca de 200 palhotas, todas totalmente escuras. Podia-se enxergar, com muitas dificuldades, apenas uma lamparina, por vezes outra noutro ponto”.

Quer dizer, “é uma profunda tristeza que numa zona residencial, às seis horas da tarde não se oiça nenhum som, tão-pouco se veja luz e, derivado disso, as pessoas serem obrigadas a recolher, sob pena de serem devoradas por animais selvagens”.

Que desenvolvimento?

Levando o seu posicionamento ao extremo, em jeito de desabafo, Manuela questiona o modelo de desenvolvimento nacional. Critica-o, por exemplo, pelo facto de dar prioridade ao acessório no lugar do essencial.

De facto “sinto que a luta foi para o crescer dos grandes senhores. No sentido de terem grandes contas bancárias, grandes poderes económicos. Não sei porque poderiam ter bens económicos para servir a sociedade”.

Ou por outra, “que o desenvolvimento seria que as pessoas tenham, no dia-a-dia, pelo menos duas ou três refeições, água e iluminação que é o que a grande maioria necessita.” Ter televisão é bom, diz Manuela que acrescenta, “mas não é o essencial. E é do essencial que o povo precisa, para que possa ascender a estas necessidades terciárias”.

Para quem acompanha as actividades culturais no país, em particular as do teatro Mutumbela, percebe que tal colectividade artística ao rebuscar a obra “Nove Hora, de Rui Nogar” – que vai ser exibida no festival das bodas de prata do mesmo grupo que arranca amanhã – o Mutumbela denuncia, em grande parte, a cumplicidade que reinou no passado entre os protagonistas políticos e socioculturais no processo de libertação nacional do país.

“A cumplicidade entre estes actores libertários – políticos e culturais – tem tido continuidade nos dias actuais?”, questionámos.

Apesar deesta reflexão não ser matemática, Manuela Soeiro engendra uma resposta simples, clara, objectiva quanto curta: “não”. O problema é que, para si, sempre que se fala de heróis nacionais, somente se hasteia a bandeira dos protagonistas da luta armada.

“Esquecem-se dos heróis culturais. Muitos dos quais estiveram na luta clandestina através da escrita, da poesia, da literatura, da pintura, da escultura, enfi m da arte. E foram presos e, pior ainda, alguns quase mortos”.

Ora, se buscarmos os actores culturais da libertação nacional e fazemos uma combinação com os da luta armada “perceberíamos que (sempre) foi muito mais fácil pegar numa arma e lutar, do que pegar nas palavras, nas ideias e também fazer um combate aos grandes males que enfermam a sociedade”, diz.

“Quando fazemos um trabalho artístico, não pensem que estamos a brincar. Também temos algum receio, mas enchemo-nos de coragem para dizer determinadas coisas que são complicadas”. Por isso “para mim é muito mais difícil a tarefa, por exemplo, que vocês, os jornalistas, têm de falar, escrever, ou dizer a verdade sem medo”, fi naliza.

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