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Mozambical: Face Oculta – Músicas da Face Oculta, por Niosta Cossa

1. Eu criei um blog no início de 2012, ou melhor, em Janeiro de 2012. Um blog que seria dedicado à Musica Africana, de forma geral, e à Música Moçambicana, particularmente. Sim, particularmente à Música Moçambicana. Entretanto, só comecei a postar matérias nesse blog em Março do mesmo ano, no dia 08.

Isto porque, da criação do blog ao início das postagens de matérias no mesmo, eu andava à procura da música “A Fúria das Águas” de Face Oculta, que faz parte do álbum Atenção: Desminagem!, da Kandonga.

Face Oculta é um dos alter-egos (o nome de MC/produtor) de Hélder Leonel, Hélder Leonel Malele, LilBrother H, DJ Malele. E eu havia decidido já há tempos que, se fosse para começar a postar algo, a primeira matéria deveria ser sobre Hélder Leonel.

Então, procurei a música. Afinal, para além de a produção musical de Hélder Leonel ser escassa, a música “A Fúria das Águas” é uma das melhores músicas hip-hop moçambicanas e uma das pouquíssimas obras deste género cujo sentido e arte vão além da Comunidade Hip-Hop, conseguindo ombrear com o que de melhor se fez no campo musical geral do país, logo, era imperioso que esta música fizesse parte do pacote das músicas do homem que iria postar.

E assim foi. Consegui a música em Hulene, no Estúdio BH – cortesia de Sarcófago – e comecei o meu blog. A primeira matéria postada foi sobre Hélder Leonel.

2. Agora, a história repete-se. Na hora de começar a escrever sobre Música Moçambicana para um jornal, eu, novamente, decidi que a primeira matéria que iria escrever, e o primeiro artista sobre o qual iria escrever seria Hélder Leonel.

Para sempre, há-de ser Hélder Leonel. Pois tenho para com ele uma dívida e uma gratidão. Dívida por conta da sua grandeza e excepcionalidade,particularmente, no contexto musical hip-hop, por tabela, no cenário da Cultura Urbana maputense, e, de maneira generalizada, no campo da Música Moçambicana.

E gratidão porque, quando abandonei a escola, na 10ª Classe, e me tornei um desajustado, revoltado, que não conhecia o seu lugar nesta sociedade maputense, Hélder Leonel deu sentido e foco à minha vida. Fez-me acreditar em alguma coisa – na música – e fez-me sentir que pertencia a um lugar – o seu programa radiofónico “Clássico Hip-Hop Time”, da Rádio Cidade, e a Comunidade Hip-Hop.E, deste modo, pude sobreviver à minha conturbada adolescência.

3. Falando das músicas de Hélder Leonel, ou seja, Face Oculta, que, como eu adiantava, não são tantas – são 3 as que existem para qualquer um ter e que apresentam um nível elevado de sofisticação sonora e qualidade artística –, estas são das mais sóbrias, valorosas e recomendáveis da discografia hip-hop moçambicana.

A já citada “A Fúria das Águas” é um clássico do Hip-Hop Moçambicano e uma das obras-primasda Música Moçambicana. Produzida pelo próprio Face Oculta. Obra que quanto mais é repetida, mais perfeita se revela. Pesada e sombria. Secamente descritiva. Com letra baseada em factos reais. E atmosfera melancólica e perturbadora, contudo, infinitamente poderosa. Uma grande música!(Recomendável em todas horas, principalmente por estes dias em que as águas voltaram a desgraçar famílias moçambicanas).

“Balanço Inspirador”, produzida pelo Paiol Sonoroe integrada no single TsunelaKaMilohro do mesmo colectivo, apresenta Hélder Leonel na música em que mais perto chegou da sua aspiração de fundir o Hip-Hop com Jazz. Música cheia de qualidade, qualidade realçada pela presença de Bhakka no refrão, onde o melhor vem da profundidade e honestidade da letra e do canto sóbrio e eficaz de Face Oculta.

Por fim, “Amor Real” é simplesmente a segunda melhor música de amor do Hip-Hop Moçambicano – a melhor é, de longe, “Ni ta kuFonela” de Azagaia: num país onde os rappers não têm imaginação suficiente para escrever uma letra de amor decente, Azagaia levou as coisas muito longe, fez uma obra- -prima e fechou tudo.

Face Oculta não conseguiu fazer uma música com o mesmo nível da de Azagaia, todavia, ao menos, fez uma música decente. E Xixel eleva ainda mais os níveis de decência da música.

4. O conjunto destas 3 músicas há-de ser uma das melhores introduções existentes para o cenário hip-hop moçambicano. Afinal, Hélder Leonel, ainda que não tenha muitas músicas por exibir, é dos rappers moçambicanos mais sérios e mais consistentes perante um microfone –consistência e seriedade igual, quando se trata de repar, no Hip-Hop Moçambicano, talvez se encontre apenas em Shackal, SickBrain e Drifa. Normalmente, os rappers moçambicanos não conseguem ser sérios nem consistentes durante uma música inteira. Pouquíssimos o conseguem.

NB: estas músicas de Face Oculta podem ser baixadas em: http://africagoingunite.blogspot.com/2012/03/face-oculta- -musicas-da-face-oculta.html.

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