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‘@Verdade Convidada: República dos Cossa, por Niosta Cossa

Recuando no tempo, até aos finais da década 1990, há sensivelmente 15 anos, a nossa família era comandada pelo meu pai. Meu pai era a única pessoa que trabalhava em nossa casa, e, logicamente, era ele quem sustentava a família. Ele é que decidia e determinava as coisas que aconteciam dentro da nossa casa.

 

Realmente, pelo menos aqui em Maputo, são poucas – eu acredito que não existam – famílias que sejam comandadas por um membro que não tenha dinheiro – ou que não tenha mais dinheiro do que o(s) restante(s) membro(s) da família que também tenha(m) dinheiro.(Quando falo de família, refiro-me a duas ou mais pessoas que vivam debaixo do mesmo tecto, independentemente dos laços de sangue e de afeição).

 

Ainda que as famílias maputenses sejam patrilineares – ou seja, que sejam formadas e compostas em volta do pai –, se um pai, em Maputo, não tiver poderio económico suficiente para sustentar sua família, não haverá macheza nem respeito que resistirão. Esse pai será minimizado e a sua autoridade sabotada, principalmente se dentro da família – ou por outra, dentro de casa – houver um outro membro que apresente mais posses do que ele.

Em cada uma das zonas deste nosso Maputo, há exemplos de pais de família que comem o pão que as esposas e/ou os/as sogros/ sogras amassaram com os pés, isto por terem baixas condições financeiras em relação a eles/elas. Pelos mesmos motivos, há exemplos de pais de família que comem o xivasanguane – a parte das costas do frango que quase não tem carne – enquanto as esposas e/ou os cunhados e/ou os sogros comem as partes mais carnudas do mesmo.

Eu próprio via o meu vizinho a pôr água para a esposa e a carregá-la para a casa de banho, ela de toalha, como se fosse o mulumuzana (o chefe/macho da casa), porque ele não tinha poderio financeiro e dependia dela. Numa barraca aqui do meu bairro (Ferroviário), onde por vezes bebo, a esposa, uma mulher que tem emprego, grita, insulta e humilha o marido e pai de família, homem que não tem emprego/não produz dinheiro, chamando-lhe de “cão”, “merda”, “cocó” e outros nomes terríveis, e isto, muitas vezes, em frente de clientes.

Nas famílias com que tenho convivido, nos dias de festa nas casas dos patriarcas das famílias (o pai, ou o sogro, ou o avô), habitualmente, os casais da família que não têm muitas posses financeiras são chamados para trabalhar nos preparativos. Assim sendo, enquanto as esposas cozinham, muitas vezes envoltas em fumo de lenha, os maridos, debaixo do sol ou debaixo da chuva, estendem a tenda onde ficarão os convidados e matam o cabrito – se houver.

Os casais com posses financeiras costumam chegar já perto da hora do começo da festa, nos seus carros, com pompa e estilo. E são mais bem tratados e servidos do que os outros – com menos posses e que terão passado o dia a trabalhar nos preparativos da festa, não importando se estes são mais velhos ou mais novos.

Felizmente para o meu pai, ele é que trabalhava e sustentava a família. E era realmente o chefe de família. Olhando para a nossa família como um Estado, o meu pai era o Chefe de Estado. É claro que não fôramos nós a escolher o Chefe de Estado; nós nascêramos já com meu pai a governar a família e a minha mãe na oposição, a assessorar-lhe enquanto, simultaneamente, tentava ganhar o seu lugar.

Os meus pais, por serem os adultos – ou melhor, serem os políticos, aqueles com capital cultural e económico para comandar a família (o país) –, ofereciam-se a nós como os nossos comandantes, aqueles que iriam conduzir-nos a um futuro melhor. Traçavam eles mesmos os planos para a família, e nós, os filhos, o povo, apenas escolhíamos por entre os planos propostos por eles.

Este escolher, na verdade, não passava mais do que um encolher (de ombros), visto que não nos restava outra alternativa senão receber propostas deles e preferir uma delas, sendo que todas, na realidade, não diferiam muito uma da outra. (O tipo de reflexão usado neste parágrafo não é originalmente meu. É de Pierre Bourdieu, em O Poder Simbólico, Difel, Lisboa, 1989).

De facto, naquele período que citei acima – finais dos anos 1990 –, sempre que recebesse o seu salário, o meu pai comprava 1 saco de arroz de 50kg, 1 caixa de pacotes de massa, 5 litros de óleo, comprava alguns quilos de feijão, 1 caixa de sabão, pagava energia, separava dinheiro para o pão, e salvava fundos para que se conseguisse água – na altura, não tínhamos água canalizada em casa; a água era tirada das fontenárias. Depois disso, não sobrava muito dinheiro – bom, isto, pelo menos, é o que meu pai nos dizia.

Nesse mesmo período, a minha mãe começou a promover entre nós, os filhos – ou melhor, nós, o povo –, uma campanha de desestabilização contra o meu pai. Começou a denunciar os podres do velho e a acusá-lo de desviar dinheiro do seu próprio salário para sustentar amantes.

Quando começou a sua campanha, ela puxou a nós, os filhos (o povo) para o lado dela com o discurso sedutor de que o meu pai não se preocupava connosco; que ela, sim, queria lutar por nós e dar-nos uma vida melhor.

A minha mãe, como um bom político, fez uso da chantagem emocional em nós – dizendo que se arrependia de não ter dado ouvidos à mãe dela que, supostamente, lhe aconselhara a não se casar – e fez uso da sabotagem psicológica contra o meu pai – todas as noites, não deixava o homem dormir em paz, sempre reclamando e queixando-se das acções do meu velho pai em voz alta, enquanto os dois dormiam.

Ora, o salário do nosso pai era o orçamento do nosso Estado. Com este, era executado o Plano Mensal do governo da nossa família. Então, ouvir as acusações e alegações de que o velho andava a esbanjá-lo com amantes, não caiu bem em nós. Nós ficámos do lado da nossa mãe, contra o nosso pai. O meu pai, desgastado e descredibilizado, acabou por ceder o comando da família a ela.

Perceba-se aqui um pormenor. A Minha mãe, se trabalhasse na altura e tivesse um bom rendimento, não se preocuparia em descredibilizar o meu pai para que ela assumisse o comando da família. Teria passado directo por cima dele.

Este tipo de atitude, de passar por cima do marido que tenha menos posses do que a esposa, pelo menos aqui no Bairro Ferroviário, está, em qualquer casa da esquina, exposto para quem o queira ver.

Entretanto, como a minha mãe não tinha nenhuma base de apoio financeiro, teve que afastar o meu pai sistematicamente, através da calúnia, da pressão, da chantagem, da sabotagem e do jogo de bastidores – muitas vezes foi queixar-se à família dela da má gestão de meu pai, com isto, procurando influenciar a sua família para pressionar o meu pai e, deste modo, indirectamente, pressionando-o.

Assim, o que aconteceu foi que, depois da ascensão de minha mãe ao poder, quando o meu pai recebesse, entregava o salário à minha mãe, para que esta o administrasse, de uma maneira mais limpa e honesta.

Com a minha mãe no poder – a mulher que nos tinha prometido uma vida e futuro melhores –, a nossa vida só piorou. Logo no início do governo dela, foram desviados fundos para que se comprasse um cálice de ouro que seria usado na consagração de um irmão dela que iria tornar-se padre. Segundo especulações da imprensa familiar, o cálice de ouro custou, aos cofres do nosso Estado, cinco mil meticais, e foi pago quase que na sua totalidade por ela, numa altura em que passávamos fome em casa.

Quando nós, os filhos – nós, o povo – fomos reclamar, justificou- -se dizendo que o cálice de ouro fora comprado em colaboração com outros irmãos dela. E quando, de seguida, exigíamos que nos prestasse contas, ela começou por dizer-nos “Pfutsekani! Fambani muyahafa kuli!” (“Vão à merda! Vão morrer longe!”), e finalizou- -nos com um “Eu só confesso a Deus, Todo-Poderoso!”. Foi naquele momento que notámos que havíamos feito coisas erradas. Afastáramos um corrupto simpático e democrático para o substituirmos por uma corrupta tirana, cruel, inimiga do diálogo.

O meu irmão mais velho começou a trabalhar e, poucos meses depois, doou dinheiro para que se construísse uma nova casa de banho. O dinheiro foi desviado. Um tio nosso doou dinheiro para que se reabilitasse a cozinha. O dinheiro foi desviado. Faltava comida na mesa para o dia-a-dia, contudo, frequentemente, davam- se festas inúteis e despropositadas de baptismos, primeiras comunhões e crismas. Corrupção em grande escala!

O que meu pai fazia, sempre que recebesse, aquele rancho para abastecer a família e segurá-la durante o mês, mas com o novo governo de minha mãe, tudo cessou. A massa, o óleo, a caixa de sabão, os quilos de feijão, o dinheiro de pão, não foram mais vistos, e, posteriormente, substituiu-se o saco de arroz de 50kg por um de 25kg – supostamente porque o custo de vida era muito caro.

No consulado de meu pai, não havia prestação de contas e havia corrupção, mas dava para “gerir” as dificuldades e para se viver, havia uma esperança e sorriso no rosto do nosso povo. Com a minha mãe, não havia prestação de contas, a corrupção era devastadora e não havia esperança no futuro, para além de que era muito difícil que o dinheiro saísse. Nunca havia dinheiro para coisas realmente necessárias em casa, mas havia sempre dinheiro para se ir apadrinhar bastardos que decidissem baptizar ou casar e/ou enterrar familiares nos lugares mais longínquos deste Maputo e/ ou para consultar os médicos tradicionais desta vida.

O que era feito ou o jeito como era gasto o dinheiro do orçamento mensal do nosso Estado já ninguém sabia, virara segredo de Estado. Então, começaram a surgir vozes descontentes entre o povo – nós, os filhos. Começou a haver protestos.

E minha mãe reagiu implacavelmente: promoveu espancamentos dos opositores do seu regime e ameaçou cortar financiamentos para algumas actividades que fossem do benefício desses críticos e/ou opositores. Paralelamente a isto, de alguma maneira, conseguiu controlar a fonte do dinheiro (meu pai), para que esta não secasse e o seu governo não caísse e abriu pequenos negócios para passar a ideia de que os dinheiros que ia usando nos seus projectos pessoais não eram desviados do orçamento do Estado.

E também, em jeito de contra-espionagem e contra-informação, começou a levantar e espalhar os podres dos opositores – por exemplo, para aqueles que já eram maiores de idade, ela dizia-lhes que deviam parar de ser sanguessugas e arranjar um emprego. Deste modo, liquidou a oposição, deixando-a de joelhos.

Aquela em que se confiou para que mudasse as nossas vidas e que pensávamos que fôssemos conseguir controlar, só veio piorar as nossas vidas e escapou do nosso controlo. Tornámo-nos mais miseráveis e ela é que passou a ser a nossa controladora – ela passou a controlar-nos e a pretender mandar na vida de todos. E eternizou-se no poder.

Bom, hoje, nós, os filhos (o povo), estamos grandes, adultos, e quase que ninguém entre nós liga mais à luta de captura de poder na República dos Cossa. Ninguém se interessa em derrubar o regime de minha mãe.

Hoje temos outros objectivos. Também porque ela envelheceu e já não tem a força e o poder e a influência que costumava ter. Hoje em dia, eu, particularmente, apenas olho com carinho e amor para a velha ditadora.

Rio-me, lembrando-me dos velhos dias de confronto, quando eu era da oposição familiar, e faço piadas, quando a vejo, já velhinha, ainda apegada ao poder, teimosamente não aceitando que o tempo, o mundo e as posições negociais mudaram. Enfim…

Recordo-me aqui da nossa pequena República dos Cossa devido às suas assustadoras semelhanças com a República de Moçambique. Toda a nossa trajectória familiar na República dos Cossa é tragicamente semelhante à trajectória histórica do povo moçambicano do início da 2ª República (1990) aos dias de hoje… e à trajectória de muitos povos africanos.

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